Marcos Hirata

Geral

Carboidrato na maratona e meia maratona: quanto consumir por hora

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: quanto carboidrato consumir por hora de prova depende quase inteiramente de quanto tempo você vai ficar em movimento. Até 60 ou 75 minutos, praticamente não é preciso comer nada. De 1 a 2 horas, algo em torno de 30 g por hora resolve. De 2 a 3 horas, até 60 g por hora. Acima de 2,5 a 3 horas, até 90 g por hora, e aí só funciona com mistura de glicose e frutose. A calculadora abaixo transforma essas faixas no seu número, no total da prova e no equivalente em gel, bebida e comida.

Calculadora de carboidrato para prova

Informe o tempo que você espera levar, a modalidade e o seu peso. O resultado é um ponto de partida para testar nos treinos longos, nunca no dia da prova.






Outras ferramentas que combinam com esta

A lista completa, com as doze ferramentas e um caminho de qual usar primeiro conforme a sua queixa, está em ferramentas gratuitas de nutrição.


Por que a duração da prova decide quase tudo?

Porque o limite não é o quanto o músculo consegue queimar, e sim o quanto de energia já está guardado dentro dele. Um adulto treinado carrega entre 400 e 600 g de glicogênio somando músculo e fígado, o que dá algo em torno de 1.600 a 2.400 kcal disponíveis em ritmo intenso. Enquanto o esforço cabe nesse estoque, comer durante a prova não acrescenta desempenho. Quando o esforço ultrapassa o estoque, cada grama consumido passa a ser a diferença entre manter o ritmo e ver o pace despencar nos últimos quilômetros.

É por isso que a recomendação sobe em degraus e não de forma contínua. Até 60 ou 75 minutos, o estoque cobre a prova inteira. De 1 a 2 horas, o carboidrato ainda age mais no sistema nervoso central do que como combustível reposto, e quantidades pequenas bastam. De 2 a 3 horas, a reposição vira necessidade real. Acima disso, o consumo por hora precisa se aproximar do teto fisiológico de absorção intestinal.

De onde vêm os números de 30, 60 e 90 g por hora?

Vêm de estudos com traçadores isotópicos que mediram quanto do carboidrato ingerido é de fato oxidado durante o exercício. A conclusão repetida em vários laboratórios é que a glicose ingerida sozinha satura em torno de 1 g por minuto, ou seja, perto de 60 g por hora. O gargalo é o transportador intestinal SGLT1. Passar de 60 g por hora de glicose pura não aumenta a oxidação, apenas deixa mais carboidrato parado no intestino, o que puxa água para a luz intestinal e produz aquela sensação de estômago cheio e enjoado.

A frutose usa outro transportador, o GLUT5, que trabalha em paralelo. Combinando as duas fontes, a oxidação medida chega perto de 1,3 a 1,7 g por minuto, o que sustenta as recomendações de até 90 g por hora em provas muito longas. Não é uma questão de força de vontade nem de estômago forte: é transporte de membrana, e o transporte tem capacidade máxima.

O detalhe que separa 60 de 90 g por hora

Acima de 60 g por hora, o tipo de carboidrato importa mais do que a quantidade. Um gel de fonte única a 90 g por hora não entrega 90 g absorvidos, entrega desconforto. Verifique no rótulo se o produto declara mistura de maltodextrina com frutose, ou combine um gel de fonte única com uma bebida que contenha frutose.

Quanto tempo antes começar a consumir?

A calculadora assume que o consumo começa por volta dos 30 minutos de prova, e essa não é uma escolha arbitrária. Nos primeiros minutos você ainda está usando glicogênio abundante, a intensidade costuma estar acima do planejado por causa da adrenalina da largada, e o fluxo de sangue está desviado para os músculos. Ingerir um gel nesse momento resolve pouco e atrapalha bastante. Começar na primeira meia hora e repetir em intervalos regulares mantém um fluxo constante de glicose no sangue sem picos de volume no estômago.

Na prática, isso significa dividir o alvo por hora em duas ou três tomadas. Quem precisa de 60 g por hora consome um gel de 25 a 30 g a cada 25 ou 30 minutos, ou combina gel com bebida esportiva. Quem precisa de 90 g por hora quase sempre precisa somar formatos diferentes, porque três a quatro géis por hora costumam ser insuportáveis de engolir.

