Marcos Hirata

Bariátrica e GLP-1

Ozempic causa queda de cabelo? O que a comida explica

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: queda de cabelo aparece nos relatos de quem usa semaglutida e tirzepatida, e uma revisão sistemática de 2026 confirma o sinal, principalmente com essas duas moléculas e mais em mulheres. O tipo mais descrito é o eflúvio telógeno, o mesmo que aparece depois de cirurgia, dieta muito restritiva e perda rápida de peso. A causa mais provável não é o medicamento atacando o folículo, e sim a combinação de perda de peso acelerada com ingestão insuficiente de proteína e de micronutrientes, porque o apetite some. É esse pedaço que a alimentação consegue corrigir.

Ozempic causa queda de cabelo?

A resposta honesta é que existe um sinal consistente de associação, e que causa direta ainda não está estabelecida. Isso não é evasiva, é o estado atual da evidência, e a diferença entre as duas coisas importa para decidir o que fazer.

Queda de cabelo não é um efeito colateral que apareceu com destaque nos primeiros ensaios clínicos dos análogos de GLP-1. Ela ganhou corpo depois, com bases de farmacovigilância e estudos de coorte em bancos de dados de mundo real, quando milhões de pessoas passaram a usar esses medicamentos para obesidade, em doses mais altas do que as usadas em diabetes.

Vale separar duas perguntas que costumam vir grudadas. A primeira é se a molécula tem ação tóxica sobre o folículo. A segunda é se o processo que ela desencadeia no corpo, que é perder muito peso em pouco tempo comendo bem menos, derruba cabelo. A segunda pergunta tem resposta conhecida há décadas, e é sim.

O que os estudos mostram até agora?

Uma revisão sistemática publicada em 2026 na Science Progress avaliou 24 estudos primários sobre queda de cabelo e agonistas do receptor de GLP-1. Entre as moléculas, semaglutida e tirzepatida foram as que apresentaram as maiores taxas de queda relatada e os sinais mais frequentes em farmacovigilância. Os subtipos predominantes descritos foram alopecia androgenética e eflúvio telógeno.

Dois pontos dessa revisão merecem destaque. O primeiro: mulheres aparecem desproporcionalmente afetadas. O segundo: a tirzepatida, que é a associada à maior magnitude de perda de peso, foi a mais ligada ao eflúvio telógeno, e a perda rápida de peso emergiu como contribuinte provável. Os autores também observaram que os relatos se concentram nas doses mais altas, usadas no tratamento da obesidade.

Estudos de coorte em bancos de dados reforçam a direção. Um estudo retrospectivo publicado no Journal of the American Academy of Dermatology em 2025 encontrou risco aumentado de eflúvio telógeno com tirzepatida em comparação com outros medicamentos para perda de peso, e outro estudo de coorte publicado no mesmo periódico em 2026 avaliou queda de cabelo de início recente com semaglutida e tirzepatida. São desenhos observacionais, com as limitações que isso carrega, mas o conjunto aponta para o mesmo lado. Os próprios autores da revisão concluem que ainda faltam estudos prospectivos para estabelecer causalidade.

É o remédio ou é a velocidade da perda de peso?

O folículo capilar está entre os tecidos de divisão mais rápida do corpo, e é caro em energia, aminoácidos e micronutrientes. Quando o organismo entra em déficit importante, ele corta o que considera dispensável, e o cabelo está nessa lista. Esse mecanismo é bem descrito em dietas de muito baixa caloria, em transtornos alimentares e depois de cirurgia bariátrica, onde a incidência de queda passa de 50% na metanálise mais citada.

O que o análogo de GLP-1 faz é reduzir apetite e retardar o esvaziamento gástrico. A pessoa come menos porque não sente vontade, e come menos de tudo, inclusive de proteína, ferro e zinco. Muita gente relata que fica um dia inteiro com um iogurte e uma fruta e não sente falta. É exatamente o cenário que dispara eflúvio telógeno.

Isso não exclui um efeito direto da molécula, que segue em investigação. Mas coloca a alimentação no centro do que dá para fazer agora, e explica por que o mesmo fenômeno aparece na queda de cabelo depois da bariátrica, onde não há medicamento nenhum envolvido.

