Marcos Hirata

Suplementação

Ashwagandha: para que serve e o que a evidência mostra

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: ashwagandha (Withania somnifera) é uma planta adaptógena com evidência moderada para reduzir estresse percebido e sintomas de ansiedade, evidência fraca a moderada para sono e evidência fraca para testosterona. Para emagrecimento, não há suporte direto. Não é suplemento de moda para tomar por conta própria: existem relatos raros de lesão hepática e situações em que ela é contraindicada.

A ashwagandha explodiu nas redes como se fosse resposta para tudo: ansiedade, sono, hormônio, cortisol, gordura abdominal. Como sempre acontece quando um suplemento vira tendência, o que a evidência realmente mostra é bem mais modesto, e mais interessante, do que o marketing sugere. Vamos por partes, separando o que tem estudo decente do que é extrapolação.

O que é ashwagandha e por que ela virou febre?

Resposta curta: é uma raiz usada há séculos na medicina ayurvédica, classificada hoje como “adaptógeno”, substância que, em tese, ajuda o organismo a lidar com estresse.

O termo adaptógeno é mais conceito de marketing do que categoria farmacológica rigorosa, mas a ashwagandha tem compostos ativos reais, os vitanolídeos, com ação estudada sobre o eixo do estresse (hipotálamo-hipófise-adrenal). Ela virou febre por uma combinação: a epidemia de estresse e insônia, o apelo do “natural” e alguns ensaios clínicos com resultados positivos que foram amplificados sem os devidos poréns. O trabalho aqui é justamente colocar os poréns de volta.

Ashwagandha funciona para estresse e ansiedade?

Resposta curta: sim, este é o uso com melhor suporte, evidência moderada, com reduções consistentes em escalas de estresse percebido e, em vários estudos, queda do cortisol.

O ensaio mais citado, de Chandrasekhar e colaboradores (2012), randomizou adultos com estresse crônico para 300 mg de extrato de raiz duas vezes ao dia ou placebo por 60 dias: o grupo ashwagandha teve redução significativa nas escalas de estresse e no cortisol sérico. Revisões sistemáticas posteriores apontam na mesma direção, mas com ressalvas importantes: estudos pequenos, quase todos conduzidos na Índia, vários financiados por fabricantes de extrato e com duração curta (6 a 12 semanas). Ou seja: o efeito parece real, mas o tamanho e a durabilidade dele ainda são incertos. E um ponto clínico essencial: ansiedade persistente que atrapalha a vida é quadro para avaliação médica ou psicológica, suplemento não substitui diagnóstico nem tratamento.

Ashwagandha melhora o sono?

Resposta curta: a evidência é fraca a moderada, há melhora pequena, mais perceptível em quem tem insônia, com doses de pelo menos 600 mg/dia por 8 semanas ou mais.

Uma meta-análise publicada na PLoS One em 2021 reuniu cinco ensaios randomizados e encontrou efeito pequeno mas significativo sobre a qualidade do sono, maior no subgrupo com insônia diagnosticada. Faz sentido fisiológico: se parte da insônia é mantida por hiperativação do eixo do estresse, reduzir essa ativação ajuda a dormir. Mas o efeito é discreto. Ninguém deve esperar que uma cápsula compense cafeína às 18h, tela até meia-noite e horário de sono caótico. Higiene do sono continua sendo a base; a ashwagandha é, no máximo, coadjuvante.

Ashwagandha aumenta testosterona?

Resposta curta: a evidência é fraca. Alguns estudos pequenos em homens mostram aumentos modestos; a relevância clínica disso é duvidosa.

Os ensaios que mediram testosterona encontraram elevações discretas, geralmente em homens com sobrepeso, estresse elevado ou fazendo treino de força, populações em que reduzir cortisol e melhorar sono já tende a favorecer o hormônio indiretamente. Nenhum estudo mostra que ashwagandha corrige hipogonadismo ou substitui investigação médica. Homem com libido baixa, fadiga e suspeita de testosterona baixa precisa de dosagem laboratorial e avaliação médica, não de um frasco comprado por indicação de influenciador. Diagnóstico e eventual tratamento hormonal são decisões do médico.

Ashwagandha emagrece?

Resposta curta: não há evidência direta de que ashwagandha cause perda de gordura. O que existe é efeito indireto plausível em quem come mais por estresse.

Essa é a busca que mais cresce e a com menos base. Um ou outro estudo pequeno em adultos estressados mostrou redução discreta de peso e de comer emocional, provavelmente porque menos estresse significa menos episódios de comer por ansiedade, mecanismo que explico em detalhe no texto sobre fome emocional. Mas atribuir emagrecimento à cápsula é inverter a lógica: quem melhora é o comportamento, não o metabolismo. Emagrecimento sustentado depende de balanço energético, e quando há suspeita de causa clínica por trás da dificuldade de emagrecer, o caminho é a investigação com o lado médico, não empilhar suplementos.

Mito: “ashwagandha seca a barriga porque baixa o cortisol”

O mito existe porque cortisol cronicamente alto de fato favorece acúmulo de gordura abdominal, daí o salto lógico de que baixar cortisol “queimaria” essa gordura. Só que reduzir cortisol dentro da faixa normal não cria déficit calórico nem mobiliza gordura por si só. Nenhum ensaio clínico demonstrou perda de gordura abdominal clinicamente relevante com ashwagandha. Se alguém prometer isso, está vendendo, não informando.

