Marcos Hirata

Nutrição Esportiva

Hiponatremia: dá para beber água demais na corrida?

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: dá, sim. Hiponatremia associada ao exercício é a queda do sódio do sangue abaixo de 135 milimóis por litro durante ou logo depois do esforço, e a causa principal é beber líquido além do que o rim consegue eliminar. O risco cresce em provas acima de quatro horas, em corredor mais lento, em quem passa em todos os postos por medo de desidratar e em quem termina a prova pesando mais do que largou. O sinal de alerta prático é ganho de peso durante a corrida somado a dor de cabeça, náusea e confusão. Isso é urgência médica, não assunto de garrafinha.

O que é hiponatremia associada ao exercício?

É a concentração de sódio no sangue abaixo de 135 milimóis por litro, medida durante o exercício prolongado ou nas 24 horas seguintes. A definição vem do documento de consenso internacional coordenado por Hew-Butler, publicado no Clinical Journal of Sport Medicine depois da terceira conferência sobre o tema, em Carlsbad.

Não é um fenômeno raro nem exótico. Almond e colaboradores mediram o sódio de 488 corredores que cruzaram a linha de chegada da Maratona de Boston e publicaram no New England Journal of Medicine: 13 por cento estavam com sódio abaixo de 135, e uma fração pequena, menos de 1 por cento, estava abaixo de 120, faixa em que o quadro fica grave. A maioria dos casos leves nem produz sintoma perceptível.

O que muda a gravidade é a velocidade da queda e o quanto ela desce. Sódio baixo faz a água migrar para dentro das células, inclusive as do cérebro, e é o edema cerebral que produz os sintomas neurológicos. Quem fecha esse diagnóstico é médico, com exame de sangue: nenhum sintoma isolado, nenhum aplicativo e nenhuma balança substituem a dosagem laboratorial.

Por que beber demais derruba o sódio do sangue?

Por diluição. O suor é hipotônico em relação ao plasma, ou seja, você perde proporcionalmente mais água do que sódio. Se, para repor essa perda, você bebe um volume maior do que perdeu, o sódio que restou passa a estar distribuído em mais água. A concentração cai mesmo que a quantidade total de sódio no corpo continue quase a mesma.

Noakes e colaboradores analisaram dados de mais de 2.000 atletas de endurance e publicaram na PNAS a conclusão que orienta a prática até hoje: a sobrecarga de líquido é o mecanismo dominante. Rosner e Kirven, revisando o tema no Clinical Journal of the American Society of Nephrology, acrescentam a segunda peça, a secreção não osmótica de hormônio antidiurético durante o esforço, que reduz a capacidade do rim de eliminar o excesso justamente quando ele seria mais necessário.

Dois fatores aumentam essa armadilha em prova longa. O primeiro é o tempo: quem fica cinco horas na rua tem cinco oportunidades por hora de exagerar. O segundo é a crença. Winger e colaboradores mostraram no British Journal of Sports Medicine que a conduta de beber dos corredores é guiada pelo que eles acreditam sobre hidratação, e a crença mais difundida é a de que qualquer desidratação é perigosa, o que empurra para o excesso.

Quem corre risco de verdade?

O perfil clássico não é o atleta de elite. É o corredor com tempo de prova acima de quatro horas, corpo menor, ritmo baixo o suficiente para ter tempo de beber em todos os postos e ideia fixa de que precisa estar sempre bebendo. Foi esse o padrão encontrado em Boston e repetido em várias séries desde então.

Chlíbková e colaboradores mediram a prevalência em provas de ultramaratona e de mountain bike de 24 horas na República Tcheca, publicando no Journal of the International Society of Sports Nutrition, e encontraram casos em todas as modalidades avaliadas, com predomínio das formas leves e assintomáticas. Ou seja: quanto mais longa a prova, maior a janela para o erro de volume.

Existe também um recorte de contexto brasileiro que eu vejo com frequência. Provas de rua em cidade quente reforçam o discurso de “hidrate-se sempre”, e o corredor iniciante entende isso como beber a cada oportunidade. Em prova de 10 km isso é inofensivo. Em maratona de cinco horas, é exatamente o comportamento que produz o problema.

Quais sinais aparecem na prova?

Os primeiros sinais são inespecíficos e por isso enganam: náusea, dor de cabeça que não passa, sensação de estufamento, anéis e relógio apertando, mãos e pés inchados. Muita gente interpreta esse conjunto como desidratação e bebe mais, o que piora a situação.

À medida que o sódio cai, entram sinais neurológicos: desorientação, fala arrastada, dificuldade de manter a linha reta, vômito repetido e, em quadro grave, convulsão e alteração do nível de consciência. Aqui não existe conduta caseira. É atendimento médico imediato, na tenda da prova ou no pronto-socorro.

