
Suplementação
Maca peruana: para que serve e o que a evidência mostra
Resposta rápida: a maca peruana tem evidência fraca a moderada para melhora de libido e de alguns sintomas da menopausa, e evidência praticamente nula para “regular hormônios”, aumentar testosterona ou emagrecer. É um alimento razoavelmente seguro nas doses estudadas, mas o marketing em torno dela é muito maior do que a ciência que a sustenta.
O que é a maca peruana, afinal?
É a raiz de uma planta andina (Lepidium meyenii), consumida como alimento no Peru há séculos, não uma “cápsula milagrosa” recém-descoberta.
A maca é parente do rabanete e da couve, cresce acima de 4.000 metros de altitude e, na sua forma tradicional, é cozida e comida como tubérculo. O que chega ao Brasil é quase sempre a farinha da raiz seca ou extratos em cápsula. Nutricionalmente, é fonte de carboidrato, um pouco de fibra e proteína, e compostos próprios chamados macamidas e macaenos, que são os candidatos a explicar algum efeito biológico, embora o mecanismo ainda seja mal compreendido. Isso importa: quando nem o mecanismo está claro, qualquer promessa grandiosa merece desconfiança dobrada.
Maca peruana aumenta a libido? O que os estudos mostram?
Aqui está o único uso com algum suporte: ensaios pequenos sugerem melhora do desejo sexual, mas a evidência é classificada como limitada pelos próprios revisores.
Uma revisão sistemática publicada no BMC Complementary and Alternative Medicine encontrou apenas quatro ensaios clínicos randomizados sobre função sexual. Dois sugeriram efeito positivo sobre libido em homens saudáveis e mulheres na pós-menopausa; os autores concluíram que os resultados são promissores, porém baseados em poucos estudos, pequenos e com risco de viés, ou seja, insuficientes para uma recomendação firme. O estudo mais citado, do grupo peruano de Gonzales, observou aumento do desejo sexual em homens após 8 a 12 semanas de uso. Detalhe importante desse mesmo estudo: o efeito ocorreu sem nenhuma alteração na testosterona. Isso derruba na prática a narrativa de “maca hormonal”, se ela faz algo pela libido, não é por esse caminho.
Maca aumenta testosterona ou “regula os hormônios”?
Não. Os ensaios que mediram testosterona, LH, FSH, estradiol e prolactina não encontraram alteração relevante.
Esse é o mito mais repetido sobre a maca, e vale explicar por que ele existe: como a raiz foi associada a libido e fertilidade, o marketing fez o atalho mental “libido = hormônio, logo maca mexe em hormônio”. Só que os dados dizem o contrário. No estudo de Gonzales em homens saudáveis, doses de 1,5 g e 3 g por dia durante 12 semanas não alteraram testosterona sérica. Em mulheres na pós-menopausa, a melhora de sintomas psicológicos observada em um pequeno ensaio também não se acompanhou de mudança em estrogênio ou andrógenos. Chamar a maca de “modulador hormonal natural” é vender um mecanismo que os estudos procuraram e não acharam. Quem tem queixa hormonal real, suspeita de hipogonadismo, distúrbio de tireoide, sintomas intensos de climatério, precisa de investigação médica, não de raiz em cápsula; diagnóstico e tratamento hormonal são atos médicos.
Maca peruana emagrece ou engorda?
Nem uma coisa nem outra em dose de suplemento: não há ensaio clínico mostrando que maca emagrece, e as calorias de 1 a 3 g de farinha são irrelevantes.
A busca “maca peruana engorda” cresce porque a farinha é rica em carboidrato (na composição, cerca de 60 a 75% do peso seco). Mas façamos a conta: 3 g de farinha rendem em torno de 10 kcal, menos que meia bolacha. Ninguém engorda por isso, e ninguém emagrece por isso. Não existe estudo humano de qualidade mostrando efeito da maca sobre peso, gordura corporal ou gasto energético. Se o objetivo é emagrecimento, o que move o ponteiro continua sendo balanço energético, proteína adequada e treino, sobre isso, vale ler quanto de proteína por dia. E se você está avaliando suplementos “emagrecedores” da moda, o mesmo raciocínio crítico que apliquei à berberina vale aqui: pergunte sempre pelo tamanho do efeito, não pelo hype.
Mito derrubado: “maca é o viagra natural”
Viagra trata disfunção erétil por um mecanismo vascular conhecido, com efeito grande e mensurável. A maca tem sinal fraco sobre desejo sexual em estudos pequenos, desejo e ereção são coisas diferentes. Para disfunção erétil, a evidência da maca é escassa e de baixa qualidade. Disfunção erétil persistente merece avaliação médica, porque pode ser sinal precoce de problema cardiovascular ou metabólico, não motivo para autotratamento com suplemento.
Maca ajuda na menopausa?
Talvez em sintomas psicológicos (ansiedade, humor, queixas sexuais), com evidência fraca; não substitui avaliação e tratamento médico do climatério.
