Marcos Hirata

Suplementação

Bicarbonato de sódio na corrida: em que prova ele ajuda

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: bicarbonato de sódio é um tamponante extracelular, e ele só muda alguma coisa em esforço curto e muito intenso, aquele que arde e satura de acidose entre mais ou menos 30 segundos e 12 minutos. Na corrida, isso significa 800 m, 1500 m, 3000 m com obstáculos, 5 km de rua e tiros repetidos de pista. Em maratona, meia e prova longa de trail, o fator limitante é outro e o bicarbonato não entrega nada. A faixa estudada é de 0,2 a 0,3 grama por quilo de peso, tomada de 60 a 180 minutos antes, e o efeito colateral gástrico é frequente o bastante para que ninguém teste isso pela primeira vez no dia da prova.

Como o bicarbonato age no corredor?

Quando você corre acima do limiar, a via glicolítica acelera e o músculo passa a produzir íons de hidrogênio mais rápido do que consegue exportar. A queda de pH dentro da fibra atrapalha enzimas da própria glicólise e interfere na dinâmica do cálcio dentro da célula. O resultado é aquela sensação de perna travando nos últimos 300 metros, com a passada encurtando mesmo com o pulmão respondendo.

O bicarbonato ingerido não entra na fibra muscular. Ele eleva a concentração de bicarbonato no sangue, ou seja, aumenta a capacidade de tampão do lado de fora da célula. Com um gradiente maior entre músculo e sangue, o transporte de hidrogênio para fora da fibra fica mais eficiente. É uma ajuda indireta, de logística, não de combustível.

Essa mecânica explica por que o suplemento é tão seletivo. Se a prova não gera acidose relevante, não há hidrogênio sobrando para exportar e o tampão extra não tem função. É por isso que o mesmo produto que muda um 800 m não faz absolutamente nada numa meia maratona em ritmo confortável.

Em quais provas ele ajuda de verdade?

A meta-análise de Carr, Hopkins e Gore em Sports Medicine reuniu os estudos de alcalose aguda e o padrão que aparece é consistente: o benefício se concentra em esforços máximos de curta duração, com magnitude pequena e relevante para desempenho competitivo, e some conforme a duração aumenta. O posicionamento da International Society of Sports Nutrition sobre bicarbonato, assinado por Grgic e colaboradores, descreve a janela de utilidade em torno de 30 segundos a 12 minutos de esforço de alta intensidade.

Traduzindo para a corrida: 800 m e 1500 m são o alvo clássico. O 3000 m com obstáculos e o 5000 m de pista ficam no limite superior da janela. Provas de rua de 5 km, corridas com sprint final decisivo e sessões de tiros curtos com pausa curta também se encaixam, porque a acidose se acumula ao longo das repetições.

Fora dessa faixa, a resposta honesta é não. Maratona, meia maratona, trail longo e triatlo de longa distância são limitados por disponibilidade de carboidrato, termorregulação, hidratação e dano muscular. Nada disso melhora com tampão. Para essas provas, o que muda o resultado é o trabalho de véspera e o plano de carboidrato durante o esforço, que eu detalho em o que comer na véspera da prova.

ProvaDuração típicaFator limitante principalBicarbonato faz sentido?
400 m50 a 70 segundosAcidose e potência anaeróbiaSim, dentro da janela
800 m e 1500 m2 a 7 minutosAcidose com componente aeróbio altoSim, é o cenário mais estudado
5 km de rua15 a 30 minutosLimiar e economia de corridaTalvez, só para quem corre perto de 15 minutos
10 km30 a 60 minutosLimiar, carboidratoImprovável
Meia e maratona1h20 a 5hGlicogênio, calor, hidrataçãoNão
Tiros curtos repetidosSessão inteiraAcidose acumulada entre sériesSim, em treino de qualidade específico

Qual a faixa de dose estudada?

A literatura trabalha entre 0,2 e 0,3 grama de bicarbonato de sódio por quilo de peso corporal. A dose de 0,3 g/kg é a mais usada nos ensaios e a que produz elevação maior de bicarbonato plasmático; a de 0,2 g/kg costuma ser adotada quando o objetivo é reduzir sintomas gástricos. Doses acima de 0,3 g/kg aumentam o desconforto sem ganho proporcional de desempenho.

Para dar dimensão prática do que isso significa: um corredor de 70 quilos na dose de 0,3 g/kg estaria falando de cerca de 21 gramas de pó. É um volume grande, com gosto salgado e desagradável, que precisa ser diluído em bastante líquido. Muita gente desiste na primeira tentativa só pela experiência sensorial, antes mesmo de qualquer sintoma intestinal.

