Marcos Hirata

Saúde Cardiometabólica

Peixe e mercúrio: quais escolher e quantas vezes por semana

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: duas a três porções de peixe por semana, escolhendo espécies de baixo mercúrio, é a recomendação que reúne o melhor da evidência. Porção aqui é algo em torno de 100 a 120 gramas depois de pronto. Sardinha, tilápia, pescada, merluza, salmão, truta, tainha, atum enlatado claro e camarão ficam na faixa segura. Cação, espadarte, peixe-batata, cavala-rei e atum de olho grande concentram muito metilmercúrio e não deveriam entrar na rotina. Deixar de comer peixe por medo de mercúrio é uma troca ruim: perde-se o ômega 3, a proteína e o selênio, e não se ganha nada.

Quantas vezes por semana dá para comer peixe?

A conta mais citada na literatura veio de uma análise publicada no JAMA que colocou risco e benefício na mesma balança. Consumo modesto de peixe, algo como uma a duas porções por semana, associou-se a uma redução substancial da mortalidade por doença coronariana. Do outro lado da balança, o risco atribuível ao metilmercúrio em adultos que comem espécies comuns é pequeno. A conclusão dos autores foi direta: para a maioria dos adultos, o benefício de comer peixe supera o risco, desde que se evitem as espécies mais contaminadas.

A American Heart Association trabalha com a mesma faixa e recomenda uma a duas porções de pescado por semana, priorizando espécies gordas. A orientação conjunta da FDA e da EPA, voltada a gestantes, lactantes e crianças, é mais específica ainda: duas a três porções por semana da lista de melhores escolhas, com porção de cerca de 110 gramas para adultos.

Eu trabalho com duas a três vezes por semana na maior parte dos planos que monto. É frequência suficiente para mudar o aporte de ômega 3 de verdade e baixa o bastante para que a escolha da espécie resolva a questão do mercúrio sem cálculo complicado.

Por que o mercúrio se acumula em alguns peixes?

O mercúrio chega à água por via natural, como vulcanismo e erosão de rocha, e por via humana, principalmente queima de carvão e garimpo de ouro. Bactérias do sedimento transformam o mercúrio inorgânico em metilmercúrio, a forma que atravessa membranas com facilidade e se liga à proteína muscular do peixe.

Dois fenômenos explicam o resto. O primeiro é a bioacumulação: o peixe absorve metilmercúrio mais rápido do que consegue eliminar, então a concentração no músculo sobe com o tempo de vida. O segundo é a biomagnificação: cada nível da cadeia alimentar concentra o que veio do nível anterior. Um predador de topo, grande e velho, come milhares de peixes menores ao longo da vida e guarda o mercúrio de todos eles.

Por isso a regra prática é curta e funciona quase sempre: peixe pequeno, de vida curta e baixo na cadeia alimentar tem pouco mercúrio. Peixe grande, longevo e predador tem muito. Sardinha e anchova estão num extremo. Tubarão e espadarte estão no outro.

Quais peixes têm menos mercúrio?

A lista de melhores escolhas da FDA e da EPA inclui, entre os que se acham no Brasil, sardinha, anchova, tilápia, pescada, merluza, bacalhau, truta, salmão, arenque, tainha, cavalinha do Atlântico, camarão, lula, mexilhão, ostra e atum enlatado claro. São peixes que podem ser comidos duas a três vezes por semana sem preocupação com acúmulo.

Entre eles, os que mais interessam do ponto de vista nutricional são os gordos de água fria e os pequenos azuis: sardinha, salmão, truta, cavalinha, arenque. São eles que carregam EPA e DHA em quantidade relevante. Tilápia e pescada são ótimas fontes de proteína magra e barata, mas entregam pouco ômega 3, e vale saber disso na hora de montar a semana.

Se eu tivesse que eleger um peixe para o brasileiro médio, seria a sardinha. É nacional, é barata, é pequena, tem pouquíssimo mercúrio, tem muito ômega 3 e, na versão em lata com espinha, ainda entrega cálcio. Poucos alimentos combinam tanta coisa boa com preço tão baixo.

Quais peixes é melhor evitar?

A lista de espécies a evitar é curta e estável: tubarão (vendido como cação no Brasil), espadarte, peixe-batata do Golfo, cavala-rei, marlim, olho-de-vidro-laranja e atum de olho grande. Todos são grandes, longevos e predadores.