Fase do tratamentoO que costuma acontecer com a comidaRisco para o cabeloAjuste que faz diferença
Primeiras semanas, subindo doseNáusea, aversão a carne, refeições puladasAlto, é onde a ingestão despencaProteína líquida e fracionada, comida fria ou morna
Perda rápida, do segundo ao sexto mêsFome baixa, pouca variedade, salada e carne foraAlto, é quando a queda costuma aparecerProteína em toda refeição, ferro e zinco no prato
Manutenção com peso estávelApetite volta parcialmente, rotina se organizaMenor, se a ingestão normalizouVariedade, exames de controle, densidade nutricional
Após parar o medicamentoFome retorna, risco de oscilação de pesoVolta a subir se houver novo ciclo de restriçãoManter proteína e evitar dietas relâmpago

Quando começa e quanto tempo dura?

No eflúvio telógeno existe um atraso característico. O gatilho empurra muitos folículos da fase de crescimento para a de repouso ao mesmo tempo, e o fio em repouso ainda leva cerca de dois a três meses para se soltar. Por isso a queda costuma aparecer alguns meses depois do início da perda de peso mais acelerada, e não junto com ela.

Esse atraso vale nos dois sentidos, e é a parte que mais frustra as pessoas. Corrigir a alimentação hoje não interrompe a queda das próximas semanas, porque aqueles fios já foram programados para cair. O ajuste age no que vai crescer daqui para a frente, e o resultado leva meses para ficar visível.

Queda difusa, no couro cabeludo inteiro, sem falhas circulares e sem inflamação, que se estabiliza conforme o peso para de cair, é o padrão esperado. Falhas bem delimitadas, dor, vermelhidão, descamação, cicatriz ou queda que passa de um ano são motivo para consultar dermatologista. Nutricionista não fecha diagnóstico, e essa investigação é médica.

Quanta proteína você está comendo de verdade?

Essa é a primeira coisa que eu checo, e quase sempre é onde está o problema. A pessoa acha que está comendo bem porque a comida melhorou de qualidade, mas o total caiu pela metade. Proteína é o insumo básico do fio, que é feito de queratina, e é também o que protege a massa muscular durante a perda de peso.

Nos ensaios clínicos com semaglutida em obesidade, a perda média foi expressiva, e o efeito principal do medicamento é reduzir ingestão. Não existe uma meta proteica oficial para quem usa GLP-1, mas a lógica clínica aponta para o mesmo lugar de qualquer emagrecimento acelerado: manter a proteína alta em relação ao total de calorias, distribuída ao longo do dia, e não deixá-la ser a primeira coisa a sair do prato quando a fome some.

Na prática, isso significa colocar uma fonte proteica em cada refeição, começar o prato por ela e tratar bebida proteica como recurso legítimo nos dias ruins. Um copo de leite, um iogurte natural, dois ovos ou uma porção de peixe entregam mais para o folículo do que qualquer cápsula. O mesmo raciocínio vale para não perder músculo, e é parte do que sustenta um emagrecimento saudável em vez de uma perda de peso que cobra caro depois.

O registro de três dias que eu peço na primeira consulta

Anote tudo o que entrou na boca em três dias, sendo um deles fim de semana, com horário e quantidade aproximada. Não mude nada nesses dias, só registre. Na quase totalidade dos casos de queda de cabelo com GLP-1 que eu atendo, o registro mostra duas coisas: proteína bem abaixo do necessário e nenhuma fonte relevante de ferro ou zinco na semana inteira. Sem esse retrato, qualquer ajuste vira chute.

Ferro, zinco e folato: o que olhar

A metanálise de queda de cabelo depois de cirurgia bariátrica encontrou associação com níveis mais baixos de zinco, ácido fólico e ferritina. O contexto é diferente, porque a cirurgia altera absorção e o medicamento não, mas o denominador comum é o mesmo: perda rápida de peso com ingestão reduzida. Faz sentido olhar esses mesmos marcadores.

Ferritina é o exame que representa estoque de ferro, e ferro sérico isolado não serve para isso. Zinco sérico tem limitações, mas é o que existe na rotina. Folato e B12 completam o painel básico. Quem pede e interpreta exame com finalidade diagnóstica é o médico, e o nutricionista trabalha com esses resultados para montar o plano alimentar.

Na comida, a boa notícia é que ferro e zinco moram nos mesmos alimentos: carnes, fígado, frutos do mar, sementes de abóbora, castanhas, feijão e lentilha. Folato vem de folhas, leguminosas e fígado. Com apetite reduzido, a estratégia é densidade: escolher alimentos que entregam mais nutriente por colherada, em vez de encher o pouco espaço disponível com biscoito, pão e bebida.

