Marcos Hirata

Nutrição Esportiva

Trail run: o que levar para comer na trilha

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: no trail você é o seu próprio posto de abastecimento, então a conta muda: leve entre 30 e 60 gramas de carboidrato por hora prevista, com pelo menos um terço em comida sólida e salgada, e água para o trecho entre um ponto de apoio e outro, não para a prova inteira. Como o ritmo é irregular e a subida em caminhada abre janelas de mastigação, o trail permite comida de verdade, coisa que o asfalto rápido não permite. O que mais tira gente de prova de trilha não é falta de perna: é enjoo e problema gástrico por comer demais de uma vez ou de menos por horas.

O que muda no trail em relação ao asfalto?

Três coisas mudam a lógica inteira. A primeira é a autonomia: numa corrida de rua há água a cada dois ou três quilômetros e você carrega quase nada; numa trilha, o próximo apoio pode estar a duas horas de distância e tudo o que você vai consumir está nas suas costas.

A segunda é o ritmo. O trail alterna trechos de corrida com trechos de caminhada forte em subida, e essa variação abre oportunidades reais de comer. Em subida caminhando, o estômago recebe comida sólida sem o balanço da passada, e é ali que se resolve boa parte da alimentação do dia.

A terceira é o gasto por quilômetro. Altimetria muda tudo: 10 quilômetros com 800 metros de ganho custam muito mais tempo e energia do que 10 quilômetros planos. Por isso o planejamento de trail se faz por hora de prova, não por distância, e a primeira coisa que eu peço ao corredor é a estimativa realista de tempo por trecho, não o número de quilômetros.

Quanto carboidrato levar por hora?

O posicionamento da International Society of Sports Nutrition sobre ultramaratona de etapa única, assinado por Tiller e colaboradores, trabalha com uma faixa em torno de 150 a 400 quilocalorias por hora vindas principalmente de carboidrato, o que equivale grosso modo a 30 a 60 gramas por hora para a maioria dos corredores. Quem tem prova mais curta e mais intensa fica no topo dessa faixa; quem tem prova de 15 horas em ritmo baixo fica mais perto do meio.

Existe um teto móvel, que é a tolerância do seu intestino. Viribay e colaboradores testaram uma ingestão alta, de 120 gramas por hora, numa maratona de montanha e publicaram na Nutrients: os corredores que consumiram essa quantidade apresentaram marcadores de dano muscular menores ao final. É um estudo pequeno e com atletas experientes, e o recado prático não é copiar o número, e sim entender que a tolerância se constrói com treino.

Jeukendrup organizou em Sports Medicine as evidências sobre treinar o trato gastrointestinal: exposição repetida a volumes e concentrações crescentes de carboidrato durante o treino aumenta o esvaziamento gástrico, a absorção e o conforto. Isso significa que o número que você vai usar na prova é o número que você já praticou nos longos, não o que leu num artigo.

O que colocar na mochila?

A regra que eu uso com quem atendo é a da variedade planejada: nunca depender de uma única textura ou de um único sabor. Quatro categorias resolvem quase todos os cenários, e a proporção entre elas muda conforme a duração da prova.

Géis e balas mastigáveis funcionam nos trechos corridos e nas primeiras horas. Sólido doce, como barra e pão de banana, cai bem na primeira metade. Salgado, como batata cozida com sal e sanduíche pequeno de queijo, ganha importância a partir da terceira hora. Líquido com carboidrato completa a soma.

OpçãoCarboidrato aproximadoQuando funciona melhorPonto de atenção
Gel de carboidrato20 a 30 g por sachêTrecho corrido, precisa de rapidezExige água junto, enjoa com repetição
Bala mastigável esportiva4 a 6 g por unidadeDose fracionada em subidaMastigar em descida técnica é difícil
Barra de cereal densa25 a 35 g por barraPrimeiras horas, caminhadaRessecada, pede líquido
Batata cozida com sal15 a 20 g por unidade médiaDepois da terceira horaPrecisa de embalagem que não amasse
Sanduíche pequeno salgado25 a 35 gPonto de apoio, pausa curtaGordura alta atrasa o esvaziamento
Bebida com carboidrato30 a 40 g por 500 mLSomar energia e líquido juntosPesa na mochila
Caldo salgado no apoioPouco carboidratoProva fria, reidrataçãoSó existe se a organização oferecer

Nada novo no dia da prova

Essa frase é batida e continua sendo a mais violada. Toda comida da mochila precisa ter passado por pelo menos dois treinos longos, na mesma temperatura e na mesma altura da prova em que você pretende usá-la. Gel que desce fácil na primeira hora pode ser intragável na sétima, e você só descobre isso treinando. O buffet do ponto de apoio é bonito, mas comer algo desconhecido no quilômetro 40 é aposta cara.

