Marcos Hirata

Nutrição Esportiva

Tribulus terrestris aumenta a testosterona mesmo?

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: não. Nos estudos com homens saudáveis, o tribulus terrestris não aumentou testosterona total nem livre, não melhorou força e não mudou composição corporal em comparação com placebo. A origem da fama vem de pesquisa em animais e de material promocional antigo, não de ensaios clínicos bem conduzidos. Existe alguma sinalização em função sexual, provavelmente por via independente do hormônio, e ela é modesta. Se a sua suspeita é de testosterona baixa, o caminho é dosar e investigar com médico, não comprar uma cápsula de planta.

O que é o tribulus terrestris e o que prometem dele?

Tribulus terrestris é uma planta rasteira, conhecida no Brasil como abrolho ou espinho-de-carneiro, usada há muito tempo na medicina tradicional da Índia, da China e do leste europeu. O extrato vendido em cápsula é feito a partir das partes aéreas ou dos frutos, padronizado por um grupo de compostos chamados saponinas esteroidais.

A promessa comercial se organiza em três frentes: aumentar testosterona, melhorar libido e favorecer ganho de massa muscular. As três aparecem juntas na embalagem porque, no imaginário do consumidor, uma leva à outra. O problema é que cada uma dessas afirmações precisa ser testada separadamente, e as três têm níveis de evidência bem diferentes.

A palavra “esteroidal” no nome dos compostos ajudou a construir a confusão. Saponina esteroidal significa apenas que a molécula tem um núcleo químico parecido com o dos esteroides. Isso não implica que ela se transforme em testosterona no corpo humano, nem que estimule sua produção. Núcleo químico semelhante e função hormonal são coisas distintas.

O tribulus aumenta a testosterona? O que os estudos mostram

O ensaio mais citado sobre isso é o de Neychev e Mitev, publicado no Journal of Ethnopharmacology em 2005, feito com homens jovens saudáveis. Os pesquisadores testaram doses diárias diferentes de extrato de tribulus por quatro semanas e mediram testosterona total, testosterona livre, LH, FSH e androstenediona. Nenhum dos parâmetros mudou de forma significativa em relação ao placebo. O título do artigo é literalmente uma negação: a erva afrodisíaca tribulus terrestris não influencia a produção de androgênios em homens jovens.

Os mesmos autores voltaram ao tema em 2016, também no Journal of Ethnopharmacology, com uma revisão que separa o que veio de estudo com animal do que veio de estudo com gente. A conclusão é dura: o efeito androgênico observado em roedores e em primatas não se reproduz em homens saudáveis, e boa parte da reputação do produto foi construída sobre extrapolação de espécie.

Qureshi e colaboradores, no Journal of Dietary Supplements em 2014, fizeram uma revisão sistemática sobre o extrato e chegaram ao mesmo lugar: os dados humanos não sustentam o efeito ergogênico nem o aumento de testosterona, e a qualidade metodológica dos estudos favoráveis é baixa. Quando o desenho melhora, o efeito desaparece.

Por que o rótulo fala em saponinas e protodioscina?

Protodioscina é a saponina esteroidal considerada o marcador ativo do tribulus, e o rótulo costuma anunciar a padronização, algo como 40 ou 60 por cento de saponinas. A hipótese de mecanismo é que ela seria convertida em dehidroepiandrosterona e assim alimentaria a via androgênica. Essa conversão foi sugerida em modelos animais e nunca demonstrada de forma convincente em humanos.

Existe ainda um problema anterior ao mecanismo: variabilidade do produto. O teor de protodioscina muda com a região de cultivo, a parte da planta usada e o método de extração. Pokrywka e colaboradores, no Journal of Human Kinetics em 2014, discutem essa heterogeneidade e mostram que produtos vendidos como equivalentes podem ter composição muito diferente. Isso torna difícil até comparar estudos entre si.

O que o rótulo prometeO que a evidência em humanos mostra
Aumenta testosterona total e livreSem diferença contra placebo em homens saudáveis
Aumenta LH e FSHSem alteração significativa nos ensaios controlados
Aumenta massa muscularSem diferença contra placebo em treinados e em atletas
Aumenta forçaSem diferença em cinco semanas de treino supervisionado
Melhora libido e função erétilSinal modesto em alguns ensaios, sem mudança hormonal
É natural, logo é seguroHá relatos de caso de lesão renal e hepática

Tribulus melhora força, massa muscular ou desempenho?

Dois ensaios respondem isso com clareza. Antonio e colaboradores, no International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism em 2000, deram tribulus ou placebo a homens treinados em força por oito semanas e não encontraram diferença em composição corporal nem em desempenho.

Rogerson e colaboradores, no Journal of Strength and Conditioning Research em 2007, testaram cinco semanas de suplementação em jogadores de elite de rugby league durante a pré-temporada, com treino supervisionado e medidas de força e composição corporal. Os dois grupos melhoraram, porque estavam treinando, e não houve diferença entre eles. O treino explicou o resultado, o suplemento não acrescentou nada.

