Marcos Hirata

Bariátrica e GLP-1

Ozempic e diarreia: o que comer nos dias difíceis

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: diarreia é um dos efeitos gastrointestinais mais frequentes da semaglutida. Numa análise conjunta dos ensaios STEP, ela apareceu em 29,7% de quem usou o medicamento contra 15,9% do placebo, quase sempre leve a moderada, transitória e concentrada nas semanas de aumento de dose. No dia ruim, o que funciona é comer pouco e várias vezes, escolher preparações cozidas, com pouca gordura e pouca lactose, apostar em fibra solúvel como banana, maçã cozida, aveia e batata, e beber líquido com sal e um pouco de açúcar em goles pequenos ao longo do dia.

Ozempic dá diarreia mesmo? Com que frequência?

Dá, e o número é bem conhecido. Uma análise dos eventos adversos gastrointestinais reunindo os ensaios STEP 1 a 3, publicada na Diabetes, Obesity and Metabolism, mostrou diarreia em 29,7% de quem usou semaglutida contra 15,9% de quem usou placebo. Náusea foi mais frequente ainda, com 43,9% contra 16,1%, seguida de vômito e constipação.

Dois dados dessa mesma análise mudam a leitura do problema. O primeiro é que 98,1% dos eventos gastrointestinais foram leves ou moderados e 99,5% não foram graves. O segundo é que a maior parte apareceu durante ou logo depois do aumento de dose, e foi transitória. Só 4,3% dos participantes interromperam o tratamento em definitivo por causa desses sintomas.

Isso não é exclusividade da semaglutida. Uma análise sistemática de ensaios clínicos com agonistas do receptor de GLP-1, publicada no mesmo periódico em 2017, já mostrava náusea, vômito e diarreia como o trio característico dessa classe. Com a tirzepatida, nos ensaios SURMOUNT, o padrão de eventos gastrointestinais foi semelhante.

Por que o intestino solta com GLP-1?

Parece contraditório que o mesmo medicamento cause prisão de ventre em uns e diarreia em outros, mas os dois efeitos vêm da mesma origem: alteração da motilidade digestiva. Os receptores de GLP-1 estão distribuídos no trato gastrointestinal e no sistema nervoso, e a estimulação deles muda a velocidade de esvaziamento do estômago e o ritmo do intestino.

Há ainda um segundo caminho, mais alimentar. Com o esvaziamento gástrico mais lento e o apetite reduzido, a comida muda: as pessoas passam a comer refeições irregulares, muitas vezes concentradas à noite, com mais gordura, mais adoçantes e menos fibra estruturada. Gordura em grande quantidade acelera o reflexo gastrocólico, adoçantes de açúcar como sorbitol e maltitol puxam água para o intestino, e cafeína em excesso soma.

Existe também a lactose. Ingestão irregular de laticínios e mudança no trânsito podem tornar aparente uma intolerância que já existia. Isso não significa cortar leite: significa testar versões sem lactose e observar. O ponto é que boa parte do que se atribui exclusivamente ao medicamento tem componente alimentar corrigível.

Quanto tempo isso costuma durar?

O padrão descrito nos ensaios é de sintomas concentrados no período de escalonamento de dose, com melhora conforme o corpo se adapta. Na prática de consultório, os relatos mais comuns são de alguns dias a duas ou três semanas depois de cada ajuste, com intensidade decrescente.

Isso importa para a decisão. Um efeito transitório que responde a ajuste alimentar é diferente de um sintoma que persiste por meses ou piora com o tempo. O primeiro se maneja no prato e com paciência. O segundo precisa ser levado ao médico que acompanha o tratamento, porque quem ajusta dose, avalia a permanência do medicamento e investiga outras causas é ele.

Vale registrar o que acontece, com data e horário. Quantas evacuações, consistência, o que foi comido nas horas anteriores, se houve dor, se houve febre. Esse registro simples resolve mais do que qualquer suposição, porque quase sempre revela um padrão: um alimento específico, um horário, uma quantidade de gordura.

O que comer no dia de diarreia?

A lógica é reduzir o que exige trabalho digestivo e aumentar o que dá consistência. Isso significa refeições pequenas e mais frequentes, preparações cozidas, assadas ou grelhadas em vez de fritas, e pouca gordura de uma vez só.

As escolhas que costumam funcionar são conhecidas: arroz branco, batata e mandioca cozidas, macarrão simples, banana bem madura, maçã e pera cozidas ou assadas sem casca, cenoura e abobrinha cozidas, aveia em mingau, torrada, frango ou peixe cozido sem pele, ovo cozido, iogurte natural sem lactose. A fibra solúvel dessas fontes forma gel e ajuda a dar corpo às fezes.

Proteína continua sendo prioridade mesmo no dia ruim, e essa é a parte que mais gente erra. Passar o dia só com chá e torrada resolve o intestino e cria outro problema, porque ingestão proteica insuficiente durante meses cobra preço em massa muscular e no cabelo, pelo mesmo mecanismo que explica a queda de cabelo depois da bariátrica. Frango cozido desfiado, ovo, peixe branco e iogurte sem lactose cumprem o papel sem irritar.