O cação merece um parágrafo próprio, porque no Brasil ele é vendido em posta, é barato, não tem espinha e frequentemente é apresentado como opção prática para criança. É exatamente o oposto do que se deveria oferecer a uma criança. Quando o rótulo ou o balconista diz cação, está dizendo tubarão, e tubarão é um dos pescados com maior concentração de metilmercúrio do mercado.

GrupoExemplosMercúrioFrequência sugerida
Melhores escolhassardinha, tilápia, pescada, merluza, salmão, truta, tainha, camarão, atum enlatado clarobaixo2 a 3 porções por semana
Boas escolhasgaroupa, badejo, robalo, pargo, atum albacora, halibuteintermediárioaté 1 porção por semana
Evitar na rotinacação, espadarte, cavala-rei, marlim, peixe-batata, atum de olho grandealtofora do cardápio habitual

O erro mais caro é parar de comer peixe

Quando a orientação sobre mercúrio circula sem contexto, muita gente simplesmente tira o pescado do cardápio. Estudos de coorte com gestantes mostraram o problema desse caminho: filhos de mulheres que comeram menos pescado durante a gestação tiveram desempenho pior em testes de desenvolvimento do que os filhos das que comeram mais. A mensagem correta nunca foi comer menos peixe. Foi escolher melhor o peixe.

E os peixes brasileiros, de rio e de mar?

As listas internacionais cobrem bem o que se vende em supermercado, e deixam de fora boa parte do pescado de água doce do Brasil. A mesma lógica ecológica resolve. Peixes amazônicos carnívoros de topo, como tucunaré, piranha, dourada, filhote e pirarara, apresentam concentrações mais altas de mercúrio, situação agravada pelo garimpo de ouro nas bacias. Peixes herbívoros e detritívoros, como tambaqui, matrinxã, pacu e curimatã, ficam bem mais baixos.

Para populações ribeirinhas, que comem pescado quase todos os dias, isso é um problema de saúde pública sério e acompanhado por serviços de saúde locais. Para quem come peixe de rio de vez em quando, na viagem ou no restaurante, a orientação é a mesma dos peixes de mar: alterne espécies, prefira as menores e não faça do peixe predador o prato de todo dia.

Gestante e criança devem comer menos peixe?

Menos não. Mais criteriosamente, sim. O metilmercúrio atravessa a placenta e o sistema nervoso em formação é o alvo mais sensível, por isso as recomendações para gestantes, lactantes e crianças pequenas são mais restritivas na escolha da espécie. Ao mesmo tempo, DHA é matéria-prima estrutural do cérebro e da retina em desenvolvimento, e a gestação é justamente quando ele mais importa.

A recomendação oficial resolve os dois lados: duas a três porções semanais das melhores escolhas, evitando por completo as espécies de alto mercúrio. Para crianças, a porção é menor e varia com a idade, ficando em torno de 30 gramas nos primeiros anos e subindo até a porção adulta perto dos onze anos. Quem define o plano de cada gestante é a equipe que faz o pré-natal, junto com o nutricionista.

Fresco, congelado ou enlatado: muda alguma coisa?

Para o mercúrio, praticamente nada. Ele está ligado à proteína do músculo e não sai no congelamento, no cozimento nem na salmoura. Não existe técnica doméstica que reduza mercúrio de um peixe contaminado. A única variável que você controla é a espécie.

Para o ômega 3, muda pouco também. Congelamento preserva bem. Enlatado em óleo perde parte do ômega 3 para o óleo quando o líquido é descartado, e enlatado em água perde bem menos. Já o preparo faz diferença: fritura em imersão adiciona muita gordura e degrada parte dos poli-insaturados, tema que detalho no texto sobre o que acontece com os óleos vegetais no calor. Assar, grelhar, cozinhar no vapor e ensopar preservam melhor.

Vale um cuidado com o sódio dos enlatados e defumados. Sardinha em lata, atum em lata e bacalhau salgado trazem sal em quantidade relevante, o que pesa para quem controla pressão. Dá para escorrer, enxaguar e dessalgar, e dá para equilibrar o resto do dia. Esse é o tipo de ajuste fino que faço dentro do plano de alimentação voltada à saúde metabólica, e que também aparece na hora de comparar o sódio de um pão integral de verdade com o pão que só parece integral.

Cápsula de ômega 3 substitui o peixe?

