Marcos Hirata

Bariátrica e GLP-1

Emagrecimento travou usando Mounjaro: o que rever na alimentação

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: parar de perder peso durante o uso de tirzepatida quase nunca significa que o medicamento deixou de funcionar. Na maioria das vezes o corpo chegou a um novo equilíbrio: o gasto energético caiu junto com o peso, o apetite se acomodou e a alimentação voltou, sem que a pessoa perceba, a um patamar próximo do que ela gasta hoje. Antes de mexer em qualquer coisa, eu confiro quatro pontos: proteína, quantidade real ingerida, massa muscular e tempo. Ajuste de medicamento é decisão do médico que prescreveu, nunca minha e nunca sua.

Parar de emagrecer usando tirzepatida é normal?

É esperado, e está descrito nos próprios ensaios que aprovaram o medicamento. No SURMOUNT-1, publicado por Jastreboff e colaboradores no New England Journal of Medicine em 2022, a curva de peso ao longo de 72 semanas não é uma reta descendente: ela cai com força nos primeiros meses, vai perdendo inclinação e tende a um platô na parte final do estudo. O mesmo desenho aparece no SURMOUNT-2, em pessoas com diabetes tipo 2, publicado no Lancet em 2023.

Platô não é falha. É a assinatura de qualquer processo de perda de peso, com ou sem medicação. O que muda com um agonista de GLP-1 e GIP é a profundidade do vale antes do platô, não a existência dele. Nos estudos, as reduções médias foram maiores do que as obtidas historicamente com dieta isolada, mas média de ensaio clínico é média de grupo, e não previsão do que vai acontecer com uma pessoa específica.

No consultório, o platô assusta mais do que deveria porque o começo foi fácil. Quem perdeu bastante peso nos primeiros meses quase sem esforço interpreta a estabilização como quebra de promessa. Ela é apenas o corpo respondendo a um peso menor.

Em quanto tempo o platô costuma aparecer?

Não existe data marcada, mas existe padrão. A perda mais rápida costuma acontecer nos primeiros três a seis meses, período que também coincide com o escalonamento da dose feito pelo médico. Depois disso a curva vai achatando, e boa parte das pessoas encontra uma estabilização entre o nono e o décimo oitavo mês.

Esse ritmo tem explicação aritmética, descrita por Hall e colaboradores num artigo do Lancet de 2011: conforme o corpo perde massa, ele passa a gastar menos energia, e o déficit que existia no início vai encolhendo sozinho, mesmo que a pessoa não mude nada no que come. O peso então converge para um novo ponto de equilíbrio. Esse é o mecanismo por trás de praticamente todo platô, medicado ou não.

Também pesa o tempo de exposição ao medicamento. O SURMOUNT-4, publicado por Aronne e colaboradores no JAMA em 2024, testou o que acontece após um período inicial de tratamento: quem continuou com a medicação manteve e ampliou um pouco a perda, quem trocou por placebo recuperou boa parte do peso. Isso mostra que o efeito depende da presença contínua do estímulo, e reforça que suspender por conta própria não é estratégia para vencer platô.

Antes de qualquer ajuste, sete dias de registro honesto

Registre tudo por uma semana, inclusive bebidas, o que você prova cozinhando e o que come em pé. Quase todo platô que eu investigo tem entre 200 e 500 calorias diárias que não estavam no relato inicial. Isso não é desonestidade: é como a memória alimentar humana funciona.

Por que o corpo trava mesmo com o remédio agindo?

Quatro forças agem ao mesmo tempo, e elas se somam.

A primeira é a queda do gasto energético. Menos peso significa menos massa para carregar e menos energia para manter. Leibel, Rosenbaum e Hirsch mostraram, num estudo clássico do New England Journal of Medicine de 1995, que o gasto energético total cai mais do que a perda de massa isolada explicaria. Hall retomou esse tema em 2022, em análise publicada na revista Obesity, apontando que essa adaptação é real e persistente, ainda que menor do que o discurso popular sugere.

A segunda é a acomodação do apetite. O efeito do medicamento sobre a fome é mais intenso nas primeiras semanas de cada aumento de dose e tende a ficar mais discreto depois. A pessoa não volta à fome de antes, mas volta a conseguir comer porções maiores, e a diferença aparece na balança semanas depois.

A terceira é o deslize silencioso na alimentação. Quando a fome some, quase ninguém mede nada. Quando ela retorna parcialmente, a mesma ausência de medida deixa a ingestão subir sem alarme. O estudo de Lichtman e colaboradores, de 1992, já mostrava que a subestimação da própria ingestão gira em torno de 47 por cento em pessoas que se consideram resistentes à dieta.

A quarta é a perda de massa magra, que trato na seção específica, porque exige conduta diferente das outras três.

O que rever na alimentação primeiro?

A ordem que eu sigo é sempre a mesma, e ela raramente envolve cortar calorias logo de cara.