CategoriaCostuma ajudar no dia ruimCostuma piorar
CarboidratosArroz branco, batata, mandioca, macarrão, torrada, aveiaIntegrais em grande quantidade, farelo puro, granola
FrutasBanana madura, maçã e pera cozidas sem casca, goiabaMamão, laranja, ameixa, manga, frutas secas
ProteínasFrango e peixe cozidos, ovo, carne magra sem gordura aparenteFrituras, embutidos, carnes gordurosas, feijoada
LaticíniosIogurte natural, versões sem lactose, queijos brancos firmesLeite comum em quantidade, creme de leite, sorvete
BebidasÁgua, soro de reidratação, chá sem cafeína, água de cocoCafé em excesso, refrigerante, energético, álcool, suco concentrado
DocesPouca quantidade, junto de refeiçãoProdutos com sorbitol, maltitol, xilitol e outros polióis

O que costuma piorar o quadro?

Gordura em quantidade concentrada é o gatilho mais previsível. Fritura, pizza, molho branco, carne gordurosa e fast-food aceleram o esvaziamento intestinal e, com a motilidade já alterada, o efeito é somado. Reduzir a gordura de uma refeição específica costuma resolver mais que cortar gordura do dia inteiro, e essa lógica de ajustar a refeição em vez de proibir grupos alimentares é a mesma que sustenta um emagrecimento saudável.

Adoçantes polióis são o segundo item da lista, e o mais subestimado. Sorbitol, maltitol, xilitol e eritritol aparecem em chiclete sem açúcar, bala diet, chocolate zero, barra de proteína e sobremesa fit, todos muito consumidos por quem está emagrecendo. Eles não são bem absorvidos e puxam água para o intestino. Ler o rótulo dos produtos zero açúcar resolve muitos casos que pareciam culpa exclusiva do medicamento.

Cafeína, álcool e bebidas gaseificadas fecham a lista. E há um erro de estratégia comum: comer muito pouco por medo de passar mal e depois fazer uma única refeição grande à noite. Volume alto de uma vez, com o esvaziamento gástrico lento, é justamente o que dispara o desconforto. Fracionar não é detalhe, é a intervenção principal.

Reidratação: o que realmente repõe

Água pura sozinha não repõe o sódio e o potássio perdidos na diarreia. Sais de reidratação oral comprados na farmácia são a melhor opção e vêm com a proporção correta. Na falta deles, o soro caseiro do Ministério da Saúde é 1 litro de água filtrada ou fervida, 1 colher de chá rasa de sal e 1 colher de sopa rasa de açúcar, bem dissolvidos. Tome em goles pequenos ao longo do dia, não de uma vez. Refrigerante, suco concentrado e isotônico de academia não substituem: o excesso de açúcar pode piorar a diarreia. Sinais de desidratação, como urina escura, tontura ao levantar e boca seca persistente, são motivo para procurar atendimento no mesmo dia.

Como repor líquido e sal?

A regra prática é beber com frequência e em pequenos volumes, o dia inteiro, sem esperar a sede. Com o esvaziamento gástrico lento, um copo grande de uma vez costuma dar plenitude e náusea, e a pessoa desiste de beber. Uma garrafa pequena por perto, com goles a cada poucos minutos, funciona muito melhor.

Além do soro de reidratação, ajudam água de coco, caldo de legumes coado com sal, chá sem cafeína e sopas leves. Alimentos com potássio, como banana e batata cozida, entram na mesma conta e são bem tolerados.

Reidratação não é assunto secundário. Perda de líquido mantida por dias leva a fraqueza, tontura, queda de pressão e, em quem usa outros medicamentos, pode ter consequências sobre função renal. Se você não está conseguindo manter líquido, isso não é para resolver esperando melhorar sozinho.

Fibra ajuda ou atrapalha?

Depende do tipo, e essa distinção resolve boa parte da confusão. Fibra insolúvel, a de farelo de trigo, granola crua, cascas e folhas volumosas, acelera o trânsito e tende a piorar a diarreia. Fibra solúvel, a de aveia, banana, maçã cozida, batata, cenoura e psyllium, forma gel, retém água e dá consistência às fezes.

Um ensaio clínico randomizado publicado no BMJ comparou fibra solúvel e fibra insolúvel em pacientes com síndrome do intestino irritável na atenção primária e encontrou benefício com psyllium, enquanto o farelo não trouxe vantagem sobre o placebo. O contexto é outro, mas a lógica de escolher fibra solúvel quando o intestino está solto é a mesma.

Nos casos com muito gás, distensão e diarreia que não cedem, uma redução temporária de FODMAP pode ser considerada. A dieta com baixo teor de FODMAP reduziu sintomas em ensaio controlado publicado na Gastroenterology, mas ela é restritiva, tem fase de reintrodução e não deve ser feita por conta própria nem mantida por tempo longo, sob risco de empobrecer o prato e a microbiota. É estratégia para ser conduzida com acompanhamento, por tempo curto e com plano de reintrodução definido desde o início.