Gel, bebida ou comida de verdade?

Os três funcionam, e a escolha é mais logística do que fisiológica. O que muda entre eles é a concentração, a necessidade de água junto e a praticidade em movimento.

FormatoCarboidrato típicoVantagemCuidado
Gel20 a 30 g por sachêCompacto, dose previsívelPrecisa de 150 a 250 ml de água junto
Bebida esportiva a 6%6 g a cada 100 mlHidrata e alimenta ao mesmo tempoVolume grande para atingir 60 g ou mais
Balas e jujubas esportivas4 a 6 g por unidadeDose fracionada, fácil de mastigarMastigar em ritmo alto é desconfortável
Banana, tâmara, pão de mel20 a 30 g por porçãoBarato, palatável em provas longasFibra e volume, melhor em ritmo moderado

Em maratona e provas de rua rápidas, gel e bebida dominam por praticidade. Em trail, ultra e cicloturismo longo, comida de verdade entra porque o ritmo permite mastigar e porque o enjoo do sabor doce depois de horas é um problema real. Nesses casos, alternar salgado e doce ajuda mais do que qualquer detalhe de composição.

O intestino se treina mesmo?

Sim, e essa é provavelmente a informação mais subutilizada da nutrição esportiva amadora. Consumir carboidrato de forma repetida durante treinos longos aumenta a expressão dos transportadores intestinais, acelera o esvaziamento gástrico e reduz a percepção de plenitude com o mesmo volume. Estudos de intervenção mostram melhora mensurável de tolerância em duas a quatro semanas de exposição regular.

O corolário disso é desagradável para quem gosta de improvisar: um atleta que treina em jejum ou só com água a vida toda e resolve consumir 80 g por hora na maratona não tem o intestino preparado para isso. O problema não é o produto, é a ausência de adaptação. Comece pela metade do alvo, mantenha por duas ou três semanas de longão, suba mais 10 a 15 g por hora, e repita. Quem quer um plano estruturado para essa progressão pode buscar acompanhamento de nutricionista esportivo em Londrina.

E se der desconforto intestinal mesmo assim?

Desconforto gastrointestinal em provas longas é comum e tem causas somadas: redução do fluxo sanguíneo para o intestino durante o esforço intenso, desidratação, calor, impacto mecânico da corrida, concentração alta demais da bebida, ansiedade e composição do produto. Bebidas muito concentradas, acima de 8 ou 9 por cento, atrasam o esvaziamento gástrico e puxam água para o intestino. Produtos com polióis ou com muita frutose isolada também costumam pesar.

A conduta prática é diluir mais, beber água junto do gel, testar outra marca e reduzir temporariamente a dose por hora. Se o sintoma persiste fora do esporte, aparece em refeições comuns, vem com alteração de hábito intestinal, perda de peso não intencional ou sangue, isso deixa de ser assunto de estratégia de prova e passa a exigir avaliação médica. Nenhuma calculadora, incluindo esta, tem competência para nomear a causa de um sintoma digestivo.

Precisa carregar carboidrato nos dias anteriores?

Depende do mesmo critério: duração. Para provas de até 90 minutos, uma alimentação normal com boa oferta de carboidrato no dia anterior é suficiente. Acima de duas horas, faz sentido aumentar deliberadamente o carboidrato nas 24 a 36 horas que antecedem a largada, chegando a 8 a 12 g por quilo de peso por dia, com redução do volume de treino. Isso enche o estoque de glicogênio e faz o combustível ingerido durante a prova render mais.

Vale lembrar que carregar carboidrato costuma vir com ganho de 1 a 2 kg de peso, porque cada grama de glicogênio armazena água junto. Isso é esperado e não é ganho de gordura. E carregar carboidrato não é licença para cortar proteína: manter a ingestão proteica adequada continua importante mesmo nas semanas de prova, como discutido em quanto de proteína por dia.

O que fazer com o número que a calculadora deu?

Anote e leve para o próximo treino longo. O único teste válido é o teste em movimento, no ritmo pretendido, com o mesmo produto que estará no bolso no dia da prova. Ajuste ao longo de algumas semanas até encontrar a dose que você absorve sem sintoma e sem esforço mental. Só então escreva o plano final: quantos géis, em que quilômetro, com quanta água, em qual bolso.

