Marcos Hirata

Nutrição Esportiva

Beach tennis: o que comer e beber para aguentar o sol

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: Beach tennis castiga por três motivos somados: sol direto, areia que reflete calor e jogo intermitente que engana a percepção de esforço. Quem joga duas horas no meio do dia perde muito líquido e sódio, e água pura sozinha nem sempre dá conta. O plano que funciona é comer uma refeição com carboidrato de duas a três horas antes, levar bebida com sódio e carboidrato para beber nas trocas de lado, e repor de verdade depois, com líquido, sal, carboidrato e proteína. Cãibra recorrente, tontura e dor de cabeça depois do jogo não são normais e merecem investigação, não só mais água.

O que o beach tennis exige do corpo?

É um esporte intermitente: sequências curtas de alta intensidade separadas por pausas breves. Esse padrão é parecido com o do tênis, e a literatura de nutrição para esportes de raquete descreve bem a combinação de esforço repetido, uso de glicogênio muscular e perda importante de líquido em partidas longas. A pausa entre pontos engana: você acha que descansou, mas o custo se acumula.

A areia acrescenta duas camadas. A primeira é mecânica: correr em areia fofa custa mais energia do que correr em piso firme, e a musculatura de perna e quadril trabalha mais para estabilizar. A segunda é térmica: a superfície esquenta muito, reflete radiação e a quadra costuma não ter sombra. É exercício sob estresse térmico, com tudo o que isso implica.

O terceiro elemento é a duração imprevisível. Um jogo pode durar quarenta minutos ou passar de duas horas dependendo do equilíbrio das duplas. Quem se prepara para quarenta minutos e joga duas horas fica sem estratégia justamente quando ela seria necessária.

O que comer antes de jogar?

Para jogo casual de fim de tarde com até uma hora, uma refeição normal algumas horas antes já resolve, e o restante é hidratação. Para jogo longo, torneio ou horário de calor forte, faz diferença chegar com o estoque de carboidrato cheio.

O formato que uso é uma refeição de duas a três horas antes, com carboidrato como base, proteína moderada e pouca gordura e fibra. Arroz com frango, macarrão com molho simples, pão com queijo branco e fruta, tapioca com ovo. Perto do jogo, nos trinta a sessenta minutos finais, o foco muda para líquido e, se necessário, algo pequeno de digestão rápida.

SituaçãoAntesDuranteDepois
Jogo casual até 1 hora, fim de tarderefeição normal 2 a 3 h anteságua conforme a sederefeição habitual
Jogo de 1 a 2 horas no solrefeição com carboidrato 2 a 3 h antesbebida com carboidrato e sódio nas trocaslíquido com sódio mais carboidrato e proteína
Dia de torneio, vários jogoscafé da manhã reforçadobebida a cada jogo mais lanche entre partidasrefeição completa e reidratação ao longo da noite
Jogo cedo, antes do trabalholanche pequeno ou nada, se o jantar foi bomáguacafé da manhã completo

O que beber durante o jogo no sol?

Em partida de até uma hora em horário ameno, água costuma bastar. A partir daí, e principalmente em calor, bebida com carboidrato e sódio tem duas vantagens: repõe o que sai no suor e é mais palatável, o que faz a pessoa beber mais espontaneamente. Volume ingerido é o fator mais prático de todos, e gente que só tem água morna na garrafa bebe menos.

O momento importa. Beber tudo no fim é inútil. A troca de lado e o intervalo entre games são as janelas naturais, e vale transformar isso em hábito automático, mesmo sem sede. Em ambiente quente, a sede aparece depois de já ter havido perda relevante.

Quanto beber é uma pergunta sem resposta única, porque a taxa de suor varia muito entre pessoas. O método honesto de descobrir a sua é pesar-se antes e depois de um jogo, no calor, descontando o que bebeu. Faça isso duas ou três vezes e você terá uma faixa útil para planejar.

Por que sódio importa tanto na areia?

O suor não é só água: ele carrega sódio, e a concentração varia bastante de pessoa para pessoa. Quem sua muito, quem tem suor visivelmente salgado, quem termina o jogo com marcas brancas na roupa e no boné perde mais sódio do que a média. Repor só água em grande volume, nesse cenário, dilui o que sobrou.

Na prática isso significa que uma bebida esportiva, um sachê de reposição ou até uma refeição salgada depois do jogo cumprem função. Não é sobre “comer sal para tudo”, é sobre reconhecer que uma sessão longa de duas horas no sol tem perda diferente de uma caminhada leve.

O erro mais comum que vejo em quem joga na areia

Chegar na quadra às 11h de um sábado de verão com uma garrafinha de 500 ml e nenhum plano de comida, porque “é só um jogo”. Duas horas depois, a pessoa está com dor de cabeça, sem força na perna e com cãibra na panturrilha, e conclui que precisa de mais treino. Precisa de mais líquido, de sódio e de ter comido antes. Leve o dobro de líquido do que imagina que vai beber, deixe uma parte gelada e prefira horários fora do pico de sol.

