Marcos Hirata

SIBO, IMO e Saúde Intestinal

Diarreia crônica: o que comer enquanto se investiga a causa

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: diarreia que passa de quatro semanas precisa de investigação médica, e a alimentação nesse período tem duas funções: reduzir o sintoma e impedir que você perca peso, líquido e nutriente enquanto os exames não voltam. O que costuma funcionar é comer em porções menores e mais vezes, priorizar fibra solúvel (aveia, banana, cenoura cozida, batata, psyllium), controlar gordura em refeição única, reduzir lactose e adoçantes terminados em ol por duas semanas e repor líquido com sódio junto, não só água. O que não se deve fazer é restringir tudo por conta própria por meses. Dieta não substitui diagnóstico, e quem investiga e trata a causa é o médico.

O que conta como diarreia crônica?

A definição usada nas diretrizes combina três coisas: consistência amolecida ou líquida (tipos 6 e 7 da escala de Bristol), frequência aumentada, em geral três ou mais evacuações por dia, e duração maior que quatro semanas. Aumento de frequência com fezes formadas não é diarreia, e episódio de três dias depois de uma refeição suspeita também não. O critério de tempo é o que muda tudo, porque separa infecção autolimitada de algo que precisa ser investigado.

A lista de causas é longa e vai de intolerâncias e má absorção de sais biliares a doença celíaca, colite microscópica, doença inflamatória intestinal, insuficiência pancreática exócrina, hipertireoidismo, efeito de medicamento e síndrome do intestino irritável com predomínio de diarreia. Cada uma dessas tem conduta alimentar diferente depois do diagnóstico, e é justamente por isso que a dieta genérica só serve para a fase de espera.

Faço questão de dizer isso logo no começo porque vejo o erro com frequência: a pessoa passa oito meses cortando alimentos e chega ao consultório com uma alimentação pobre, quinze quilos a menos e nenhum exame feito. A ordem correta é o contrário. Marque o médico, faça os exames que ele pedir, e use a alimentação para atravessar esse período em condições melhores.

O que comer enquanto a investigação corre?

A base que costuma ser bem tolerada tem quatro características: pouca gordura por refeição, fibra predominantemente solúvel, pouco resíduo fermentável e volume fracionado. Isso significa refeições menores, cinco ou seis vezes ao dia, em vez de duas grandes. Volume grande de uma vez distende o cólon, acelera o trânsito e piora a urgência.

Alimentos que costumam entrar bem: arroz branco, batata, mandioca, macarrão comum, banana, maçã sem casca ou cozida, cenoura cozida, abobrinha sem casca, chuchu, aveia cozida, frango sem pele, peixe magro, ovo cozido, queijos maturados em pequena porção. Aveia, banana e psyllium merecem destaque porque a fibra solúvel viscosa forma gel, retém água no bolo fecal e melhora consistência sem acelerar o trânsito.

Temperatura e tempero também contam. Refeição muito quente, muito condimentada ou com pimenta em quantidade aumenta a urgência em parte das pessoas. Café em jejum, por causa do efeito sobre a motilidade, é um dos itens que eu peço para testar retirar por dez dias, porque a resposta costuma ser rápida e informativa.

Quais alimentos costumam piorar o quadro?

GrupoExemplosPor que pioraConduta na fase de espera
Lactoseleite, requeijão, queijo fresco, leite condensadofermentação e efeito osmótico se a lactase estiver baixatestar retirada por 2 semanas, manter cálcio por outras fontes
Polióischiclete e doces zero, ameixa, produtos dietabsorção lenta e incompleta, puxam águaretirar enquanto durar o sintoma
Frutose livremel, xarope de milho, suco de caixinha, refrigerantesatura o transporte e fermenta no cólonreduzir e distribuir ao longo do dia
Gordura em volumefritura, feijoada, pizza, molho cremosoestimula secreção e motilidade, e é mal tolerada se houver má absorçãolimitar por refeição, não zerar do dia
Cafeína e álcoolcafé em jejum, energético, cervejaaceleram trânsito e aumentam secreçãotestar retirada por 10 dias
Fibra insolúvel em excessofarelo de trigo, folhas cruas em grande volume, casca duraaumenta resíduo e acelera trânsitoreduzir temporariamente, manter a solúvel
Adoçantes fermentáveissorbitol, manitol, maltitol, xilitolosmose e fermentaçãotrocar por adoçante de alta intensidade

Repare que nenhuma linha da tabela diz para excluir para sempre. A restrição aqui é diagnóstica e temporária, com prazo de duas a quatro semanas e reintrodução organizada depois. Restrição sem prazo empobrece a alimentação e, se o diagnóstico vier depois, atrapalha a leitura de qual conduta funcionou.