Por que salgado funciona melhor depois de três horas?

Por dois motivos que se somam. O primeiro é a saciedade sensorial específica: depois de horas ingerindo apenas doce, o paladar rejeita mais doce, e a rejeição é forte o bastante para fazer o corredor simplesmente parar de comer. Foi assim com quase todo mundo que chega ao consultório depois de uma ultra ruim.

O segundo é o sódio. Em prova longa e quente, a perda pelo suor se acumula, e a comida salgada entrega sódio junto com carboidrato, sem depender de cápsula. A faixa que a literatura de ultra costuma citar para bebidas é de mais ou menos 500 a 700 miligramas de sódio por litro de líquido ingerido, e comida salgada ajuda a chegar lá.

Na prática, o que funciona é planejar a virada. Da largada até a terceira hora, predomínio de doce e de gel; a partir daí, entra o salgado em pelo menos metade das tomadas. Corredor que leva só gel para uma prova de oito horas quase sempre volta com metade dos géis intactos, e não por falta de fome.

Como resolver a água numa trilha sem posto?

O cálculo é por trecho, não pela prova inteira. Pegue o tempo estimado entre um ponto de apoio e o seguinte, multiplique pela sua taxa de suor estimada e some uma margem de segurança de 20 a 30 por cento para o caso de o trecho demorar mais que o previsto, o que é a norma em trilha.

Para a maioria dos corredores adultos, a faixa de 400 a 800 mililitros por hora cobre o cenário, com o topo reservado a calor forte. Costa, Hoffman e Stellingwerff, revisando hidratação em atividades de ultraendurance na Research in Sports Medicine, reforçam o princípio de beber conforme a sede como referência principal, com ajuste por peso corporal medido antes e depois dos treinos longos.

Duas decisões práticas costumam pesar mais que o número. A primeira é o sistema: garrafas de mão dão controle visual do que sobrou e cantil de sucção incentiva goles frequentes. A segunda é o plano B: saber onde há água tratada, se a organização permite reabastecer em curso d’água com pastilha de purificação, e o que fazer se você errar o trecho. Ficar sem água por uma hora numa subida exposta é uma situação de segurança, não de rendimento.

Como evitar enjoo em subida e descida?

Problema gastrointestinal é a principal causa de desistência em provas longas, e Hoffman e Fogard documentaram isso ao analisar os fatores associados à conclusão de uma ultra de 161 quilômetros, publicando no International Journal of Sports Physiology and Performance. Náusea e vômito superam a dor muscular como motivo de abandono.

O mecanismo está bem descrito. Costa e colaboradores revisaram na Alimentary Pharmacology and Therapeutics o que chamaram de síndrome gastrointestinal induzida pelo exercício: durante o esforço prolongado, o fluxo sanguíneo é desviado do intestino para músculo e pele, o que reduz a absorção, atrasa o esvaziamento gástrico e aumenta a permeabilidade intestinal. Calor e desidratação pioram o quadro.

As três medidas que mais ajudam são simples. Fracionar em porções pequenas a cada 20 ou 30 minutos, em vez de comer muito de uma vez no apoio. Preferir a subida caminhada para comer sólido, e a descida para só beber. E manter a concentração de carboidrato razoável na garrafa, porque bebida muito doce atrasa o esvaziamento e é uma das causas mais comuns de peso no estômago. Se o enjoo já se instalou, reduzir o ritmo por dez a quinze minutos costuma devolver fluxo ao intestino e permitir retomar a alimentação.

E quando tem frio, calor extremo ou altitude?

No frio, a sede diminui e a comida endurece: você desidrata sem perceber e a barra congelada vira um tijolo. As correções são práticas: líquido morno em garrafa térmica, comida guardada em bolso próximo ao corpo e caldo salgado no apoio.

No calor, a prioridade inverte: líquido e sódio passam à frente do carboidrato sólido, porque a tolerância a comida cai. Vale reduzir a porção, aumentar a frequência e apoiar-se mais em bebida com carboidrato do que em barra. Comer menos por tomada e mais vezes é quase sempre a saída.

