Marcos Hirata

Suplementação

Melatonina para dormir: vale a pena? Dose, horário e mitos

Voltar ao Blog

Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: melatonina não é um sedativo: é um hormônio que sinaliza para o corpo que a noite chegou. Funciona bem para jet lag e para quem tem o relógio biológico atrasado; para insônia crônica, o efeito é modesto, em média, poucos minutos a menos para pegar no sono. Vale a pena em situações específicas, na dose baixa e no horário certo, e não como solução universal para dormir mal.

O que a melatonina realmente faz no corpo?

Resposta curta: ela avisa o cérebro que escureceu. É um sinalizador de horário, não um indutor de sono potente.

A melatonina é produzida pela glândula pineal quando a luz diminui. Ela não “desliga” o cérebro como um ansiolítico faria: ela informa ao relógio biológico central que a fase escura do dia começou, e o organismo inicia a transição para o sono, queda de temperatura corporal, redução do alerta, ajuste hormonal. Por isso os pesquisadores a chamam de cronobiótico: uma substância que ajusta o horário dos processos biológicos. Essa distinção muda tudo na prática. Se o seu problema é o relógio (dormir e acordar tarde demais, fuso horário, turno de trabalho), a melatonina age exatamente no mecanismo do problema. Se o seu problema é hiperalerta, ansiedade, cafeína às 18h, celular na cama, cortisol elevado à noite. Ela sinaliza o horário para um corpo que não está ouvindo, e o efeito decepciona.

Melatonina funciona para insônia?

Resposta curta: funciona pouco. As meta-análises mostram efeito real, porém pequeno, na insônia crônica.

A meta-análise de Ferracioli-Oda e colaboradores, que reuniu 19 ensaios clínicos randomizados, encontrou redução média de cerca de 7 minutos no tempo para adormecer e ganho de cerca de 8 minutos no tempo total de sono. É estatisticamente significativo, e clinicamente modesto. Tanto que a Academia Americana de Medicina do Sono, na diretriz de 2017, não recomenda melatonina como tratamento de insônia crônica em adultos, por evidência fraca. O tratamento com melhor evidência para insônia crônica continua sendo a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I), e casos persistentes merecem avaliação médica, insônia pode ser sintoma de apneia, depressão, disfunção tireoidiana, e esse diagnóstico é do médico, não do nutricionista.

Então para que a melatonina funciona bem?

Resposta curta: para problemas de relógio biológico: jet lag e síndrome do atraso de fase do sono.

A revisão Cochrane sobre jet lag concluiu que a melatonina é notavelmente eficaz para prevenir ou reduzir os sintomas em quem cruza vários fusos horários. E a diretriz americana para transtornos do ritmo circadiano recomenda melatonina no tratamento do atraso de fase, aquele padrão de quem só consegue dormir de madrugada e, quando pode, acorda perto do meio-dia, muito comum em adolescentes e adultos jovens. Nesses cenários, tomada no horário estratégico, ela adianta o relógio de forma mensurável. Há uso estudado também em trabalhadores de turno e em cegos com ritmo de sono “livre”, sempre com lógica cronobiológica, não sedativa.

SituaçãoO que a evidência mostraVale considerar?
Jet lag (vários fusos)Eficácia consistente em revisão CochraneSim, uso pontual
Atraso de fase do sonoRecomendada em diretriz de medicina do sonoSim, com horário estratégico
Insônia crônicaEfeito pequeno (~7 min a menos para adormecer)Pouco; priorizar TCC-I e avaliação médica
Sono ruim por ansiedade, telas, cafeínaNão corrige a causaNão como solução isolada

Qual é a dose certa, e por que no Brasil o suplemento tem 0,21 mg?

Resposta curta: a Anvisa autorizou melatonina como suplemento até 0,21 mg/dia para adultos; boa parte dos estudos usou de 0,5 a 5 mg. Doses maiores não significam efeito maior.

Essa é a maior confusão do mercado brasileiro. Desde 2021, a melatonina pode ser vendida aqui como suplemento alimentar com limite de 0,21 mg por dia, valor próximo do que o corpo produz, definido por critério de segurança regulatória, não por ser a “dose terapêutica” dos ensaios clínicos. Já os produtos importados chegam a 3, 5, 10 mg. O detalhe que quase ninguém conta: para efeito cronobiótico, dose baixa costuma bastar, porque o que importa é o sinal no horário certo, não a quantidade. Doses altas prolongam a presença do hormônio na circulação, podem causar sonolência residual pela manhã e, tomadas na hora errada, empurram o relógio na direção errada. Doses acima do suplemento nacional entram em território de conduta médica, se houver indicação, quem define é o médico que acompanha o caso. Aqui a orientação é educativa e sempre condicionada à avaliação individual.

Que horas tomar melatonina?

Resposta curta: depende do objetivo. Para adiantar o relógio, algumas horas antes do horário desejado de dormir; nunca de madrugada “para voltar a dormir”.

Para atraso de fase, os protocolos usam melatonina algumas horas antes do horário em que a pessoa quer passar a dormir, combinada com luz forte pela manhã e redução de luz à noite, o horário da tomada importa mais que a dose. Para jet lag, toma-se próximo do horário de dormir no destino. O erro clássico é acordar às 3h da manhã, tomar melatonina e esperar sedação: além de não funcionar assim, o sinal fora de hora pode atrasar o relógio e piorar as noites seguintes. E nenhum comprimido compete com luz de tela no rosto até meia-noite, luz à noite suprime a melatonina que você produz de graça.