Não substitui, e a razão é interessante. O peixe entrega EPA e DHA acompanhados de proteína de alto valor biológico, selênio, iodo, vitamina D, vitamina B12 e uma matriz que desloca outros alimentos do prato. Quando alguém come peixe no jantar, deixou de comer outra coisa naquele jantar. A cápsula não faz isso.

Isso não significa que suplemento não tenha lugar. Ele tem, em situações específicas e com dose definida caso a caso, principalmente quando a pessoa não come pescado por aversão, alergia ou restrição alimentar. O que não faz sentido é usar cápsula como atalho para manter o mesmo padrão alimentar de sempre. Comida primeiro, suplemento depois, e sempre com critério.

Uma observação sobre selênio, porque ela aparece muito em discussões sobre mercúrio: vários pescados são ricos em selênio, e existe interação química entre os dois elementos que provavelmente modula a toxicidade. É um campo ativo de pesquisa, e não é base suficiente para liberar tubarão no cardápio. A recomendação prática continua sendo escolher espécies de baixo mercúrio.

Perguntas frequentes

Atum enlatado pode ser comido toda semana?

O atum enlatado claro, feito com bonito-listrado, é peixe pequeno e entra na lista de melhores escolhas, cabendo duas a três vezes por semana. O atum branco, de albacora, tem mais mercúrio e fica melhor em uma vez por semana. O rótulo costuma indicar qual é.

Salmão de cativeiro tem mercúrio?

Muito pouco, menos até que o selvagem em várias medições, porque o peixe de cultivo come ração e vive menos tempo. O debate em torno do salmão de cativeiro gira em torno de outras questões, como o perfil de gordura da ração e o manejo ambiental, não do mercúrio.

Existe exame para medir mercúrio?

Existe, em sangue, urina e cabelo, e a interpretação depende do tipo de mercúrio e do tempo de exposição. Quem pede e interpreta esse exame é o médico. Não é um exame de rotina para quem come peixe algumas vezes por semana.

Peixe de cativeiro alimenta menos que peixe selvagem?

O perfil de gordura muda conforme a ração, e alguns peixes de cultivo têm proporcionalmente mais ômega 6. Ainda assim, salmão e truta de cativeiro seguem entre as melhores fontes de EPA e DHA disponíveis no mercado brasileiro.

Quem tem colesterol alto pode comer camarão?

Pode, em porções normais. Camarão tem colesterol e quase nenhuma gordura saturada, e a saturada influencia o colesterol do sangue muito mais do que o colesterol do alimento. O que atrapalha é o preparo: empanado e frito muda tudo.

Dá para comer peixe cru com segurança?

Do ponto de vista do mercúrio, cru ou cozido dá no mesmo, o que vale é a espécie. A questão do cru é parasitológica e microbiológica, e depende de congelamento prévio adequado e de procedência confiável do estabelecimento.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Mozaffarian D, Rimm EB. Fish intake, contaminants, and human health: evaluating the risks and the benefits. JAMA. 2006;296(15):1885-1899. DOI: 10.1001/jama.296.15.1885
  2. Rimm EB, Appel LJ, Chiuve SE, et al. Seafood long-chain n-3 polyunsaturated fatty acids and cardiovascular disease: a science advisory from the American Heart Association. Circulation. 2018;138(1):e35-e47. DOI: 10.1161/CIR.0000000000000574
  3. U.S. Food and Drug Administration; U.S. Environmental Protection Agency. Advice about Eating Fish. Revisado em outubro de 2021. Disponível no site da FDA.
  4. Mahaffey KR, Clickner RP, Bodurow CC. Blood organic mercury and dietary mercury intake: National Health and Nutrition Examination Survey, 1999 and 2000. Environmental Health Perspectives. 2004;112(5):562-570. DOI: 10.1289/ehp.6587
  5. Hibbeln JR, Davis JM, Steer C, et al. Maternal seafood consumption in pregnancy and neurodevelopmental outcomes in childhood (ALSPAC study): an observational cohort study. The Lancet. 2007;369(9561):578-585. DOI: 10.1016/S0140-6736(07)60277-3
  6. Oken E, Radesky JS, Wright RO, et al. Maternal fish intake during pregnancy, blood mercury levels, and child cognition at age 3 years in a US cohort. American Journal of Epidemiology. 2008;167(10):1171-1181. DOI: 10.1093/aje/kwn034

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