Quando isso deixa de ser efeito esperado?

Alguns sinais mudam completamente a conduta e pedem avaliação médica, não ajuste de cardápio: sangue nas fezes, fezes escuras como borra de café, febre, dor abdominal intensa ou localizada, vômito que impede beber líquido, perda de peso muito acelerada e não explicada, diarreia que persiste por mais de alguns dias sem melhora, ou sinais de desidratação.

Diarreia também pode ter causa que nada tem a ver com o medicamento e apenas coincidiu no tempo: infecção, intolerância, uso de antibiótico, doença inflamatória intestinal, alteração de tireoide. Uma análise publicada no JAMA em 2023 chamou atenção para eventos gastrointestinais mais graves associados a agonistas de GLP-1 usados para perda de peso, o que reforça que sintoma persistente merece olhar médico e não autoexplicação.

Nutricionista não diagnostica nem ajusta medicação. O que cabe aqui é organizar a alimentação, proteger a hidratação, manter a proteína e reduzir os gatilhos alimentares, e é bastante coisa. Se o seu problema é o oposto, com o intestino travado em vez de solto, a estratégia muda de lado e eu detalhei em o que comer na prisão de ventre com Mounjaro.

Perguntas frequentes

Posso tomar antidiarreico por conta própria?

Não é uma decisão para tomar sozinho. Antidiarreicos têm contraindicações e podem mascarar quadros que precisam de investigação, principalmente quando há febre ou sangue. Quem indica qualquer medicamento é o médico. O que está no seu alcance é ajustar alimentação, hidratação e fracionamento enquanto conversa com quem acompanha o tratamento.

Devo parar o medicamento até melhorar?

Parar, reduzir ou manter é decisão exclusivamente médica, e interromper por conta própria pode trazer outros problemas. O caminho é relatar o sintoma, sua intensidade e sua duração para quem prescreveu. Muitos casos melhoram com ajuste alimentar e com o tempo de adaptação, sem qualquer mudança no tratamento.

Probiótico ajuda nesse caso?

A evidência de probióticos é razoável em situações específicas, como diarreia associada a antibiótico, e bem mais fraca para diarreia induzida por medicamento com efeito sobre motilidade. Não é errado testar uma cepa com estudos, por tempo definido, mas não espere que resolva sozinho. O ajuste alimentar tem retorno mais previsível.

Preciso cortar leite?

Cortar de vez raramente é necessário. O teste que faz sentido é trocar por versões sem lactose por duas semanas e observar. Se melhorar de forma clara, mantenha as versões sem lactose, que preservam proteína e cálcio no prato. Iogurte natural e queijos maturados costumam ser bem tolerados mesmo por quem tem alguma intolerância.

A diarreia significa que estou emagrecendo mais?

Não. A análise dos ensaios STEP mostrou que a perda de peso foi semelhante entre quem teve e quem não teve eventos gastrointestinais, e que esses eventos contribuíram muito pouco para o resultado. O que a diarreia causa é perda de água e de eletrólitos, que a balança registra e que não é gordura.

Devo comer menos para o intestino descansar?

Reduzir volume por refeição sim, reduzir o total do dia não. Ficar em jejum prolongado piora a fraqueza, derruba a ingestão de proteína e não acelera a recuperação do intestino. O formato que funciona é várias refeições pequenas, simples, cozidas e com pouca gordura, mantendo uma fonte de proteína em cada uma.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Wharton S, Calanna S, Davies M, et al. Gastrointestinal tolerability of once-weekly semaglutide 2.4 mg in adults with overweight or obesity, and the relationship between gastrointestinal adverse events and weight loss. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2022;24(1):94-105. DOI: 10.1111/dom.14551
  2. Bettge K, Kahle M, Abd El Aziz MS, et al. Occurrence of nausea, vomiting and diarrhoea reported as adverse events in clinical trials studying glucagon-like peptide-1 receptor agonists: a systematic analysis of published clinical trials. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2017;19(3):336-347. DOI: 10.1111/dom.12824
  3. Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. New England Journal of Medicine. 2021;384(11):989-1002. DOI: 10.1056/NEJMoa2032183
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  5. Sodhi M, Rezaeianzadeh R, Kezouh A, Etminan M. Risk of Gastrointestinal Adverse Events Associated With Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists for Weight Loss. JAMA. 2023;330(18):1795-1797. DOI: 10.1001/jama.2023.19574
  6. Bijkerk CJ, de Wit NJ, Muris JWM, et al. Soluble or insoluble fibre in irritable bowel syndrome in primary care? Randomised placebo controlled trial. BMJ. 2009;339:b3154. DOI: 10.1136/bmj.b3154
  7. Halmos EP, Power VA, Shepherd SJ, Gibson PR, Muir JG. A Diet Low in FODMAPs Reduces Symptoms of Irritable Bowel Syndrome. Gastroenterology. 2014;146(1):67-75. DOI: 10.1053/j.gastro.2013.09.046

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