Marcos Hirata

SIBO e Saúde Intestinal

Preparo do teste respiratório de SIBO: o que comer na véspera

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: na véspera do teste respiratório de SIBO a regra é comer só o que fermenta pouco: arroz branco, batata sem casca, pão branco, carne magra grelhada, frango, peixe, ovo e caldo coado, sem fibra, sem leguminosa, sem leite, sem fruta, sem verdura e sem adoçante do tipo poliol. A última refeição sai no início da noite e depois vem jejum de oito a doze horas, só com água. Antibiótico costuma exigir quatro semanas de intervalo e laxante ou procinético cerca de uma semana, mas quem define a suspensão é o médico que pediu o exame. Na manhã do teste, escove os dentes, não fume e não faça exercício.

Por que a véspera muda tanto o resultado?

O teste respiratório não mede bactéria. Ele mede o gás que a bactéria produz. Você bebe uma solução de açúcar, sopra num coletor de quinze em quinze ou de vinte em vinte minutos por duas horas, e o aparelho lê hidrogênio e metano no ar expirado. Se houver fermentação precoce, o gás sobe antes do tempo esperado para o açúcar chegar ao cólon.

O problema é que a comida da véspera continua fermentando na manhã seguinte. Um prato de feijão no jantar, uma salada crua volumosa ou um pão integral deixam substrato disponível no intestino grosso por muitas horas. Isso eleva o valor basal do sopro, o primeiro de todos, e um basal alto atrapalha a leitura de tudo que vem depois, porque o critério usado é a variação em relação a esse ponto de partida.

Os consensos de referência tratam a dieta de preparo como parte do exame, não como detalhe. O documento norte-americano recomenda restringir carboidratos fermentáveis no dia anterior, e a diretriz europeia orienta o mesmo cuidado nas doze a vinte e quatro horas que antecedem a coleta. No consultório eu vejo teste refeito por causa de véspera errada com uma frequência que dá raiva, porque é o tipo de erro que custa dinheiro e semanas de espera.

O que eu posso comer na véspera do teste?

A lista permitida é curta de propósito. Ela reúne alimentos de digestão e absorção quase completas no intestino delgado, que por isso deixam pouco resíduo para fermentar.

RefeiçãoOpções segurasPor que funciona
Café da manhãovos mexidos sem leite, pão branco sem sementes, chá ou café sem açúcar e sem adoçanteproteína e amido refinado praticamente não chegam ao cólon
Almoçoarroz branco, frango ou peixe grelhado, batata inglesa sem casca cozidazero fibra insolúvel e zero oligossacarídeo
Lancheuma fatia de pão branco com um fio de azeite, ou nadaevita picos de substrato fora de hora
Jantar (cedo)carne magra grelhada, arroz branco, caldo de carne ou de frango coadorefeição leve, encerrando o dia até as vinte horas
Bebidaágua, água mineral sem gásnão interfere na produção de gás

Tempero permitido: sal, azeite, óleo, ervas frescas em pouca quantidade. O que costuma passar despercebido é o alho e a cebola em cubinho no arroz, no refogado da carne, no caldo pronto de tablete e no molho de tomate industrializado. Alho e cebola são das maiores fontes de frutano da nossa alimentação e sozinhos já estragam o basal.

Não estranhe o cardápio. Ele é ruim de propósito e dura vinte e quatro horas. Não é dieta, é preparo de exame, do mesmo jeito que a colonoscopia tem o dela.

Quais alimentos precisam sair do cardápio?

Sai tudo que fermenta. Feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha e soja pela rafinose. Trigo integral, centeio, cevada, aveia, cebola, alho, alho-poró e beterraba pelos frutanos. Leite, iogurte, requeijão e queijo fresco pela lactose. Fruta em geral, com atenção especial a maçã, pera, manga e melancia. Verdura e legume, principalmente crus e em volume. Mel, açúcar mascavo em excesso e xarope de milho.