Qual dose e qual extrato foram estudados?

Resposta curta: a maioria dos ensaios usou 240 a 600 mg/dia de extrato padronizado de raiz, por 6 a 12 semanas. KSM-66 e Sensoril são os extratos mais estudados.

Isso importa porque “ashwagandha” no rótulo pode significar coisas muito diferentes: pó da raiz sem padronização, extratos concentrados com teor definido de vitanolídeos (o KSM-66 é padronizado em torno de 5%) ou misturas. Os resultados dos estudos valem para os extratos testados, nas doses testadas, não para qualquer cápsula de marketplace. E atenção à interpretação correta: essas são as doses estudadas, não uma receita universal. Se faz sentido usar, em qual dose e por quanto tempo, é decisão individualizada dentro de uma avaliação profissional, considerando medicamentos em uso, exames e contexto.

Uso alegadoForça da evidênciaO que os estudos mostram
Estresse e ansiedadeModeradaRedução consistente em escalas de estresse; queda de cortisol em vários ensaios de 6-12 semanas
SonoFraca a moderadaMelhora pequena na qualidade do sono, maior em quem tem insônia; ≥600 mg/dia por ≥8 semanas
TestosteronaFracaAumentos modestos em estudos pequenos; relevância clínica incerta
EmagrecimentoMuito fracaSem efeito direto demonstrado; possível efeito indireto via redução do comer por estresse
Performance físicaFracaAlguns ensaios sugerem ganhos discretos de força e VO2máx; estudos pequenos e heterogêneos

Ashwagandha faz mal? Quem não deve usar?

Resposta curta: é bem tolerada na maioria dos estudos, mas existem relatos raros e documentados de lesão hepática, além de grupos que não devem usar sem liberação médica.

Uma série de casos publicada na Liver International em 2020, reunindo pacientes da Islândia e da rede americana de lesão hepática por drogas (DILIN), documentou hepatite colestática associada ao uso de ashwagandha, com icterícia e prurido, geralmente semanas após o início do uso, com recuperação após a suspensão. É raro, mas é real. Evitar ou só usar com liberação médica: gestantes e lactantes (há preocupação com risco na gestação), pessoas com doença hepática, doença autoimune da tireoide ou uso de hormônio tireoidiano (a ashwagandha pode alterar hormônios tireoidianos), quem usa sedativos, ansiolíticos ou imunossupressores. Qualquer sinal de urina escura, pele ou olhos amarelados durante o uso: suspender e procurar o médico imediatamente.

Então vale a pena tomar ashwagandha?

Resposta curta: depende do problema, do contexto e do que já foi feito antes. Como decisão de moda, não vale. Como ferramenta pontual dentro de um plano, pode fazer sentido.

Meu raciocínio em consultório é sempre o mesmo, e vale para ashwagandha como vale para probióticos: primeiro identificar o problema real, depois atacar as causas com maior impacto (sono, treino, comida, manejo de estresse), e só então avaliar se um suplemento com evidência razoável agrega algo, na dose certa, pelo tempo certo, com acompanhamento. Suplemento que entra sem pergunta clínica definida sai sem resultado definido.

Perguntas frequentes

Nos estudos, os efeitos sobre estresse e sono aparecem entre 4 e 8 semanas de uso contínuo. Não é substância de efeito agudo perceptível no mesmo dia, como a cafeína.

Sonolência diurna leve é relatada por algumas pessoas, principalmente em doses maiores. Não é efeito universal, mas é motivo para ajustar horário ou dose, sempre com orientação profissional.

Não sem conversar com o médico que prescreveu. Há potencial de interação com sedativos e psicofármacos, e ajustar tratamento de ansiedade ou depressão é decisão médica, não de suplementação.

KSM-66 é um extrato padronizado de raiz e é o mais estudado em ensaios clínicos, o que dá mais previsibilidade de dose e teor de ativos. Pó de raiz sem padronização tem composição incerta, o rótulo importa.

Pode elevar hormônios tireoidianos em algumas pessoas. Quem tem hipertireoidismo, tireoidite autoimune ou usa levotiroxina não deve usar sem liberação e monitoramento médico.

Os estudos raramente passam de 12 semanas, então segurança de uso prolongado é pouco conhecida. O sensato é uso por período definido, com objetivo claro e reavaliação, não cápsula vitalícia.

Referências

  1. Chandrasekhar K, Kapoor J, Anishetty S. A prospective, randomized double-blind, placebo-controlled study of safety and efficacy of a high-concentration full-spectrum extract of ashwagandha root in reducing stress and anxiety in adults. Indian Journal of Psychological Medicine. 2012;34(3):255-262.
  2. Cheah KL, Norhayati MN, Husniati Yaacob L, Abdul Rahman R. Effect of Ashwagandha (Withania somnifera) extract on sleep: a systematic review and meta-analysis. PLoS One. 2021;16(9):e0257843.
  3. Björnsson HK, Björnsson ES, Avula B, et al. Ashwagandha-induced liver injury: a case series from Iceland and the US Drug-Induced Liver Injury Network. Liver International. 2020;40(4):825-829.

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