
Suplementação
Magnésio: dimalato, glicinato, treonato ou citrato?
Resposta rápida: Não existe uma forma universalmente melhor. Todas as formas orgânicas, dimalato, glicinato, citrato, treonato, taurato, absorvem bem o suficiente. A diferença real está na tolerância digestiva, na quantidade de magnésio elementar por cápsula e no objetivo. Citrato solta o intestino e serve a quem tem prisão de ventre; glicinato é o mais tolerado por quem tem intestino sensível; dimalato virou sinônimo de fadiga com evidência bem mais fraca do que a propaganda sugere; treonato é o único com dados específicos de cérebro, ainda preliminares. A escolha depende do que você quer resolver e de avaliação individual.
Existe uma “melhor forma de magnésio”?
Não. Existe a forma mais adequada para o seu objetivo, o seu intestino e o seu orçamento. Quem responde essa pergunta com um nome único está vendendo alguma coisa.
A confusão nasce de um dado verdadeiro usado fora de contexto: as formas inorgânicas baratas, principalmente o óxido, têm absorção fraca. A partir daí o mercado criou uma hierarquia de nobreza entre as formas orgânicas, como se glicinato fosse duas vezes melhor que citrato e treonato dez vezes melhor que os dois. Não é isso que os comparativos mostram: entre as formas orgânicas as diferenças de biodisponibilidade são modestas e inconsistentes de um ensaio para outro, porque medir absorção de magnésio é difícil, o sangue carrega cerca de 1% do magnésio corporal e o rim ajusta a excreção rapidamente.
O que muda de uma forma para outra?
Três coisas: quanto do sal é magnésio de fato, quanto disso o intestino aproveita e qual efeito o ânion acoplado tem sozinho. O terceiro ponto é o mais esquecido e o mais decisivo na prática.
Magnésio nunca vem sozinho. Vem grudado em ácido cítrico, glicina, ácido málico, treonato ou taurina. Esse acompanhante muda o peso da molécula e às vezes tem ação própria: a glicina é um aminoácido inibitório com efeito calmante descrito, a taurina tem literatura própria em função cardiovascular, o citrato é osmoticamente ativo no intestino, daí o efeito laxativo. Boa parte do que se atribui ao “magnésio da forma X” é efeito do parceiro.
Os percentuais da tabela são aproximados e variam com o fabricante e o grau de hidratação do sal. Servem para ler rótulo, não como prescrição.
| Forma | Magnésio elementar (aprox.) | Absorção | Uso mais estudado | Tende a ser considerada quando |
|---|---|---|---|---|
| Citrato | ~16% | Boa; das melhores documentadas em ensaios comparativos | Correção de ingestão baixa; constipação | Há prisão de ventre associada e boa tolerância digestiva |
| Glicinato (bisglicinato) | ~14% | Boa, com pouco efeito laxativo | Reposição geral; estudos em sono e ansiedade ainda limitados | Intestino sensível, uso noturno, doses maiores |
| Dimalato (malato) | ~15% | Boa, comparável às demais orgânicas | Fibromialgia e fadiga, em estudos pequenos e antigos | Preferência por tomada diurna e boa tolerância |
| Treonato (L-treonato) | ~8% | Boa, mas com poucos comparativos diretos | Sono, cognição e memória, dados preliminares | O alvo declarado é cérebro e sono, com expectativa calibrada |
| Taurato | ~9% | Presumida boa; dados humanos escassos | Modelos animais em pressão arterial e função cardíaca | Interesse cardiovascular, ciente de que a evidência humana é rala |
| Cloreto | ~12% | Boa | Reposição; formulações líquidas | Custo e disponibilidade pesam na escolha |
| Óxido | ~60% | Baixa e errática | Laxante e antiácido | Raramente é a melhor escolha para repor magnésio |
“Quelato” não é uma forma de magnésio
Quelato descreve uma estrutura química, o mineral ligado a um aminoácido, e não um produto específico. Bisglicinato é um quelato. Rótulo que diz apenas “magnésio quelato” sem informar a que o magnésio está ligado está escondendo informação, não entregando tecnologia. Peça a forma pelo nome.
Quanto de magnésio elementar tem no seu pote?
Essa é a pergunta que separa comparação honesta de marketing. Uma cápsula de 500 mg de dimalato não entrega 500 mg de magnésio; entrega algo em torno de 75 mg.
As recomendações de ingestão para adultos giram em torno de 310 a 320 mg por dia para mulheres e 400 a 420 mg para homens, contando a comida. Quando alguém diz que “tomou magnésio e não sentiu nada”, muitas vezes estava tomando 60 ou 80 mg elementares por dia. Rótulo bom informa as duas coisas: peso do sal e magnésio elementar. Se só aparece o peso do sal, desconfie.
Isso também explica por que treonato costuma exigir várias cápsulas: com cerca de 8% de magnésio elementar, é preciso muito sal para chegar a uma dose relevante, e o preço por miligrama dispara.
Magnésio ajuda a dormir e a segurar a cãibra?
Para sono, há sinal em estudos pequenos, sobretudo em quem tem ingestão baixa. Para cãibra em pessoas saudáveis e em idosos, revisões sistemáticas não sustentam o benefício.
A cãibra é o mito de origem mais compreensível. Magnésio participa do relaxamento muscular e a deficiência grave causa hiperexcitabilidade neuromuscular; daí veio a ponte lógica de que suplementar resolveria cãibras comuns. Os ensaios não confirmam. A exceção parcial é a cãibra da gestação, com dados mistos e conduta do pré-natal.