Mito: “melatonina é o indutor natural do sono, quanto mais, melhor”

O mito existe porque a melatonina sobe naturalmente à noite, e o marketing transformou correlação em mecanismo de sedação. Mas ela marca o horário do sono, não o produz à força. Nos estudos, doses de 0,5 mg ajustam o relógio de forma comparável a doses muito maiores, e o excesso pode causar ressaca matinal e sinal circadiano na hora errada. Se 10 mg “resolve” e 0,5 mg não, vale investigar se o problema era mesmo de relógio.

Melatonina engorda?

Resposta curta: não há evidência de que melatonina engorde. O que engorda é dormir mal cronicamente.

A busca “melatonina engorda” é altíssima, mas a literatura não sustenta ganho de peso causado pelo suplemento, em modelos experimentais, a melatonina aparece até associada a efeitos metabólicos neutros ou favoráveis, com evidência ainda fraca em humanos para qualquer efeito sobre peso, num sentido ou noutro. O elo real entre sono e balança é outro: privação de sono aumenta grelina, reduz leptina, eleva cortisol e aumenta a procura por comida calórica no dia seguinte, um terreno que se mistura com a fome emocional e com o padrão de cortisol alterado que detalho no artigo sobre cortisol alto e alimentação. Ou seja: tratar o sono ajuda o emagrecimento; culpar o comprimido de melatonina pelo ponteiro da balança não tem base.

Melatonina tem efeito colateral? Vicia?

Resposta curta: em dose baixa e uso de curto prazo, o perfil de segurança é bom; não há dependência descrita como a de hipnóticos. Faltam dados robustos de uso prolongado em dose alta.

Os efeitos adversos mais relatados são sonolência diurna, dor de cabeça e tontura, geralmente leves. Diferentemente de benzodiazepínicos e “zetas”, não há tolerância nem síndrome de abstinência bem documentadas. Dito com a honestidade que a evidência exige: estudos longos, com doses altas, em gestantes, lactantes e crianças são escassos, nesses grupos, e em quem usa anticoagulantes, imunossupressores ou anticonvulsivantes, a decisão passa obrigatoriamente pelo médico. Suplemento seguro não é sinônimo de suplemento indicado para todo mundo.

Quando o sono ruim pede investigação, e não suplemento?

Resposta curta: quando é crônico, quando há ronco e pausas na respiração, ou quando vem acompanhado de sintomas de humor, intestino ou metabolismo.

Insônia persistente, sonolência diurna importante e ronco alto merecem avaliação médica antes de qualquer frasco. Do lado nutricional, o que faço no consultório é atacar as alavancas que a melatonina não alcança: horário e composição do jantar, cafeína e álcool, regularidade alimentar, e a relação de mão dupla entre sono e intestino. Quem trata SIBO sabe o quanto distensão e desconforto noturno atrapalham dormir. Decisão de suplementar é individual: contexto, causa provável e resposta observada valem mais do que a moda do momento.

Perguntas frequentes

Para efeito de sinalização circadiana, doses baixas já produzem ajuste de relógio em estudos. Ela não vai sedar ninguém, mas sedação nunca foi o mecanismo. Se a expectativa é “apagar”, a frustração é garantida em qualquer dose.

Uso prolongado em dose baixa parece seguro nos dados disponíveis, mas faltam estudos longos e robustos. Se você precisa dela cronicamente para dormir, o mais sensato é investigar a causa da insônia com um médico, não perpetuar o suplemento.

Nem um, nem outro, com a evidência atual em humanos. O que altera peso é a qualidade do sono: dormir mal desregula grelina, leptina e cortisol e aumenta a fome no dia seguinte. Melhorar o sono ajuda; o comprimido em si não muda a balança.

No Brasil, o suplemento é autorizado para adultos. Em crianças há uso estudado em situações específicas (como transtorno do espectro autista), mas isso é decisão do pediatra ou neurologista, caso a caso, nunca por conta própria.

Próximo do horário de dormir no destino, nos primeiros dias após a chegada, especialmente em viagens para leste cruzando vários fusos. Combine com exposição à luz do dia no novo fuso, que é o sincronizador mais potente do relógio.

Não. São mecanismos diferentes: hipnóticos sedam, melatonina sinaliza horário. Trocar, reduzir ou suspender medicação de sono é decisão exclusiva do médico que prescreveu, o papel da nutrição é otimizar os fatores comportamentais e alimentares do sono.

Referências

  1. Ferracioli-Oda E, Qawasmi A, Bloch MH. Meta-analysis: melatonin for the treatment of primary sleep disorders. PLoS One. 2013;8(5):e63773.
  2. Auger RR, Burgess HJ, Emens JS, et al. Clinical Practice Guideline for the Treatment of Intrinsic Circadian Rhythm Sleep-Wake Disorders. J Clin Sleep Med. 2015;11(10):1199-1236.
  3. Herxheimer A, Petrie KJ. Melatonin for the prevention and treatment of jet lag. Cochrane Database Syst Rev. 2002;(2):CD001520.

ATENDIMENTOS EM LONDRINA E ONLINE

Quer transformar informação em uma estratégia individual?

Agendar sua avaliação
Agende sua consulta