Eu prefiro deixar claro o que essa faixa é e o que ela não é. Ela descreve o intervalo que a pesquisa testou, não uma recomendação automática para qualquer pessoa que lê este texto. A decisão de usar, a dose e o protocolo dependem do tipo de prova, do histórico gástrico e do estado de saúde de cada corredor, e é justamente esse tipo de individualização que eu faço dentro do acompanhamento de nutrição esportiva.

Quanto tempo antes tomar?

O intervalo mais comum nos estudos é de 60 a 180 minutos antes do esforço. A razão é que o pico de bicarbonato no sangue não acontece num horário fixo igual para todo mundo. Jones e colaboradores mostraram no International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism que o tempo até o pico varia bastante entre indivíduos e entre doses, o que torna o protocolo de horário fixo um chute razoável, mas só um chute.

Quem leva o assunto a sério em contexto competitivo faz o que a literatura chama de individualização por tempo até o pico: testa em treino, cronometra como se sente e, quando há acesso, mede o bicarbonato sanguíneo para identificar a própria janela. Para o corredor amador, a versão realista disso é mais simples: testar duas ou três vezes em treinos de qualidade que imitem a prova e observar em qual antecedência o desconforto já passou e a perna responde bem.

Um detalhe que atrapalha muita gente é a logística de banheiro. Se a sua janela ideal for de 150 minutos, você precisa acordar cedo o suficiente para tomar, esperar o pico da sintomatologia gástrica passar e ainda chegar à área de largada. Protocolo bom no papel e impraticável na manhã da prova não é protocolo.

Nunca estreie suplemento no dia da prova

Esta é a regra que eu mais repito no consultório, e com bicarbonato ela vale em dobro. A taxa de sintomas gastrointestinais é alta o bastante para que a primeira experiência tenha chance real de arruinar a corrida. Se você quer usar numa prova de agosto, o primeiro teste é em maio, num treino de tiros, sem compromisso com tempo, perto de casa.

Como reduzir o estrago gástrico?

Náusea, estufamento, cólica e diarreia são os efeitos mais relatados. Carr e colaboradores compararam formas de administração no International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism e três ajustes apareceram como úteis: dividir a dose em tomadas menores ao longo de uma hora, ingerir junto com uma refeição rica em carboidrato e usar cápsulas em vez de pó dissolvido.

A refeição rica em carboidrato parece ser o fator mais consistente. Ela retarda o esvaziamento gástrico de forma favorável e reduz a concentração do bicarbonato livre no estômago. Volume de líquido também importa: pouca água concentra demais, muita água estufa. A referência prática usada nos estudos costuma girar em torno de 7 a 10 mililitros de líquido por quilo de peso junto com a dose.

Existe ainda a alternativa do citrato de sódio, que tem efeito tamponante parecido e tende a causar menos sintomas em algumas pessoas, embora seja menos estudado em corrida. Se depois de três tentativas bem conduzidas o seu intestino continuar reagindo mal, a leitura correta é que esse suplemento não é para você, e não que você precisa insistir mais. Quem já tem histórico de intestino solto em prova deveria pensar duas vezes antes de acrescentar mais um irritante gástrico à equação.

O bicarbonato conta como reposição de sódio?

Ele carrega muito sódio, mas não é uma estratégia de reposição. O bicarbonato de sódio tem cerca de 27 por cento do peso em sódio, então uma dose de 21 gramas entrega perto de 5,7 gramas de sódio de uma vez só. Isso é bem mais do que qualquer cápsula de sal de prova, e concentrado num único momento antes da largada.

Essa carga de sódio tem duas consequências práticas. A primeira é sede e retenção de líquido nas horas seguintes, que algumas pessoas sentem como peso e estufamento na largada. A segunda é que quem tem pressão alta, doença renal ou restrição de sódio prescrita não pode tratar isso como detalhe.

A reposição de sódio durante o esforço tem outra lógica, outro momento e outra dose, e serve a outro problema, que é a perda pelo suor ao longo de horas de prova. São assuntos diferentes que só compartilham o mineral, e eu separo os dois em como repor sódio na corrida.

Dá para combinar com cafeína, beta-alanina e carboidrato?

Com carboidrato, a combinação é obrigatória e não opcional. Nenhum tampão substitui substrato. O carboidrato da véspera e do café da manhã continua sendo o que sustenta o ritmo, e o bicarbonato só entra em cima de uma base alimentar que já está pronta.