No sono a hipótese é mais consistente, magnésio atua na regulação de receptores NMDA e GABA, mas os estudos são pequenos, curtos e com desfechos majoritariamente subjetivos. Um ensaio randomizado com 80 adultos que relatavam dificuldade para dormir usou magnésio L-treonato por 21 dias e encontrou melhora em medidas de sono e disposição diurna. Sinal interessante, não prova estabelecida, e boa parte dessa literatura tem apoio do fabricante da matéria-prima.
Dimalato resolve fadiga e fibromialgia?
A evidência é fraca. O que existe são estudos pequenos, antigos e com resultados inconsistentes, quase sempre combinando magnésio com ácido málico em doses altas.
A ideia veio da bioquímica: o malato participa do ciclo de Krebs, o magnésio é cofator de centenas de reações ligadas ao ATP e a fibromialgia foi teorizada como problema de metabolismo energético muscular. Plausível no papel. O ensaio mais citado é um piloto cruzado dos anos 1990 com poucas dezenas de pacientes, e revisões posteriores classificam o conjunto como incerto. Isso não é o mesmo que dizer que não funciona: é dizer que ninguém demonstrou direito. Quem tem fibromialgia merece conversa mais séria do que “toma dimalato”.
Treonato melhora memória?
É a forma com o marketing mais agressivo e a base mais preliminar. Estudos em animais mostraram aumento de magnésio no líquido cefalorraquidiano; nos humanos, os ensaios são poucos, pequenos e curtos.
O diferencial alegado é atravessar melhor a barreira hematoencefálica, e o dado que sustenta isso vem sobretudo de roedores. Em pessoas existem ensaios randomizados com desfechos cognitivos e de sono, com resultados favoráveis, mas amostras pequenas e vínculo comercial frequente. Nada disso torna o produto inútil. Torna prudente comprá-lo sabendo que você está pagando caro por uma aposta razoável, não por consenso.
Magnésio normal no exame de sangue não exclui carência
Cerca de 1% do magnésio corporal circula no soro; o resto está no osso e dentro das células. O organismo defende esse valor puxando do osso quando precisa, então o magnésio sérico só costuma cair em situações avançadas e um resultado dentro da faixa não descarta ingestão insuficiente. A avaliação pesa o que você come, o que você usa e o quadro clínico.
Como isso entra numa avaliação nutricional
A pergunta útil não é “qual forma”, e sim “por que magnésio, quanto e por quanto tempo”. A forma é a última decisão da sequência, não a primeira.
- Ingestão alimentar primeiro. Folhas verde-escuras, leguminosas, castanhas, sementes e cacau resolvem boa parte dos casos sem cápsula.
- Contexto clínico. Uso prolongado de inibidores de bomba de prótons, alguns diuréticos, diabetes mal controlado, álcool em excesso e doenças intestinais com má absorção mudam o cálculo. Ajuste de medicação é decisão médica.
- Objetivo declarado. Intestino preso, sono ruim, fadiga e desempenho levam a escolhas diferentes de forma e horário.
- Tolerância. Diarreia é o efeito adverso mais comum e o principal limitador de dose, sobretudo com citrato e óxido.
- Doença renal. Função renal reduzida exige acompanhamento médico antes de qualquer suplementação de magnésio.
Nada aqui é receita. Dose, forma e duração dependem de avaliação individual, do que você já usa e do seu histórico.
Perguntas frequentes
Glicinato e treonato são os mais usados com esse objetivo, o primeiro por tolerância e pelo efeito da glicina, o segundo por ter estudos específicos de sono. A evidência ainda é limitada nos dois casos, e sono ruim raramente se resolve só com suplemento.
Depende do objetivo e da tolerância. Os dois absorvem bem e têm teor elementar parecido. Dimalato costuma ser preferido de dia; glicinato, à noite ou em quem tem intestino sensível. A definição é individual.
Magnésio é vendido livremente, mas o excesso tem custo, sobretudo digestivo, e pode não fazer sentido no seu caso. Quem tem doença renal precisa de avaliação médica antes. O ideal é ter uma indicação clara e uma dose definida por avaliação.
As revisões sistemáticas não sustentam esse uso em pessoas saudáveis. Cãibra de treino costuma ter mais a ver com fadiga neuromuscular, hidratação e intensidade do que com magnésio.
Não há horário mágico. O que importa é a soma diária e a constância. Se o produto causa desconforto, tomar junto de uma refeição e dividir a dose ajuda mais do que mudar o horário.
Ele é a forma mais cara por miligrama de magnésio elementar e a que tem menos estudos humanos. Se o objetivo é corrigir ingestão baixa, outras formas cumprem o papel por muito menos.
Referências
- Schuchardt JP, Hahn A. Intestinal Absorption and Factors Influencing Bioavailability of Magnesium, An Update. Current Nutrition and Food Science. 2017. doi:10.2174/1573401313666170427162740
- Walker AF, Marakis G, Christie S, Byng M. Mg citrate found more bioavailable than other Mg preparations in a randomised, double-blind study. Magnesium Research. 2003;16(3):183-191. PMID: 14596323
- Hausenblas HA, Lynch T, Hooper S, et al. Magnesium-L-threonate improves sleep quality and daytime functioning in adults with self-reported sleep problems: A randomized controlled trial. Sleep Medicine: X. 2024;8:100121. doi:10.1016/j.sleepx.2024.100121