Antes de mexer na dieta, olhe a caixa de remédios

Metformina, antibióticos recentes, inibidores de bomba de prótons, antidepressivos, colchicina, laxantes com magnésio, suplementos com magnésio e vitamina C em dose alta são causas frequentes de fezes amolecidas persistentes. Faça a lista de tudo o que você toma, incluindo suplemento e chá, e leve ao médico na consulta. Já vi caso de meses de investigação resolver com a suspensão de um item que ninguém tinha olhado. A retirada ou a troca de qualquer medicamento é decisão médica, nunca por conta própria.

Como repor líquido do jeito certo?

Água pura sozinha repõe volume mal quando a perda é grande, porque a absorção intestinal de água depende do transporte conjunto de sódio e glicose. Por isso as soluções de reidratação oral têm sódio e uma pequena quantidade de açúcar: essa dupla ativa o cotransporte e puxa água junto. Bebida esportiva comum tem sódio baixo e açúcar alto demais, o que pode até piorar por efeito osmótico.

Na prática, para perdas moderadas, funciona bem alternar água com caldos salgados, sopa coada com sal, água de coco e, quando o médico indicar, soro de reidratação oral de farmácia. Sinais de que a reposição está insuficiente: urina escura e em pouco volume, boca seca, tontura ao levantar, fraqueza e queda de peso rápida. Nesses casos a avaliação é médica e não pode esperar.

Um detalhe prático: beber muito líquido dentro da refeição aumenta o volume gástrico e a urgência em algumas pessoas. Distribuir o líquido entre as refeições, em goles ao longo do dia, costuma render melhor do que dois copos grandes junto do prato.

Fibra ajuda ou piora na diarreia?

Depende inteiramente do tipo. Fibra insolúvel, como farelo de trigo e casca dura de vegetal cru, aumenta resíduo e pode acelerar o trânsito, o que piora. Fibra solúvel viscosa faz o oposto: absorve água, forma gel e melhora a consistência das fezes. Um ensaio randomizado em atenção primária comparou psyllium, farelo e placebo em intestino irritável e mostrou benefício do psyllium sobre sintomas, sem benefício do farelo.

Por isso, na fase de espera, a orientação não é cortar fibra: é trocar o perfil. Aveia cozida, banana, cenoura e abóbora cozidas, batata, psyllium e maçã sem casca entram; farelo, folhas cruas em grande volume e cereais muito fibrosos saem temporariamente. Psyllium começa em meia colher de chá por dia, com água suficiente, e sobe devagar.

Quando o quadro vem com distensão marcada e gás desproporcional, reduzir carboidratos fermentáveis por algumas semanas tem ensaio clínico favorável em intestino irritável e costuma ajudar aqui também, sempre com reintrodução planejada. Se a suspeita passa por alteração da microbiota, o raciocínio alimentar está detalhado em disbiose intestinal e o que comer, e a investigação de supercrescimento bacteriano está no protocolo para SIBO.

Preciso cortar leite e derivados?

Vale testar, mas com método e sem exagero. A má digestão de lactose é comum na população adulta e pode surgir de forma secundária depois de uma agressão intestinal, inclusive depois de uma gastroenterite, e nesse caso costuma ser transitória. Retirar lactose por duas semanas e observar é um teste barato e informativo.

Cortar lactose não é cortar laticínio. Queijos maturados como parmesão, grana e prato têm lactose residual muito baixa, o iogurte tem a lactose parcialmente digerida pelas culturas, e existem versões com lactase adicionada. Como cálcio e proteína fazem falta justamente em quem está perdendo peso, eu prefiro ajustar o tipo de laticínio a eliminar o grupo inteiro. O detalhamento por tipo de queijo está em intolerância à lactose e queijo.

Quando o problema é a gordura da refeição?

Existe um padrão que chama atenção: fezes amareladas, com aspecto oleoso, que boiam, com cheiro muito forte, associadas a refeições gordurosas e acompanhadas de perda de peso. Isso levanta a hipótese de má absorção de gordura, que pode vir de insuficiência pancreática exócrina, de doença celíaca ou de problemas com sais biliares, entre outras causas. Esse conjunto é motivo de investigação médica, não de dieta caseira.