Primeiro, proteína. É o ponto que mais falha em quem usa esse tipo de medicação, justamente porque proteína é o que menos apetece quando a fome está baixa. A revisão de Leidy e colaboradores, publicada em 2015, resume o papel do nutriente na perda e na manutenção de peso: mais saciedade por caloria e proteção da massa magra. Na prática, trabalho com algo em torno de 1,2 a 1,6 grama por quilo de peso de referência ao dia, distribuído entre as refeições, ajustado caso a caso e com atenção a quem tem doença renal.

Segundo, densidade e volume. Muita gente em platô está comendo pouco em volume e muito em energia: pouco vegetal, pouca leguminosa, muito alimento macio, pastoso e concentrado. Prato com fibra, água e mastigação entrega mais saciedade pelo mesmo total.

Terceiro, o líquido. Café adoçado, sucos, bebida alcoólica no fim de semana. O álcool merece atenção porque contribui com energia, reduz a inibição e piora sintomas digestivos.

Quarto, e só então, o total. Se os três primeiros estiverem em ordem e o peso continuar parado por mais de quatro a seis semanas, revejo porções de carboidrato e de gordura de adição, sem nunca derrubar a proteína e sem cortar grupos alimentares inteiros.

Sinal no platôCausa mais provávelPrimeira conduta nutricional
Fome voltou e as porções cresceramAcomodação do efeito sobre o apetiteReestruturar refeições e medir porções por duas semanas
Continua sem fome e o peso não caiIngestão já compatível com o gasto atualRegistro de sete dias e revisão do total, mantendo proteína
Força caiu e o corpo ficou flácidoPerda de massa magraAumentar proteína e iniciar treino de força
Muita azia, empachamento ou constipaçãoEfeito gastrointestinal mal manejadoAjustar fibra, água e textura, e avisar o médico
Peso oscila de 1 a 2 kg na semanaVariação de água, sal e intestinoPesar sempre no mesmo dia e olhar média de quatro semanas

Perder músculo pode ser a causa do platô?

Pode, e é a hipótese que eu mais investigo em quem emagreceu rápido. Perda de peso de qualquer origem carrega junto uma fração de massa magra, e quanto mais veloz a queda e menor a ingestão de proteína, maior essa fração. Menos músculo significa menos tecido metabolicamente ativo, menos força para treinar e um gasto diário menor do que o esperado para aquele peso.

Cava, Yeat e Mittendorfer revisaram o assunto em 2017, em artigo publicado na Advances in Nutrition, e a conclusão prática é direta: as duas alavancas com evidência para preservar massa magra durante perda de peso são ingestão proteica adequada e treino resistido. Nenhum suplemento substitui esse par, e nenhuma medicação faz esse trabalho.

Existe um sinal clínico que costuma acompanhar essa perda e que incomoda muita gente: a pele que sobra e a sensação de corpo mole. Escrevi separadamente sobre o que a alimentação faz e o que ela não faz nesse cenário, no texto sobre flacidez depois de emagrecer.

O que não fazer quando o peso para?

Aumentar a dose por conta própria é o erro mais grave e o mais comum. Escalonamento é decisão médica, tem critério, tem teto e tem consequência digestiva. Fazer isso sozinho aumenta risco sem aumentar resultado.

Cortar drasticamente a comida é o segundo. Comer muito pouco enquanto o apetite está suprimido é fácil no curto prazo e cobra caro: perda acelerada de massa magra, queda de energia, unha e cabelo frágeis, e um platô ainda mais duro depois. Um cenário parecido, de necessidade nutricional alta com apetite ou restrição atrapalhando, aparece em quem tenta emagrecer no pós-parto, e tratei dele no artigo sobre emagrecer amamentando.

Pular refeições porque não há fome é o terceiro. Sem fome, a refeição deixa de ser resposta a um sinal e passa a ser um compromisso de agenda. É assim que se garante proteína e micronutrientes quando o apetite não colabora.

O quarto é medir sucesso só pela balança. Cintura, força no treino, disposição, pressão e glicemia mudam mesmo com o peso parado. A lógica de acompanhamento que uso está descrita na página sobre emagrecimento saudável.

Quando isso é assunto para o médico?

Sempre que o platô vier acompanhado de sintoma. Vômito recorrente, dor abdominal intensa, incapacidade de comer, sinais de desidratação, tontura, palpitação ou queda importante de exames pedem avaliação médica, não ajuste de cardápio.

Também é assunto médico quando há suspeita de causa associada: hipotireoidismo descompensado, medicamentos que favorecem ganho de peso, apneia do sono não tratada, transtorno alimentar em curso. Nutricionista não fecha diagnóstico nem prescreve: eu levanto a suspeita, descrevo o que observei e encaminho.

E é o médico quem decide sobre a estratégia farmacológica no platô: manter, escalonar, associar, trocar ou suspender. Meu trabalho é garantir que, qualquer que seja a decisão, a alimentação não seja o elo fraco.

E se o peso já estiver no lugar certo?