Uma revisão sistemática na revista Maturitas identificou quatro ensaios em mulheres na menopausa, com resultados favoráveis sobre sintomas, mas os autores foram explícitos: número pequeno de estudos, qualidade metodológica limitada e dados insuficientes de segurança para recomendar. Como a melhora não veio acompanhada de mudança hormonal, a hipótese é de efeito em outros sistemas (ou parcialmente placebo, ensaios pequenos inflam efeitos). Mulher com fogachos intensos, insônia e queda de qualidade de vida deve discutir opções com ginecologista, incluindo terapia hormonal quando indicada, decisão que é médica.
E para fertilidade e disposição?
Para qualidade seminal há estudos pequenos com resultados mistos; para “energia” e desempenho físico, a evidência é anedótica.
Alguns ensaios sugerem melhora discreta de concentração e motilidade espermática, mas são amostras minúsculas e resultados inconsistentes entre estudos. Casal com dificuldade para engravidar precisa de investigação formal (espermograma, avaliação hormonal, fatores femininos), não de mais um frasco. Quanto à fama de “energético natural”: não há ensaio robusto mostrando ganho de performance, e a sensação subjetiva de disposição relatada por usuários nunca foi separada de forma convincente do efeito placebo.
Maca peruana faz mal? Quem não deve usar?
Nas doses estudadas (1,5 a 3 g/dia por até 12 semanas), o perfil de segurança foi bom, com poucos relatos de desconforto gastrointestinal e insônia leve.
Os pontos de cautela são os de sempre com suplemento popular: faltam dados de uso prolongado; gestantes, lactantes e pessoas com câncer hormônio-sensível devem evitar por ausência de dados (mesmo sem efeito hormonal demonstrado, prudência); e produtos vendidos como “maca para potência” já foram flagrados adulterados com fármacos análogos de sildenafil, comprar de marca idônea não é detalhe. Suplemento também não é isento de contexto: a indicação deve ser individualizada após avaliação, nunca copiada de influenciador.
| Alegação popular | O que a evidência mostra | Força da evidência |
|---|---|---|
| Aumenta a libido | Sinal positivo em poucos ensaios pequenos | Fraca a moderada |
| Aumenta testosterona | Estudos não mostraram alteração hormonal | Evidência contrária |
| Trata disfunção erétil | Dados escassos e de baixa qualidade | Muito fraca |
| Alivia sintomas da menopausa | Resultados favoráveis em ensaios pequenos e heterogêneos | Fraca |
| Emagrece | Nenhum ensaio clínico de qualidade em humanos | Praticamente nula |
| Engorda | Dose usual tem ~10 kcal; irrelevante | Sem plausibilidade |
Vale a pena comprar maca peruana?
Como alimento ou teste individual para libido, com expectativa realista, é uma aposta barata e de baixo risco. Como “regulador hormonal” ou emagrecedor, é dinheiro mal gasto.
Meu critério para qualquer suplemento é o mesmo: efeito provável × custo × risco × alternativa melhor. A maca passa no quesito risco, empata no custo e perde feio no quesito “alternativa melhor”, porque libido baixa costuma ter causas tratáveis (sono ruim, estresse, medicação, relação com o corpo, condição clínica não investigada) que nenhuma raiz resolve. O papel do nutricionista atualizado é dizer exatamente isso: onde a evidência termina e onde o marketing começa.
Perguntas frequentes
Nos estudos que observaram melhora de libido, o efeito apareceu após 8 a 12 semanas de uso contínuo. Se em 12 semanas você não notar nada, não há razão baseada em evidência para insistir.
A maioria dos ensaios usou entre 1,5 g e 3 g por dia da raiz seca. Isso é o que foi estudado, não uma prescrição universal: a decisão de usar, e como, deve ser individualizada em consulta.
Não. A dose usual de 1,5 a 3 g de farinha fornece cerca de 5 a 10 kcal, o que é irrelevante para o peso. Ganho de peso durante o uso vem de outros fatores da rotina, não da maca.
Os estudos que mediram testosterona não encontraram aumento. Sintomas de testosterona baixa (fadiga, queda de libido, perda de massa muscular) pedem avaliação médica com exames, não suplemento por conta própria.
Por falta de dados de segurança, gestantes, lactantes e pessoas com câncer hormônio-sensível devem evitar. Quem usa medicação contínua ou tem doença crônica deve conversar com seu médico e nutricionista antes.
Estudos em animais sugerem perfis diferentes entre as variedades, mas em humanos não há comparação de qualidade que justifique pagar mais caro por uma cor específica. É mais um argumento de marketing do que de ciência.
Referências
- Shin BC, Lee MS, Yang EJ, Lim HS, Ernst E. Maca (L. meyenii) for improving sexual function: a systematic review. BMC Complementary and Alternative Medicine. 2010;10:44.
- Lee MS, Shin BC, Yang EJ, Lim HJ, Ernst E. Maca (Lepidium meyenii) for treatment of menopausal symptoms: a systematic review. Maturitas. 2011;70(3):227-233.
- Gonzales GF, Córdova A, Vega K, et al. Effect of Lepidium meyenii (maca) on sexual desire and its absent relationship with serum testosterone levels in adult healthy men. Andrologia. 2002;34(6):367-372.