Marcos Hirata

Suplementação

Creatina: como tomar, quando tomar e os mitos que não morrem

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: a faixa mais estudada de creatina é de 3 a 5 g de creatina monoidratada por dia, todos os dias, com ou sem treino no dia. Fase de saturação não é necessária, horário não muda o resultado de forma relevante, o “inchaço” é água dentro do músculo (não gordura) e, em pessoa saudável, não há evidência de dano renal. O mito da queda de cabelo se apoia em um único estudo pequeno que nem mediu queda de cabelo.

O que a creatina faz, afinal?

Ela aumenta a reserva de energia rápida do músculo, e é o suplemento com mais evidência da nutrição esportiva.

A creatina é um composto que o próprio corpo produz (fígado, rins e pâncreas) e que também vem da carne e do peixe. No músculo, ela é armazenada como fosfocreatina, o sistema de energia usado em esforços curtos e intensos: uma série de agachamento, um tiro de corrida, um salto. Suplementar aumenta esse estoque em cerca de 20 a 40%, o que se traduz em mais repetições, mais carga ao longo das semanas e, com treino consistente, mais massa muscular. Há ainda linhas de pesquisa em cognição, envelhecimento e preservação muscular, promissoras, mas com evidência bem menos madura que a do desempenho. Sou direto com paciente sobre isso: para força e massa muscular, a evidência é robusta; para “memória” e “energia mental”, ainda é cedo para prometer qualquer coisa.

Quanto tomar por dia?

A faixa estudada na literatura é de 3 a 5 g/dia de creatina monoidratada, de forma contínua.

É essa a dose usada na maioria dos ensaios clínicos e a referida no posicionamento da Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva. Pessoas com mais massa muscular tendem a ficar no topo da faixa; pessoas menores, na base. Importante: isso é informação educativa, não receita, a dose adequada para você depende de avaliação individual de peso, dieta (vegetarianos partem de estoques menores e costumam responder mais), objetivo e função renal. Mais que 5 g/dia não acrescenta benefício de desempenho na maioria dos casos; o músculo satura e o excesso vira creatinina, que sai na urina.

Precisa fazer fase de saturação?

Não. A saturação só acelera o enchimento do estoque; o resultado final é o mesmo.

O protocolo clássico de saturação (cerca de 20 g/dia divididos por 5 a 7 dias) satura o músculo em uma semana. Tomar 3 a 5 g/dia chega exatamente ao mesmo estoque em 3 a 4 semanas. Como a creatina é suplemento de uso crônico, o benefício vem de meses de treino com o estoque cheio, essas duas ou três semanas de diferença são irrelevantes na prática. A saturação ainda aumenta a chance de desconforto gastrointestinal em quem é sensível. O mito persiste porque os primeiros estudos dos anos 1990 usavam saturação por desenho experimental (precisavam de efeito rápido para medir), e a indústria adorou um protocolo que faz o pote acabar mais rápido.

ProtocoloDoseTempo até saturar o músculoResultado em 8-12 semanas
Saturação~20 g/dia por 5-7 dias, depois 3-5 g/dia~1 semanaIgual
Dose contínua3-5 g/dia desde o início~3-4 semanasIgual

Existe melhor horário para tomar creatina?

Não há horário mágico. O que importa é tomar todo dia.

A creatina funciona por acúmulo: o que muda o desempenho é o estoque muscular cheio, construído ao longo de semanas, não a dose daquele dia. Alguns estudos sugerem vantagem marginal do pós-treino, mas os resultados são inconsistentes e o efeito, se existe, é pequeno demais para valer neurose. Tomar junto de uma refeição pode ajudar levemente a captação (pela insulina) e reduz desconforto gástrico. Minha orientação prática: ancore em um hábito fixo, café da manhã, almoço, o shake de sempre, porque a variável que realmente destrói resultado é esquecer de tomar.

Creatina engorda ou incha?

Creatina não tem caloria relevante e não aumenta gordura. O ganho inicial de peso é água dentro do músculo.

Nas primeiras semanas, é comum o ponteiro da balança subir algo em torno de 1 a 2% do peso corporal. Isso é água intracelular: a creatina é osmoticamente ativa e puxa água para dentro da fibra muscular, o que, inclusive, é ambiente favorável para o músculo, não retenção “flácida” sob a pele. O mito “creatina engorda” existe porque muita gente olha só o número da balança, e balança não diferencia água, músculo e gordura. Em processo de emagrecimento, esse detalhe importa: quem começa creatina e dieta ao mesmo tempo pode “não ver a balança descer” mesmo perdendo gordura. É exatamente o tipo de situação em que medir composição corporal e gasto energético real, como fazemos com a calorimetria indireta, evita conclusões erradas.

Creatina faz mal para os rins?

Em pessoa saudável, nas doses estudadas, não há evidência de dano renal, inclusive em estudos de anos de uso.