Sai também a categoria que quase ninguém lembra: os polióis. Chiclete sem açúcar, bala de garganta, refrigerante zero, whey saborizado, barra de proteína, chocolate diet e qualquer produto com sorbitol, manitol, xilitol ou maltitol no rótulo. Esses compostos são absorvidos de forma lenta e incompleta e chegam ao cólon quase inteiros.

Álcool fica fora, inclusive cerveja e vinho, e o mesmo vale para suco de fruta, refrigerante comum e bebida vegetal adoçada. Se você tem restrição médica que impede seguir alguma dessas orientações, avise o laboratório antes e leve a dúvida ao médico que pediu o exame, porque preparo é decisão clínica dele.

Os cinco erros que mais reprovam um preparo

Molho de tomate industrializado com alho e cebola no almoço da véspera. Iogurte “para o intestino” tomado por hábito. Chiclete sem açúcar no caminho do laboratório. Café da manhã leve com fruta porque “fruta é saudável”. E treino forte na manhã do exame, que muda o padrão respiratório e derruba a concentração de hidrogênio no sopro.

Quantas horas de jejum o exame pede?

O padrão é de oito a doze horas de jejum absoluto, contadas a partir do jantar da véspera. Só água. Nada de café, chá, bala, chiclete ou cigarro nesse intervalo. A diretriz europeia trabalha com doze horas, e o consenso norte-americano aceita a faixa de oito a doze, então na prática jantar às dezenove horas e chegar ao laboratório às oito da manhã resolve nos dois critérios.

Jejum mais longo que isso não melhora nada e pode atrapalhar, porque o exame dura mais duas horas e você vai passar a manhã inteira sem comer, sentado, soprando num tubo. Leve algo simples para comer imediatamente depois. Terminou o último sopro, acabou o preparo.

Preciso parar remédio, probiótico ou suplemento?

Essa parte é a que mais gera confusão, e vale repetir o limite: nenhuma suspensão de medicamento parte de mim. Eu explico o racional e a janela habitual, e quem autoriza é o médico. Abaixo estão os intervalos que aparecem nos consensos, apenas como referência para a conversa.

ItemJanela habitual antes do testeMotivo
Antibiótico sistêmico4 semanasreduz a população bacteriana e produz falso negativo
Laxante e procinéticocerca de 1 semanaacelera o trânsito e antecipa a chegada do açúcar ao cólon
Probiótico em cápsulaa definir com o médiconão há consenso firme, mas muitos serviços pedem pausa
Inibidor de bomba de prótonsdecisão médicaas diretrizes divergem e a rotina varia entre serviços
Enema e colonoscopia recenterespeitar o intervalo do laboratóriolimpeza intestinal altera a fermentação por dias

Ligue para o laboratório com as caixas dos seus medicamentos na mão. Cada serviço tem o próprio protocolo escrito, e é ele que vale no dia. O que eu peço no consultório é que essa ligação aconteça com antecedência, porque descobrir na véspera que o antibiótico do mês passado invalida o exame é frustrante.

O que não fazer na manhã do exame?

Escove os dentes antes de sair de casa e enxágue a boca com água. Bactéria da cavidade oral fermenta o açúcar do teste ali mesmo e cria um pico precoce de hidrogênio que não tem nada a ver com o intestino delgado. Evite enxaguante bucal antisséptico, que faz o oposto e derruba a leitura.

Não fume, nem no caminho, nem durante as duas horas de coleta. Fumo altera os gases do ar expirado. Não faça treino, corrida ou caminhada puxada antes e durante o exame: hiperventilação dilui o hidrogênio no sopro e pode mascarar um resultado positivo. Também não durma durante o teste, porque a respiração muda no sono.

Leve um livro, fique sentado, respire normalmente e sopre no horário que o técnico pedir. Se você tiver sintoma durante o exame, avise, porque o registro de sintomas junto da curva de gás ajuda o médico na interpretação.

Lactulose ou glicose: o preparo é diferente?