Outro padrão diferente é a diarreia por má absorção de ácidos biliares, comum depois de colecistectomia ou de ressecção do íleo terminal, e também presente em parte dos casos rotulados como intestino irritável com diarreia. Nela, os ácidos biliares que não foram reabsorvidos chegam ao cólon e estimulam secreção de água. O tratamento envolve medicamento sequestrante prescrito por médico, e a alimentação entra ajustando a quantidade de gordura por refeição.

Enquanto isso não estiver esclarecido, a conduta prática é dividir a gordura ao longo do dia em vez de zerar. Gordura tem função na absorção de vitaminas lipossolúveis e na densidade calórica, e quem já está perdendo peso não pode abrir mão dela.

Como não perder peso e nutriente no meio do caminho?

Diarreia crônica combina absorção prejudicada com apetite reduzido, e a pessoa acaba comendo pouco por medo do sintoma. Esse é o risco que eu mais monitoro: perda de peso, perda de massa muscular, e deficiências de ferro, zinco, magnésio, potássio, vitamina B12 e vitaminas lipossolúveis. Pesar uma vez por semana, sempre no mesmo dia e horário, é o indicador mais simples de que a estratégia está funcionando.

Para manter aporte com pouco volume, a saída é densidade: porções menores mais frequentes, proteína em todas as refeições, azeite acrescentado ao prato pronto, purês com ovo, mingau de aveia, batata com frango desfiado. Vitamina de banana com aveia, feita com bebida sem lactose, costuma ser bem tolerada e resolve uma refeição inteira em pouco volume.

Suplementação, quando necessária, vem depois de exame que mostre a deficiência, e não por suposição. Repor ferro sem confirmar, por exemplo, pode piorar o sintoma intestinal sem resolver nada.

Quais sinais pedem médico agora?

Sangue nas fezes, fezes pretas, febre, dor abdominal intensa, perda de peso não intencional, anemia, diarreia que acorda a pessoa à noite, início depois dos cinquenta anos, histórico familiar de doença inflamatória intestinal ou de câncer colorretal, e sinais de desidratação. Qualquer um desses itens tira o caso do campo do ajuste alimentar e coloca a avaliação médica em primeiro lugar.

Deixo claro o meu papel: como nutricionista, eu não fecho diagnóstico e não prescrevo medicamento. Monto a alimentação para reduzir sintoma e proteger o estado nutricional, acompanho peso e exames que o médico solicitar, e ajusto a conduta depois que a causa aparece. Diarreia com mais de quatro semanas sem investigação é o cenário que eu mais insisto em encaminhar.

Perguntas frequentes

A dieta de banana, arroz, maçã e torrada funciona?

Ela é bem tolerada nos primeiros dias, mas é pobre em proteína, gordura e micronutrientes, e não deve ser mantida além de dois ou três dias. Em diarreia crônica, que dura semanas, esse padrão cria desnutrição. O caminho é usar a lógica dela (fibra solúvel, pouca gordura por refeição) dentro de uma alimentação completa.

Probiótico ajuda na diarreia crônica?

A evidência é mais forte para diarreia aguda e para diarreia associada a antibiótico do que para quadros crônicos, e o efeito depende muito da cepa. Em parte das pessoas o probiótico melhora, em outra parte aumenta gases nas primeiras semanas. Se for testar, faça com uma cepa por vez e prazo definido para avaliar.

Posso usar antidiarreico enquanto espero a consulta?

Medicamento é decisão médica, inclusive os de venda livre. Em algumas causas de diarreia, frear o trânsito pode ser prejudicial, e o uso continuado mascara sintomas que o médico precisa avaliar. Se o quadro está limitando sua rotina, isso é motivo para antecipar a consulta, não para se automedicar.

Preciso cortar glúten por precaução?

Não corte antes dos exames. Os testes sorológicos e a biópsia para doença celíaca só são confiáveis com glúten na alimentação, e retirar por conta própria pode gerar resultado falso negativo e anos de dúvida. Mantenha o glúten até que o médico avalie a necessidade de investigar.

Café precisa sair?

Não necessariamente, mas vale um teste de dez dias sem café, principalmente o de estômago vazio. A cafeína aumenta a motilidade colônica em parte das pessoas e é um gatilho fácil de identificar. Se a retirada não mudar nada, o café volta sem problema.

Fezes amolecidas todo dia sempre são diarreia?

Nem sempre. Consistência amolecida com frequência normal, sem urgência, sem perda de peso e sem alteração recente pode ser apenas o padrão daquela pessoa. O que define o alerta é a mudança persistente em relação ao seu próprio padrão anterior, especialmente se durar mais de quatro semanas.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

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