Essa é a hipótese que quase ninguém considera, e ela é frequente. Nem todo platô é problema a resolver. Se o peso atual já melhorou pressão, glicemia, sono, dor articular e disposição, e se a composição corporal está preservada, talvez o corpo esteja exatamente onde precisava estar.

Nesse caso, o objetivo muda de perder para manter, e manter é uma habilidade diferente. O SURMOUNT-3, publicado por Wadden e colaboradores na Nature Medicine em 2023, e o SURMOUNT-4, no JAMA em 2024, apontam a mesma direção: a manutenção depende da continuidade do estímulo, seja ele farmacológico, alimentar ou comportamental. Peso mantido não é peso perdido por acidente, é peso defendido de propósito.

Na prática: manter proteína alta, manter treino de força, manter refeições estruturadas e continuar acompanhando. Quem trata o platô como fim de linha costuma reganhar. Quem trata como mudança de fase segue adiante.

Perguntas frequentes

O medicamento pode ter perdido o efeito?

Perda completa de efeito é incomum. O que acontece com frequência é o gasto energético cair junto com o peso até igualar o que se come, o que estabiliza a balança sem que o medicamento tenha deixado de agir. A investigação começa por alimentação, massa muscular e tempo de uso, e a decisão sobre a medicação é do médico.

Quanto tempo eu espero antes de considerar que é mesmo um platô?

Uso quatro semanas como referência mínima, comparando médias e não pesagens isoladas. Variações diárias de 1 a 2 quilos são normais e refletem água, sal, intestino e ciclo menstrual. Duas ou três semanas sem queda podem ser apenas ruído.

Devo fazer jejum prolongado para destravar?

Não recomendo nesse contexto. Com apetite já suprimido, o risco é ingestão proteica insuficiente e perda de massa magra, que é justamente o que agrava o platô. A prioridade é estruturar refeições com proteína, não reduzir a janela em que é possível comer.

Preciso mesmo treinar musculação?

É a intervenção com melhor evidência para preservar massa magra durante perda de peso, junto com a proteína. Não precisa ser academia: peso do corpo, elásticos e halteres em casa funcionam, desde que haja progressão de carga e regularidade. A prescrição do treino é do profissional de educação física.

Beber mais água ajuda a sair do platô?

Água é essencial para o funcionamento intestinal e para o manejo dos efeitos digestivos desse tipo de medicação, mas não destrava platô por si só. O que muda a curva é o conjunto: proteína adequada, volume alimentar, total de energia coerente com o gasto atual e treino de força.

Se eu parar o medicamento agora, mantenho o que perdi?

Os dados do SURMOUNT-4 mostram reganho importante no grupo que trocou o tratamento por placebo, mesmo com orientação de estilo de vida mantida. Isso não significa uso eterno para todo mundo, e a decisão sobre suspender é do médico. Significa que a saída precisa ser planejada, com alimentação e treino já consolidados antes.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. New England Journal of Medicine. 2022;387(3):205-216. DOI: 10.1056/NEJMoa2206038
  2. Garvey WT, Frias JP, Jastreboff AM, et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity in people with type 2 diabetes (SURMOUNT-2): a double-blind, randomised, multicentre, placebo-controlled, phase 3 trial. The Lancet. 2023;402(10402):613-626. DOI: 10.1016/S0140-6736(23)01200-X
  3. Wadden TA, Chao AM, Machineni S, et al. Tirzepatide after intensive lifestyle intervention in adults with overweight or obesity: the SURMOUNT-3 phase 3 trial. Nature Medicine. 2023;29(11):2909-2918. DOI: 10.1038/s41591-023-02597-w
  4. Aronne LJ, Sattar N, Horn DB, et al. Continued treatment with tirzepatide for maintenance of weight reduction in adults with obesity: the SURMOUNT-4 randomized clinical trial. JAMA. 2024;331(1):38-48. DOI: 10.1001/jama.2023.24945
  5. Leibel RL, Rosenbaum M, Hirsch J. Changes in energy expenditure resulting from altered body weight. New England Journal of Medicine. 1995;332(10):621-628. DOI: 10.1056/NEJM199503093321001
  6. Hall KD, Sacks G, Chandramohan D, et al. Quantification of the effect of energy imbalance on bodyweight. The Lancet. 2011;378(9793):826-837. DOI: 10.1016/S0140-6736(11)60812-X
  7. Hall KD. Energy compensation and metabolic adaptation: “The Biggest Loser” study reinterpreted. Obesity. 2022;30(1):11-13. DOI: 10.1002/oby.23308
  8. Lichtman SW, Pestone M, Dowling H, et al. Discrepancy between self-reported and actual caloric intake and exercise in obese subjects. New England Journal of Medicine. 1992;327(27):1893-1898. DOI: 10.1056/NEJM199212313272701
  9. Cava E, Yeat NC, Mittendorfer B. Preserving healthy muscle during weight loss. Advances in Nutrition. 2017;8(3):511-519. DOI: 10.3945/an.116.014506

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