Esse é provavelmente o mito mais repetido em consultório. Ele nasce de uma confusão de laboratório: creatina suplementar aumenta a creatinina, que é o marcador usado para estimar a função renal. A creatinina sobe não porque o rim piorou, mas porque há mais creatina sendo degradada. Estudos que usaram marcadores independentes de creatinina (como cistatina C) não encontraram prejuízo de função renal em indivíduos saudáveis. O ponto de responsabilidade: quem já tem doença renal diagnosticada, ou alteração em exames, precisa de avaliação médica antes de qualquer suplementação, diagnóstico e conduta sobre doença renal são do médico, e eu devolvo essa decisão a ele sempre que aparece um exame alterado.

Mito derrubado: “creatina causa queda de cabelo”

Esse medo inteiro se apoia em um único estudo de 2009, com cerca de 20 jogadores de rúgbi, que encontrou aumento de DHT (hormônio associado à calvície genética) após 3 semanas de creatina, sem medir queda de cabelo, sem réplica até hoje, e com valores de DHT que permaneceram dentro da faixa normal. Nenhum dos mais de 500 ensaios clínicos com creatina relatou alopecia como efeito adverso. Evidência fraquíssima virou manchete porque cabelo mobiliza mais clique do que fosfocreatina. Se você tem forte predisposição genética à calvície e quer ser ultraconservador, é uma escolha sua, mas saiba que está decidindo com base em um dado isolado e nunca reproduzido.

Qual creatina comprar? Monoidratada resolve?

Sim. Creatina monoidratada é a forma testada em praticamente toda a literatura, e a mais barata.

Versões “avançadas” (HCl, alcalina, etil éster, micronizada com promessas extras) não demonstraram superioridade em estudos comparativos; algumas, como o etil éster, se mostraram inferiores. A micronizada é apenas monoidratada com partícula menor, que dissolve melhor, válida para quem sente areia no copo, sem vantagem fisiológica. O critério que realmente importa é procedência: marca com selo de pureza e, idealmente, matéria-prima certificada. Suplemento no Brasil tem histórico de contaminação e subdosagem, e creatina barata demais merece desconfiança.

Mulher pode tomar creatina? E quem não treina?

Pode, e a evidência em mulheres vem crescendo, inclusive fora do contexto de hipertrofia.

A creatina não é hormônio, não “masculiniza” e não é exclusiva de quem quer volume muscular. Em mulheres, há interesse crescente em força, preservação de massa magra no emagrecimento e na perimenopausa, escrevi um artigo específico sobre isso em creatina para mulher. Para quem não treina, o benefício de desempenho obviamente some, mas os estoques musculares ainda aumentam; em idosos, a combinação creatina + treino de força é o que mostra resultado consistente contra a perda muscular. Suplemento não substitui estímulo: creatina sem treino é estoque cheio sem uso.

Perguntas frequentes

Não há base para ciclar. A produção endógena reduz durante o uso e volta ao normal semanas após parar, sem “atrofiar”. Estudos de uso contínuo por anos não mostraram necessidade de pausa em pessoas saudáveis.

A ideia vem de um estudo antigo e pequeno, nunca confirmado de forma consistente. Hoje a maioria dos pesquisadores considera a interação improvável ou irrelevante na prática. Pode tomar seu café.

Deve. O objetivo é manter o estoque muscular saturado, e isso exige constância diária. O treino usa o estoque; a dose diária o mantém cheio, treinando ou não naquele dia.

Com 3-5 g/dia, o estoque satura em 3 a 4 semanas; é a partir daí que costuma aparecer diferença em repetições e carga. Ganho de massa muscular depende de meses de treino, a creatina amplifica o processo, não o substitui.

A literatura em atletas jovens não mostra sinal de dano nas doses habituais, mas os estudos são menores. Em menores de idade, a orientação deve ser individual, com avaliação profissional e alinhamento com a família, nunca por conta própria copiando dose de adulto.

Nas doses de 3-5 g é incomum; doses altas de saturação aumentam a chance. Se houver sintoma, dividir a dose e tomar com refeição costuma resolver. Sintomas intestinais persistentes merecem investigação própria, não culpa automática da creatina.

Referências

  1. Kreider RB et al. International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport, and medicine. J Int Soc Sports Nutr. 2017;14:18. doi:10.1186/s12970-017-0173-z
  2. Antonio J et al. Common questions and misconceptions about creatine supplementation: what does the scientific evidence really show? J Int Soc Sports Nutr. 2021;18:13. doi:10.1186/s12970-021-00412-w
  3. van der Merwe J, Brooks NE, Myburgh KH. Three weeks of creatine monohydrate supplementation affects dihydrotestosterone to testosterone ratio in college-aged rugby players. Clin J Sport Med. 2009;19(5):399-404.

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