Há um sinal objetivo que vale ouro e quase ninguém coleta: o peso. Quem termina uma prova longa pesando mais do que largou bebeu além da conta, e esse é o marcador mais direto de sobrecarga de líquido. Perda de 1 a 2 por cento do peso corporal ao fim de uma prova longa é esperada e não é problema.

AspectoExcesso de líquidoDesidratação relevante
Peso ao fim da provaIgual ou maior que na largadaQueda acima de 2 a 3 por cento
SedeAusente, às vezes aversão a beberPresente e crescente
UrinaClara e frequente, ou ausente com inchaçoEscura e escassa
Anéis e relógioApertando, dedos inchadosFolgados, pele sem turgor
Sintoma dominanteNáusea, cefaleia, confusãoBoca seca, tontura ao parar, fadiga
Conduta imediataParar de beber e procurar atendimentoBeber conforme a sede, reduzir ritmo

Como diferenciar de desidratação?

Na prática de campo, a confusão entre os dois quadros é o maior perigo, porque a conduta é oposta. A tabela acima resume o essencial, e o item que mais separa é a sede: no excesso de líquido ela some ou vira até repulsa pela garrafinha, enquanto na desidratação ela cresce.

O segundo separador é o inchaço. Dedo que incha a ponto de o anel marcar, pé que aperta dentro do tênis que sempre serviu, rosto inchado na foto da chegada: isso não é sinal de falta de água. Quem está desidratado não incha.

Se você estiver em dúvida numa prova, a decisão mais segura é parar de beber, procurar a equipe médica e relatar o que sentiu e quanto bebeu. Beber mais “por precaução” na dúvida é a única escolha que pode piorar os dois cenários ao mesmo tempo, porque atrasa o atendimento certo.

O número que eu peço a todo maratonista

Peça a alguém para pesá-lo em casa antes de sair para o treino longo e logo na volta, sem roupa, na mesma balança. Anote o quanto bebeu. Três treinos longos bastam para você saber a sua taxa de suor e descobrir se está bebendo a mais ou a menos. É o dado mais barato e mais útil da nutrição esportiva, e quase ninguém coleta.

Quanto beber para não errar para nenhum lado?

A orientação que saiu do consenso internacional é beber conforme a sede em vez de seguir um cronograma fixo de goles. A sede é um sensor razoavelmente bom em esforço prolongado e evita tanto a desidratação importante quanto o excesso que produz a diluição.

Para quem quer um intervalo de referência, a faixa que costuma se ajustar bem para corredores adultos em prova longa fica entre 400 e 800 mililitros por hora, com o alto da faixa reservado a calor forte e a quem tem taxa de suor comprovadamente elevada. O posicionamento do American College of Sports Medicine sobre exercício e reposição hídrica sustenta o mesmo princípio: personalizar a partir da perda medida, com o objetivo de limitar a queda de peso a menos de 2 por cento e nunca ganhar peso durante o esforço.

Um erro comum é acertar o líquido e esquecer o resto. Em prova longa, a decisão de líquido anda junto com a de carboidrato, e boa parte do volume acaba entrando como bebida esportiva ou junto com gel. Se você usa gel, a água que vai com ele já entra na conta da hora, ponto que eu detalho em como tomar gel de carboidrato.

Tomar sal na prova protege?

Ajuda, mas não é escudo. Hoffman e Stuempfle testaram suplementação de sódio contra placebo numa ultramaratona de 161 quilômetros, publicando na Medicine and Science in Sports and Exercise, e não encontraram proteção clara contra a queda do sódio sanguíneo. Quem bebe muito além do que perde derruba o sódio de qualquer jeito, com ou sem cápsula.

Isso não torna o sódio inútil. Em prova longa e quente, a bebida com sódio reduz a queda, ajuda na retenção do líquido ingerido e melhora a palatabilidade, o que sustenta o consumo ao longo das horas. A escolha entre água, água de coco e isotônico depende justamente da duração e do calor, tema que eu comparo em água ou isotônico no treino.

A ordem certa das prioridades é esta: primeiro o volume de líquido, depois a fonte de sódio. Invertê-la é o que faz o corredor tomar seis cápsulas de sal e continuar bebendo dois litros por hora, combinação que não resolve o problema e ainda castiga o estômago.

Como montar um plano de líquido que funciona?

Comece medindo. Pesagem antes e depois de dois ou três treinos longos, com registro do que bebeu, dá a taxa de suor pessoal em condições reais. Um quilo perdido corresponde a aproximadamente um litro de suor. Com esse número, o plano deixa de ser palpite.

Depois, ensaie o plano no treino longo, no mesmo horário e clima previstos. O corpo se adapta a receber volume durante o esforço, e a tolerância melhora com repetição. Chegar ao dia da prova com um plano nunca testado é o caminho mais curto para enjoo, parada em banheiro ou improviso nos postos. Montar esse cálculo com o corredor, a partir dos números dele, é parte do que eu faço no acompanhamento de nutrição esportiva.