Em altitude acima de 2.500 metros, o apetite cai de forma consistente e a desidratação aumenta pela ventilação maior e pelo ar seco. A necessidade de carboidrato tende a subir, e a vontade de comer cai: essa combinação exige alimentação por relógio, não por fome. Se você tem alguma condição de saúde e vai encarar altitude, essa avaliação é médica antes de ser nutricional.

Como montar o plano por trecho?

Pegue o mapa de altimetria e o quadro de pontos de apoio da prova e divida o percurso em blocos entre apoios. Para cada bloco, estime tempo, defina carboidrato total, líquido total e o que exatamente vai na mochila. Escreva isso num papel e cole na garrafa, ou grave um alerta no relógio a cada 25 minutos.

Some as necessidades de cada bloco e você terá a lista de compras da prova, mais o que fica no drop bag, se houver. Sobrar comida é aceitável; faltar, não. Costa e colaboradores, tratando das considerações nutricionais para ultraendurance, insistem em planejar por hora e por trecho justamente porque a improvisação é o que mais falha nesse tipo de prova. A lógica geral de abastecimento em esforços muito longos eu detalho em alimentação na ultramaratona.

Se a sua prova tem apoio de equipe ou se você faz travessia com bicicleta e corrida no mesmo fim de semana, a logística fica parecida com a de outras modalidades de longa duração, e vale olhar como o problema é resolvido em alimentação no ciclismo de longa distância, onde carregar peso e planejar por trecho são o núcleo da questão. Montar esse plano com números seus, testados nos treinos longos e ajustados por prova, é exatamente o trabalho que eu faço no acompanhamento de nutrição esportiva.

Perguntas frequentes

Dá para fazer trail comendo só comida de verdade, sem gel?

Dá, e muita gente prefere, principalmente em provas longas de ritmo baixo. O cuidado é o peso e o volume: comida de verdade rende menos carboidrato por grama carregado. A combinação mais prática costuma misturar sólidos nas subidas e algo líquido ou em gel nos trechos corridos.

Quanto peso de comida devo carregar?

Depende do tempo entre apoios, não da distância total. Calcule o carboidrato por hora do trecho, converta em itens e some uma margem de um item extra por bloco. Para blocos de duas a três horas, isso costuma ficar entre 200 e 400 gramas de comida por bloco.

Café da manhã antes de uma prova de trilha deve ser diferente?

A lógica é a mesma da prova de rua: refeição rica em carboidrato, pobre em gordura e fibra, de 2 a 3 horas antes, com alimentos que você já testou. A diferença é que largadas de trail costumam ser muito cedo, o que às vezes exige antecipar a refeição e complementar com algo leve trinta minutos antes.

Cafeína ajuda em trilha longa?

A cafeína tem boa sustentação como recurso ergogênico em endurance e ajuda na percepção de esforço e no estado de alerta, o que conta em prova noturna. A faixa estudada costuma ficar entre 3 e 6 miligramas por quilo. O ponto de atenção é a tolerância individual, o efeito no sono e no estômago, e o cuidado de testar antes.

O que fazer quando o estômago fecha e nada desce?

Reduza o ritmo por dez a quinze minutos, troque sólido por líquido em goles pequenos e prefira algo salgado e frio, que costuma ser mais tolerado que doce. Se houver vômito repetido, tontura, confusão ou incapacidade de ingerir qualquer líquido, o caminho é a equipe médica da prova, não insistir.

Preciso comer nos primeiros trinta minutos?

Não obrigatoriamente, mas começar cedo funciona melhor do que esperar sentir necessidade. A absorção fica mais difícil conforme a prova avança, então acumular energia enquanto o intestino ainda está confortável cria margem para os trechos finais, quando comer fica mais difícil.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Tiller NB, Roberts JD, Beasley L, et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: nutritional considerations for single-stage ultra-marathon training and racing. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2019;16(1):50. DOI: 10.1186/s12970-019-0312-9
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  5. Viribay A, Arribalzaga S, Mielgo-Ayuso J, Castañeda-Babarro A, Seco-Calvo J, Urdampilleta A. Effects of 120 g/h of Carbohydrates Intake during a Mountain Marathon on Exercise-Induced Muscle Damage in Elite Runners. Nutrients. 2020;12(5):1367. DOI: 10.3390/nu12051367
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  8. Nikolaidis PT, Veniamakis E, Rosemann T, Knechtle B. Nutrition in Ultra-Endurance: State of the Art. Nutrients. 2018;10(12):1995. DOI: 10.3390/nu10121995
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