Provas longas são vencidas na logística tanto quanto no treino. O atleta que sabe exatamente o que vai consumir no quilômetro 28 tem uma vantagem prática enorme sobre quem vai decidir na hora, com a boca seca e a cabeça cansada.

Quanto de carboidrato por hora na meia maratona e na maratona?

As duas provas mais procuradas caem em faixas diferentes, e o motivo é o tempo em movimento.

Na meia maratona, quem termina perto de uma hora e meia trabalha bem na faixa de 30 a 60 g por hora, muitas vezes resolvida com um gel e água. Quem leva duas horas ou mais já se beneficia da parte de cima dessa faixa. Na maratona a conta muda de patamar: são três, quatro, cinco horas de esforço, o estoque de glicogênio não cobre isso, e a faixa de 60 a 90 g por hora passa a fazer diferença real no ritmo dos últimos dez quilômetros.

ProvaTempo típicoFaixa por horaObservação
10 kmAté 1 hCostuma dispensarÁgua conforme a sede resolve na maioria dos casos
Meia maratona1 h 30 a 2 h 3030 a 60 gFonte única, glicose ou maltodextrina, dá conta
Maratona3 h a 5 h60 a 90 gAcima de 60 g, misturar glicose com frutose melhora a absorção
UltraAcima de 5 h60 a 90 gAlternar gel com comida sólida costuma segurar melhor o estômago

Um gel comum traz entre 20 e 30 g de carboidrato, então 60 g por hora significa dois a três géis por hora, e é aí que muita gente descobre no dia da prova que o estômago não aguenta. Por isso a regra que vale mais do que qualquer número: o que você vai consumir na prova precisa ter sido testado nos longões.

Perguntas frequentes

Não. Uma prova de 10 km dura bem menos que o tempo em que o glicogênio armazenado sustenta o esforço. O que importa é a refeição das horas anteriores e a hidratação. Consumir gel numa prova tão curta não melhora o tempo e pode causar desconforto sem nenhum benefício.

Alguns atletas de elite testam valores mais altos em provas muito longas, com protocolos de treino intestinal extensos e supervisão profissional. Para a maioria das pessoas, 90 g por hora já está no limite da capacidade de absorção e o ganho adicional é pequeno frente ao risco de desconforto. Não é um número para experimentar por conta própria no dia da prova.

Funciona se a composição for equivalente em quantidade de carboidrato e proporção entre fontes, e se a concentração for adequada. A vantagem do industrializado é a previsibilidade da dose e a estabilidade em corrida. A desvantagem é o custo. Em qualquer caso, o gel caseiro precisa ser testado nos treinos longos antes de virar estratégia de prova.

Conta, e essa é uma fonte frequente de erro. Quem toma bebida esportiva nos postos e ainda consome géis no intervalo planejado pode ultrapassar bastante o alvo por hora sem perceber. Some tudo: bebida, gel, bala e alimento. O total por hora é o que o intestino precisa dar conta.

Comece diluindo mais e bebendo água junto, teste outra marca com composição diferente e reduza a dose por hora por algumas semanas antes de subir de novo. Se o enjoo aparece também em situações fora do esporte, ou vem acompanhado de outros sintomas digestivos persistentes, procure avaliação médica em vez de continuar testando produtos.

As faixas apresentadas aqui são gerais e não consideram uso de insulina, hipoglicemiantes ou monitoramento de glicemia. Quem tem diabetes precisa de um plano individual construído junto com o médico que acompanha o caso e com nutricionista, incluindo estratégia de monitoramento durante o esforço.

Referências

  1. Thomas DT, Erdman KA, Burke LM. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics, Dietitians of Canada, and the American College of Sports Medicine: Nutrition and Athletic Performance. J Acad Nutr Diet. 2016;116(3):501-528.
  2. Jeukendrup A. A step towards personalized sports nutrition: carbohydrate intake during exercise. Sports Med. 2014;44(Suppl 1):S25-S33.
  3. Jeukendrup AE. Training the Gut for Athletes. Sports Med. 2017;47(Suppl 1):101-110.

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