Por último, ajuste o dia anterior em vez de tentar compensar tudo durante. Chegar à largada bem hidratado e com o glicogênio reposto reduz a pressão sobre a estratégia do percurso, e isso se resolve na véspera, assunto que eu trato em o que comer na véspera da prova. Se você usa medicação de uso contínuo, sobretudo diurético, anti-inflamatório ou antidepressivo, converse com o médico antes da prova longa: algumas classes interferem no equilíbrio de água e sódio e essa avaliação é dele, não minha.

Perguntas frequentes

Hiponatremia acontece em prova de 10 km?

É muito improvável. O tempo de exposição é curto demais para acumular excesso de líquido, e a maioria das pessoas nem bebe volume relevante nesse período. Os casos descritos concentram-se em esforços acima de quatro horas.

Beber isotônico em vez de água elimina o risco?

Reduz, mas não elimina. A concentração de sódio das bebidas esportivas comuns é bem menor que a do plasma, então volume muito grande ainda dilui. O fator determinante continua sendo quanto você bebe em relação ao que perde.

Ganhar peso na prova é sempre sinal de problema?

É sempre sinal de que o volume ingerido superou a perda, e esse é o mecanismo do quadro. Nem todo mundo que ganha peso desenvolve sintoma, mas o marcador merece atenção e conversa com a equipe médica se houver dor de cabeça, náusea ou inchaço.

Dá para tratar tomando bebida bem salgada?

Não como conduta caseira em quadro sintomático. Correção de sódio em quem está com sintoma neurológico é procedimento médico, feito com monitorização, porque corrigir rápido demais também causa dano. Se houver suspeita, o caminho é o atendimento, não o improviso.

Quem sua muito está protegido?

Não necessariamente. Suar muito aumenta a perda de água e de sódio, mas o quadro depende do balanço: se a ingestão superar a perda, o sódio cai do mesmo jeito. Suador intenso que bebe além da conta também aparece nas séries publicadas.

Preciso fazer exame de sódio antes da maratona?

Não é rotina para corredor saudável. A indicação de exames antes de prova longa é decisão do médico que acompanha você, e faz mais sentido em quem tem doença renal, cardíaca, uso de diurético ou episódio prévio de sódio baixo. O que todo corredor deveria fazer é medir a própria taxa de suor no treino.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Hew-Butler T, Rosner MH, Fowkes-Godek S, et al. Statement of the Third International Exercise-Associated Hyponatremia Consensus Development Conference, Carlsbad, California, 2015. Clinical Journal of Sport Medicine. 2015;25(4):303-320. DOI: 10.1097/JSM.0000000000000221
  2. Almond CSD, Shin AY, Fortescue EB, et al. Hyponatremia among Runners in the Boston Marathon. New England Journal of Medicine. 2005;352(15):1550-1556. DOI: 10.1056/NEJMoa043901
  3. Noakes TD, Sharwood K, Speedy D, et al. Three independent biological mechanisms cause exercise-associated hyponatremia: Evidence from 2,135 weighed competitive athletic performances. Proceedings of the National Academy of Sciences. 2005;102(51):18550-18555. DOI: 10.1073/pnas.0509096102
  4. Rosner MH, Kirven J. Exercise-Associated Hyponatremia. Clinical Journal of the American Society of Nephrology. 2007;2(1):151-161. DOI: 10.2215/CJN.02730806
  5. Hew-Butler T, Loi V, Pani A, Rosner MH. Exercise-Associated Hyponatremia: 2017 Update. Frontiers in Medicine. 2017;4:21. DOI: 10.3389/fmed.2017.00021
  6. Winger JM, Dugas JP, Dugas LR. Beliefs about hydration and physiology drive drinking behaviours in runners. British Journal of Sports Medicine. 2011;45(8):646-649. DOI: 10.1136/bjsm.2010.075275
  7. Chlíbková D, Knechtle B, Rosemann T, Tomášková I, Novotný J, Žákovská A. The prevalence of exercise-associated hyponatremia in 24-hour ultra-mountain bikers, 24-hour ultra-runners and multi-stage ultra-mountain bikers in the Czech Republic. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2014;11(1):3. DOI: 10.1186/1550-2783-11-3
  8. Hoffman MD, Stuempfle KJ. Sodium Supplementation and Exercise-Associated Hyponatremia during Prolonged Exercise. Medicine and Science in Sports and Exercise. 2015;47(9):1781-1787. DOI: 10.1249/MSS.0000000000000599
  9. Sawka MN, Burke LM, Eichner ER, Maughan RJ, Montain SJ, Stachenfeld NS. Exercise and Fluid Replacement. Medicine and Science in Sports and Exercise. 2007;39(2):377-390. DOI: 10.1249/mss.0b013e31802ca597

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