Marcos Hirata

Mitos

Manteiga ou margarina: o duelo que a ciência já resolveu

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: a pergunta envelheceu mal. A margarina realmente perigosa, a hidrogenada, cheia de gordura trans industrial, não existe mais no Brasil desde 2023, e o duelo clássico perdeu o vilão. Entre a manteiga e a margarina de hoje, a diferença de impacto cardiovascular é pequena e depende mais da quantidade e do resto da dieta do que da escolha em si. E a resposta honesta que ninguém quer ouvir: se o critério for evidência de desfecho duro, o azeite ganha das duas com folga.

Por que essa briga durou 60 anos?

Resposta curta: porque cada geração recebeu uma recomendação oposta, sempre apresentada como definitiva, e ninguém avisou que a margarina de 1975 não é a margarina de hoje.

A margarina virou produto de massa quando a indústria dominou a hidrogenação parcial: injetar hidrogênio em óleos vegetais líquidos para deixá-los sólidos e estáveis. Nos anos 1960 e 1970, com a saturada da manteiga no banco dos réus, a margarina foi promovida a escolha cardioprotetora e milhões de pessoas trocaram por orientação médica. O problema é que a hidrogenação criava um subproduto que ninguém estava medindo: os ácidos graxos trans.

O que a gordura trans industrial fez, afinal?

Resposta curta: foi a única gordura alimentar com evidência consistente de dano em desfecho duro. Ela elevava LDL e ao mesmo tempo derrubava HDL, combinação que nenhuma outra gordura faz.

A partir dos anos 1990, coortes grandes e ensaios metabólicos convergiram: a trans industrial piorava o perfil lipídico nas duas pontas, elevava marcadores inflamatórios e se associava a mais eventos cardiovasculares, com efeito desproporcional à quantidade consumida. A OMS lançou uma iniciativa global de eliminação e, no Brasil, a RDC 332/2019 da Anvisa proibiu o uso de óleos e gorduras parcialmente hidrogenados em alimentos a partir de 1º de janeiro de 2023.

Ou seja, o argumento mais forte contra a margarina foi resolvido por regulação sanitária, não por escolha de supermercado. Quem ainda decide usando o medo da trans está discutindo um produto que saiu de circulação.

Mito: “margarina é plástico, está a um átomo de ser plástico”

A frase circula há duas décadas em corrente de WhatsApp e não tem sentido químico. Margarina é emulsão de óleo vegetal, água, sal e emulsificantes; plástico é polímero sintético de cadeia longa. Não existe “um átomo de diferença” nem estudo sustentando isso. O teste da formiga também não prova nada: formiga busca açúcar, não gordura, e ignora manteiga pura pelo mesmo motivo. O mito pegou porque havia um problema real (a trans) e a intuição popular preencheu a lacuna com uma explicação dramática e errada. A crítica legítima à margarina sempre foi sobre trans e grau de processamento, nunca sobre plástico.

Interesterificada é o novo vilão?

Resposta curta: é a tecnologia que substituiu a hidrogenação, e por enquanto a evidência não a coloca no mesmo patamar de risco da trans. Mas também não é uma gordura sobre a qual se possa dizer “está tudo certo, pode ir”.

Para dar consistência sem gerar trans, a indústria adotou a interesterificação: rearranjar a posição dos ácidos graxos dentro da molécula de triacilglicerol, geralmente combinando óleo vegetal com fração totalmente hidrogenada ou com óleo de palma. O grau de saturação total não muda, muda onde cada ácido graxo fica ancorado, e isso altera ponto de fusão, digestão e resposta pós-prandial.

As revisões mostram efeitos pós-prandiais modestos, às vezes até favoráveis sobre triglicerídeos, e nenhum sinal de que se reproduza o estrago da trans. O ponto honesto é outro: essa evidência é quase toda de curto prazo, em marcadores intermediários, e não existe ensaio de anos com desfecho cardiovascular. Estudos em animais levantam hipóteses sobre tecido adiposo e fígado, mas modelo animal com dieta extrema não se transfere direto para o café da manhã de ninguém. A evidência aqui é fraca nos dois sentidos, para condenar e para absolver.

E a manteiga? A gordura saturada foi absolvida?

Resposta curta: não foi absolvida nem condenada à forca. A revisão Cochrane mais robusta mostra que reduzir saturada diminui eventos cardiovasculares em cerca de 17%, mas o benefício depende de por que você troca.

Esse é o detalhe que a internet apaga. Trocar saturada por poli-insaturada reduz eventos. Trocar saturada por farinha branca e açúcar não reduz nada. Foi o que aconteceu nos anos 1990, quando o “low fat” virou biscoito sem gordura e cheio de açúcar. E o efeito sobre mortalidade total é bem menos claro que sobre eventos. A manteiga, portanto, não é veneno: é fonte concentrada de saturada, compatível com uma dieta boa quando entra em quantidade pequena e não desloca gorduras melhores.