Cãibra no meio do jogo: falta de banana?

Provavelmente não. A ideia de que cãibra é falta de potássio, resolvida com banana, é popular e mal sustentada. A discussão científica reconhece dois grupos de hipóteses: uma associada a fadiga neuromuscular e controle motor alterado, e outra associada a desidratação com déficit de eletrólitos, especialmente sódio. Em esporte de calor, com suor abundante, a segunda hipótese ganha força.

O que costuma ajudar na prática: chegar hidratado, repor sódio durante o jogo, não jogar muito além do que você treinou e respeitar progressão. Cãibra que aparece sempre no mesmo músculo, ou que surge fora do exercício, merece avaliação médica, porque existem causas clínicas e medicamentosas que não se resolvem com bebida esportiva.

Quem já vem de sessões longas ou joga vários dias seguidos precisa olhar também para a recuperação entre elas, tema tratado em alimentação e recuperação muscular.

Como comer num dia de torneio com vários jogos?

Torneio é maratona disfarçada de jogos curtos. Você joga, espera duas horas, joga de novo, e o dia todo passa no sol. Sem planejamento, a alimentação vira o que a lanchonete da arena tem, quase sempre pesada ou insuficiente.

A estrutura que oriento é simples: café da manhã reforçado antes de sair, uma caixa térmica com bebida gelada, fruta, sanduíche leve e algum carboidrato de fácil digestão, e uma refeição de verdade se o intervalo entre jogos passar de três horas. Entre partidas com pouco intervalo, prefira líquido com carboidrato a comida sólida volumosa.

O ponto que mais falha é a reposição entre jogos. Quem termina uma partida e passa a hora seguinte parado no sol sem beber chega para a próxima já em desvantagem. Quem joga com frequência alta em dias seguidos encontra a lógica de dois estímulos no mesmo dia em como comer quando se treina duas vezes ao dia.

O que fazer na recuperação entre um dia e outro?

Três coisas: repor líquido com sódio até a urina voltar a ficar clara, repor carboidrato para recompor o glicogênio usado e distribuir proteína nas refeições seguintes. Nada disso precisa de produto especial. Uma refeição normal, com arroz, feijão, uma fonte de proteína e líquido em volume maior que a sede pede, cumpre bem.

O sinal de que a reposição não está acontecendo é o desempenho do segundo dia. Se você joga bem no sábado e se arrasta no domingo, com sensação de perna pesada e sede persistente, quase sempre falta carboidrato e líquido na noite anterior, e não força muscular.

Vale usar algum suplemento?

Para a maioria de quem joga por lazer, não. O que muda o jogo é hidratação, comida antes e sono. Bebida esportiva não é bem um suplemento, é uma forma prática de repor líquido, sódio e carboidrato ao mesmo tempo, e essa sim tem uso claro em partida longa no calor.

Cafeína tem efeito ergogênico documentado, com faixas de dose estudadas, e algumas pessoas se beneficiam em torneio. Também há quem sinta taquicardia e desconforto gástrico, e em jogo de fim de tarde ela pode atrapalhar o sono. Se for testar, teste em jogo comum. Nada disso substitui a preparação, e a lógica geral de suplementação com evidência está na página de nutrição esportiva.

Perguntas frequentes

Posso jogar beach tennis em jejum?

Para jogo leve e curto, muita gente tolera bem, sobretudo se o jantar da véspera foi adequado. Para jogo longo, em calor ou em torneio, a qualidade cai e o risco de tontura aumenta. Jejum não traz vantagem para queimar mais gordura ao longo das semanas: quem decide isso é o balanço energético do dia.

Água de coco substitui isotônico?

Serve como líquido e traz potássio, mas tem pouco sódio em comparação com bebidas esportivas. Para jogo curto, funciona bem. Para duas horas no sol com suor intenso, ela sozinha tende a repor pouco sódio. Nesse cenário, uma bebida com sódio ou uma refeição salgada depois completam melhor.

Jogar na areia emagrece mais do que academia?

O gasto por hora costuma ser bom, porque areia aumenta o custo do deslocamento. Mas emagrecimento depende do balanço energético ao longo das semanas, não da modalidade. O que o beach tennis tem de forte é a adesão: gente que odeia esteira joga três vezes por semana sem reclamar, e constância vale mais do que gasto por sessão.

Devo usar protetor solar antes ou depois de me hidratar?

São coisas independentes e ambas necessárias. Protetor, boné e óculos reduzem a carga térmica e o dano de radiação; hidratação e sódio resolvem a perda de suor. Roupa clara e leve, que permita o suor evaporar, ajuda mais do que roupa justa e escura em quadra aberta.

Sinto dor de cabeça depois de todo jogo no sol. É desidratação?

Pode ser, e testar hidratação e reposição de sódio é o primeiro passo razoável. Mas dor de cabeça repetida tem várias causas possíveis e não é algo que eu diagnostique. Se o padrão se mantém mesmo com hidratação bem feita, ou vem com alteração visual, náusea intensa ou confusão, procure um médico.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

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