Com cafeína, a combinação é comum e as duas substâncias atuam por vias diferentes, o que torna a soma plausível. O consenso do Comitê Olímpico Internacional sobre suplementos, coordenado por Maughan e colaboradores, classifica cafeína e bicarbonato entre os poucos suplementos com evidência de efeito ergogênico direto. O cuidado aqui é que ambos irritam o estômago, e somar dois irritantes em quem não testou nenhum dos dois é receita de problema.

Com beta-alanina existe uma lógica interessante: a beta-alanina eleva a carnosina, que é o tampão de dentro da fibra, enquanto o bicarbonato age fora dela. A ideia de somar os dois é fisiologicamente coerente e vem sendo estudada, embora o tamanho do efeito combinado ainda seja modesto e inconsistente entre trabalhos. Não é a primeira coisa que eu ajustaria em quem ainda não organizou o básico do treino e da alimentação.

Quem não deve usar sem avaliação médica

Hipertensão, doença renal, insuficiência cardíaca, uso de diuréticos ou de qualquer medicação que interfira no equilíbrio de sódio e potássio, e gestação. Nesses contextos, a carga aguda de sódio e a alteração do equilíbrio ácido-base deixam de ser um detalhe de performance e passam a ser assunto clínico. Quem avalia e libera é o médico, não o nutricionista e muito menos o vendedor da loja de suplemento.

Vale também dizer o que o bicarbonato não é. Ele não é doping: não consta na lista de substâncias proibidas da Agência Mundial Antidoping. E ele não é remédio para azia de corredor nem tratamento para acidez estomacal. O uso como antiácido caseiro em doses e frequências aleatórias é outra conversa, e uma que já produziu casos graves de alcalose descritos na literatura médica.

Fechando o raciocínio prático: se você corre prova de rua acima de 10 km, esqueça o bicarbonato e coloque energia no plano de carboidrato e de hidratação. Se você compete em pista, em provas de 800 m a 5000 m, e já tem treino, sono e alimentação organizados, aí sim é um recurso com evidência, que exige teste prévio e cabeça fria sobre o desconforto que ele pode causar.

Perguntas frequentes

Bicarbonato de sódio ajuda na maratona?

Não. A maratona é limitada por disponibilidade de carboidrato, hidratação, calor e dano muscular, não por acidose. O tampão extra não atua sobre nenhum desses fatores. Em prova longa, a energia é melhor investida em carga de carboidrato, plano de gel e reposição de líquido e sódio.

Posso usar o bicarbonato de padaria que tenho em casa?

Do ponto de vista químico é a mesma substância, mas o produto alimentício comum não tem controle de pureza e de contaminantes voltado para uso em dose alta. Se a decisão for usar, faz mais sentido um produto com padrão de qualidade declarado. E a decisão em si merece conversa com quem acompanha o seu treino e a sua saúde.

Bicarbonato é considerado doping?

Não. Ele não está na lista de substâncias proibidas da Agência Mundial Antidoping e é usado abertamente em esporte de alto rendimento. Isso não significa ausência de risco, apenas ausência de proibição competitiva.

Tomar todos os dias funciona melhor que só antes da prova?

Existem protocolos de uso repetido por alguns dias antes da competição, com a ideia de manter o bicarbonato elevado e reduzir a dose aguda. A evidência ainda é menor que a do uso agudo, e o acúmulo de sódio ao longo dos dias merece atenção. O modelo mais estudado continua sendo a dose única antes do esforço.

Se eu passar mal com bicarbonato, existe substituto?

O citrato de sódio tem ação tamponante semelhante e costuma ser mais bem tolerado, apesar de menos estudado em corrida. Outra rota é a beta-alanina, que age por dentro da fibra e não causa desconforto gástrico, com a diferença de exigir semanas de uso contínuo em vez de dose única antes da prova.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Grgic J, Pedisic Z, Saunders B, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: sodium bicarbonate and exercise performance. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2021;18(1):61. DOI: 10.1186/s12970-021-00458-w
  2. Carr AJ, Hopkins WG, Gore CJ. Effects of Acute Alkalosis and Acidosis on Performance: A Meta-Analysis. Sports Medicine. 2011;41(10):801-814. DOI: 10.2165/11591440-000000000-00000
  3. Carr AJ, Slater GJ, Gore CJ, Dawson B, Burke LM. Effect of Sodium Bicarbonate on [HCO3-], pH, and Gastrointestinal Symptoms. International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism. 2011;21(3):189-194. DOI: 10.1123/ijsnem.21.3.189
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