Manteiga ou margarina: qual eu levo, então?

Resposta curta: se a decisão for só entre as duas, olhe o rótulo em vez da categoria. Margarina cremosa com bom teor de insaturada leva ligeira vantagem lipídica; a manteiga leva vantagem em simplicidade e sabor. A diferença clínica entre elas é menor do que o marketing dos dois lados sugere.

CritérioManteigaMargarina atualAzeite extravirgem
Perfil de gorduraPredomínio de saturadaPredomínio de insaturada, com fração saturada estruturalPredomínio de monoinsaturada
Gordura trans industrialNão temNão tem mais (proibida no Brasil desde 2023)Não tem
Grau de processamentoBaixoAlto (refino, interesterificação, aditivos)Baixo (prensagem mecânica)
Efeito sobre LDLTende a elevarNeutro a discretamente favorávelFavorável quando substitui saturada
Evidência de desfecho duroNeutra a desfavorável, dependente do substitutoEscassa a longo prazoForte e consistente
Uso no calorQueima fácil, bom para dourar rápidoRuim para cocçãoEstável em refogado e forno doméstico

Por que o azeite ganha das duas?

Resposta curta: porque é a única das três com evidência de desfecho, não só de marcador. Coortes americanas com dezenas de milhares de participantes e décadas de seguimento associam maior consumo de azeite a menor mortalidade total e cardiovascular, especialmente quando ele substitui manteiga e margarina.

Isso é observacional, com as limitações que a palavra carrega. Quem come azeite também come mais legume e fuma menos. Mas o ensaio clínico do padrão mediterrâneo aponta na mesma direção, e a coerência entre desenhos diferentes é o que dá confiança. Para aprofundar em qualidade, acidez e o que importa na compra, vale ler azeite de oliva vale a pena; o mesmo raciocínio de substituição aparece em ômega-3 vale a pena.

Isso muda se eu tenho colesterol alto?

Resposta curta: muda o peso da decisão, não a lógica. E vale lembrar: dislipidemia é diagnóstico médico, e a conduta, inclusive se cabe medicação. É do médico.

Quem tem LDL elevado, doença cardiovascular estabelecida ou histórico familiar forte tende a se beneficiar mais da troca de saturada por insaturada, e aí substituir a manteiga do pão por azeite ou pasta de castanha deixa de ser detalhe. Ainda assim, nenhuma escolha de café da manhã substitui investigação e acompanhamento. O nutricionista monta o padrão alimentar e ajusta substituições ao seu contexto; o médico diagnostica e decide sobre tratamento farmacológico.

Perguntas frequentes

Ghee é manteiga clarificada: sai água, lactose e caseína, concentra a gordura. Ajuda quem tem intolerância à lactose e suporta melhor o calor. No perfil de gordura, segue predominantemente saturada, mais concentrada, inclusive. Não é versão “saudável” da manteiga, é versão mais pura dela.

Entram, e muita gente esquece. Requeijão cremoso costuma trazer saturada e sódio em quantidade relevante, além de amido e estabilizantes nas versões mais baratas. Não é o “meio-termo leve” que aparenta.

Sim, e hoje é a regra no Brasil, não a exceção. Vale lembrar que a rotulagem permite declarar zero quando o teor por porção é muito baixo, então o critério mais confiável é procurar na lista de ingredientes se aparece “gordura vegetal parcialmente hidrogenada”, que não deveria mais estar lá.

Pode, e é uma boa troca. A textura muda, mas funciona bem com sal, orégano ou tomate. Pasta de castanha sem açúcar, abacate amassado e homus também são substituições razoáveis.

Não há evidência de que adicionar gordura ao café gere perda de peso por si. O que costuma acontecer é menos fome por algumas horas, efeito de saciedade e rotina, não metabólico. E são calorias que precisam caber no dia.

Não existe número universal, e desconfie de quem entrega um. Depende do total energético, do perfil lipídico e das demais gorduras do dia. Isso se define na avaliação individual, considerando exames e hábito real de consumo.

Referências

  1. Hooper L, Martin N, Jimoh OF, Kirk C, Foster E, Abdelhamid AS. Reduction in saturated fat intake for cardiovascular disease. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2020;(8):CD011737. doi:10.1002/14651858.CD011737.pub3
  2. Guasch-Ferré M, Li Y, Willett WC, et al. Consumption of olive oil and risk of total and cause-specific mortality among U.S. adults. Journal of the American College of Cardiology. 2022;79(2):101-112. doi:10.1016/j.jacc.2021.10.041
  3. Alfieri A, Imperlini E, Nigro E, et al. Effects of plant oil interesterified triacylglycerols on lipemia and human health. International Journal of Molecular Sciences. 2018;19(1):104. doi:10.3390/ijms19010104

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