Como comer o suficiente quando a fome sumiu

Três ajustes resolvem a maior parte dos casos. O primeiro é fracionar: cinco ou seis refeições pequenas funcionam melhor que três grandes quando o esvaziamento gástrico está lento. O segundo é separar líquido de sólido, deixando a bebida para os intervalos, porque líquido ocupa o pouco espaço que existe. O terceiro é comer o alimento proteico primeiro, sempre, antes de o volume acabar.

Nos dias de náusea, comida fria ou em temperatura ambiente costuma cair melhor que comida quente e cheirosa. Iogurte, queijo, ovo cozido, frango desfiado frio, peixe em conserva e bebidas proteicas geladas são os que mais funcionam. Frituras, molhos gordurosos e porções grandes pioram tudo.

Diarreia e prisão de ventre entram na mesma conta, porque quem passa mal come menos ainda. Se o intestino solto está atrapalhando a rotina alimentar, eu escrevi um artigo específico sobre o que comer quando o Ozempic dá diarreia, com as escolhas que costumam segurar o dia.

Precisa parar o medicamento? Suplemento resolve?

Quem prescreve, ajusta e suspende medicamento é o médico. Não cabe ao nutricionista sugerir parar, reduzir ou trocar, e não existe evidência de que interromper o tratamento seja a conduta indicada diante de queda de cabelo. O que cabe é levar o sintoma para quem acompanha o caso e, em paralelo, corrigir o que está errado no prato.

Sobre suplementos, a evidência é bem menos animadora do que a propaganda. Duas revisões de dermatologia sobre nutrientes e queda de cabelo concluem que não há base para suplementar biotina em quem não tem deficiência de biotina, que é rara, e que doses altas ainda interferem em exames laboratoriais, incluindo os de tireoide. Ferro e zinco fazem sentido quando o exame mostra deficiência, na dose e pelo tempo definidos por quem acompanha, e não como precaução.

O que sobra, e que é a parte que funciona, não vende bem: proteína suficiente todos os dias, ferro e zinco no prato, refeições fracionadas, exames em dia e paciência com o prazo do ciclo capilar. É pouco glamouroso e é o que muda o desfecho.

Perguntas frequentes

A queda de cabelo com GLP-1 é permanente?

No eflúvio telógeno o folículo não é destruído, ele entra em repouso e depois volta ao ciclo, então a expectativa é de recuperação conforme o peso estabiliza e a ingestão melhora. O que muda esse cenário é deficiência nutricional mantida ou outra causa de queda acontecendo ao mesmo tempo, como alopecia androgenética, que precisa de avaliação dermatológica.

Comer mais proteína faz o cabelo parar de cair?

Não faz parar do dia para a noite, porque os fios que estão caindo agora já entraram em repouso meses atrás. A proteína adequada atua no que vai crescer daqui para a frente e evita que o quadro se prolongue. É condição necessária, não interruptor.

Perder peso mais devagar reduz o risco?

A revisão sistemática apontou a perda rápida de peso como contribuinte provável, e a molécula associada à maior perda foi também a mais ligada ao eflúvio telógeno. Isso sugere que velocidade importa. A decisão sobre ritmo e dose é médica, mas garantir que a perda não venha de ingestão quase nula está na mão do plano alimentar.

Homens também têm esse efeito?

Têm, mas as mulheres aparecem desproporcionalmente afetadas nos estudos revisados. Uma explicação possível é a sobreposição com padrões de queda já presentes e com estoques de ferro em geral menores. Em homens, queda com afinamento no topo e nas entradas costuma ter outro componente e merece avaliação dermatológica.

Colágeno ajuda?

Colágeno é uma proteína de perfil de aminoácidos incompleto e não é uma boa escolha quando o objetivo é atingir a proteína do dia. Se você vai gastar volume gástrico e dinheiro em um suplemento, whey, leite, iogurte ou clara entregam mais aminoácidos essenciais pelo mesmo espaço.

Devo pedir exames por conta própria?

O caminho melhor é levar o sintoma ao médico que acompanha o tratamento, que decide quais exames pedir e interpreta o resultado no contexto. Ferritina, zinco, folato, B12 e função tireoidiana são os que costumam entrar nessa investigação. Com o resultado em mãos, o plano alimentar fica bem mais preciso.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Gupta AK, Teasell EM, Economopoulos V, Mirmirani P. GLP-1 therapies and hair loss: A systematic review of current evidence and implications for counseling. Science Progress. 2026;109(2). DOI: 10.1177/00368504261444578
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  8. Almohanna HM, Ahmed AA, Tsatalis JP, Tosti A. The Role of Vitamins and Minerals in Hair Loss: A Review. Dermatology and Therapy. 2019;9(1):51-70. DOI: 10.1007/s13555-018-0278-6

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