O preparo alimentar é o mesmo. O que muda é o açúcar usado e o que ele consegue enxergar. A glicose é absorvida no começo do intestino delgado, então detecta bem crescimento bacteriano proximal e erra mais quando o problema está no trecho final. A lactulose não é absorvida em lugar nenhum e percorre o intestino todo, o que amplia o alcance e ao mesmo tempo aumenta a chance de leitura confusa quando o trânsito é rápido.

Os critérios de positividade também são conhecidos: elevação de hidrogênio de vinte partes por milhão ou mais acima do basal dentro dos primeiros noventa minutos sugere supercrescimento bacteriano, e metano igual ou acima de dez partes por milhão em qualquer ponto da curva caracteriza o quadro por metanogênicos, hoje chamado de IMO. Interpretar isso, cruzar com sintoma e decidir tratamento é papel médico.

Uma revisão sistemática com metanálise mostrou que a acurácia desses testes é boa, mas longe da perfeição, e por isso resultado isolado não fecha nada. Se o seu quadro é de dor no estômago e queimação, e não de distensão que piora ao longo do dia, o caminho de investigação pode ser outro, como está explicado em o que comer quando existe H. pylori.

Fiz o teste. E agora, o que muda na alimentação?

Nada muda no mesmo dia. O resultado vai para o médico, que decide se trata, com o quê e por quanto tempo. O trabalho nutricional entra em paralelo e depois, e ele tem duas fases distintas: reduzir o substrato fermentável enquanto o sintoma está alto e reconstruir a variedade da dieta assim que o quadro estabiliza. Restrição longa não é tratamento, é etapa.

A pergunta que mais recebo depois do resultado é sobre laticínio. Dá para manter queijo maturado na maior parte dos casos, porque a lactose praticamente desaparece na maturação, e eu detalhei os critérios em quem tem intolerância à lactose pode comer queijo. Se o teste vier negativo e o sintoma continuar, o problema costuma ser outro, e vale ler sobre o que comer na chamada disbiose intestinal.

Quem quiser entender o percurso completo, do exame à reintrodução alimentar, encontra o passo a passo que eu uso na página de protocolo para SIBO. Ali estão os prazos, os critérios de reteste e o que eu faço quando o sintoma volta.

Perguntas frequentes

Posso tomar café puro na manhã do exame?

Não. O jejum de oito a doze horas é absoluto e admite apenas água. Café, mesmo sem açúcar, estimula a motilidade e pode alterar a curva de gás. Guarde o café para depois do último sopro.

Preciso mesmo fazer só um dia de dieta ou é melhor fazer três?

Um dia é o que os consensos pedem, e alguns serviços pedem apenas doze horas de restrição. Estender para três dias não melhora a qualidade do exame e piora a adesão. Siga exatamente o protocolo escrito do laboratório onde você vai fazer a coleta.

Tomei antibiótico no mês passado. Posso fazer o teste?

A janela habitual descrita nos consensos é de quatro semanas depois do fim do antibiótico, porque antes disso o risco de falso negativo é alto. Quem decide se remarca ou mantém a data é o médico que pediu o exame, junto com o laboratório.

O exame dá enjoo ou diarreia?

Pode dar. A solução de lactulose ou de glicose às vezes provoca cólica, distensão, gases e evacuação amolecida em quem já tem o intestino sensível. Isso passa em algumas horas. Vá acompanhado se você mora longe e prefira não dirigir na volta se estiver muito desconfortável.

Estou seguindo dieta de baixo FODMAP. Preciso avisar?

Sim, avise o laboratório e o médico. Restrição alimentar prolongada antes do teste reduz o substrato disponível e pode baixar a produção de gás, o que interfere na leitura. Essa informação precisa constar no pedido para que a interpretação seja correta.

Resultado positivo significa que eu tenho SIBO?

Significa que houve produção precoce de gás dentro do critério usado. O diagnóstico é clínico e cabe ao médico, que junta o exame, os sintomas, o histórico e a resposta ao tratamento. Existem falsos positivos, principalmente quando o trânsito intestinal é rápido, e por isso resultado nunca é lido sozinho.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

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