Esse é o padrão que se repete em suplementos de apelo hormonal: quando o estudo tem placebo, controle de dieta e treino padronizado, o efeito extra desaparece. Quem está decidindo como organizar fases de ganho e de redução de gordura tira muito mais proveito de entender como funcionam bulking e cutting do que de procurar um atalho em cápsula.

Testosterona baixa é diagnóstico médico

Cansaço, queda de libido, dificuldade de ganhar massa e humor ruim têm dezenas de causas possíveis: sono insuficiente, déficit energético crônico, depressão, tireoide, anemia, apneia do sono, uso de medicações. Nenhum suplemento resolve isso e nenhum nutricionista fecha esse diagnóstico. Quem dosa, interpreta o exame no contexto clínico e, se for o caso, prescreve tratamento é o médico. O meu papel é a alimentação e o comportamento em volta dela.

E a parte de libido e função sexual?

Aqui a literatura é menos negativa, e isso merece honestidade. Kamenov e colaboradores, publicado em Maturitas em 2017, conduziram um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo em homens com disfunção sexual e encontraram melhora em escores de função erétil e desejo no grupo que recebeu tribulus.

Santos e colaboradores, em Actas Urológicas Españolas em 2014, testaram tribulus contra placebo em homens com disfunção erétil e encontraram resultado bem mais discreto, sem diferença clara em desfecho primário. Os dois estudos usaram doses e extratos diferentes, o que se conecta com o problema de padronização já discutido.

Repare no detalhe que importa: mesmo nos ensaios em que algum efeito sexual aparece, a testosterona não sobe. Se existe algo acontecendo, é por outra via, possivelmente relacionada a óxido nítrico e a musculatura lisa. Isso desmonta a lógica do marketing, que vende o produto justamente como elevador de testosterona.

Tribulus tem risco? Fígado, rim e antidoping

Existe relato de caso de nefrotoxicidade grave em homem jovem e saudável após consumo de tribulus, publicado em Nephrology Dialysis Transplantation em 2010 por Talasaz e colaboradores. Relato de caso não estabelece frequência nem prova causalidade, mas basta para derrubar o argumento de que produto de planta é automaticamente inofensivo. Também há descrições na literatura de hepatotoxicidade associada a produtos contendo o extrato.

Há um segundo risco, menos comentado e mais concreto para quem compete. Suplementos de apelo hormonal são a categoria com maior taxa de contaminação por substâncias proibidas. Análises independentes de produtos comerciais dessa categoria já encontraram esteroides anabolizantes, pró-hormônios e estimulantes que não constavam no rótulo. Para atleta federado, isso é suspensão, e a responsabilidade recai sobre ele.

Por fim, existe o custo de oportunidade. Dinheiro gasto num produto sem efeito é dinheiro que não foi para comida, para consulta ou para um suplemento com evidência. E vale desconfiar do mesmo jeito dos boatos que circulam no sentido oposto, como os medos infundados que eu destrincho em creatina faz mal para o rim: tanto a promessa exagerada quanto o pânico costumam nascer do mesmo lugar, a ausência de leitura do estudo original.

O que fazer quando a suspeita de testosterona baixa é real?

O primeiro passo é procurar o médico e dosar corretamente. A coleta de testosterona total tem regra: pela manhã, em jejum ou não conforme a orientação do laboratório, e idealmente confirmada em duas dosagens em dias diferentes, porque o valor oscila. Um exame isolado com resultado no limite não fecha nada.

O segundo passo é olhar as causas reversíveis antes de qualquer coisa. Excesso de gordura corporal, sono curto ou fragmentado, apneia obstrutiva do sono, uso crônico de álcool, déficit energético prolongado em quem treina muito e come pouco: todos esses fatores se associam a testosterona mais baixa e todos respondem a mudança de rotina.

É nesse ponto que o trabalho nutricional entra de verdade, e ele é bem mais efetivo que qualquer cápsula. Reduzir gordura visceral, ajustar a energia da dieta ao treino, corrigir deficiências como a de vitamina D e organizar o sono são intervenções com lógica fisiológica e retorno real. Reuni o que trabalho nesse território no conteúdo sobre saúde hormonal.

O que na alimentação de fato influencia a testosterona?

Três pontos aparecem com regularidade. O primeiro é a energia total: dietas muito restritivas por períodos longos reduzem hormônios sexuais, num quadro descrito na literatura esportiva como baixa disponibilidade energética. Comer pouco demais para o volume de treino derruba testosterona, e nenhum suplemento compensa isso.

O segundo é a gordura da dieta. Dietas com gordura muito baixa, abaixo de cerca de 20 por cento das calorias, se associam a testosterona menor em homens. O colesterol é o precursor da via esteroidogênica, e cortar gordura ao extremo tem custo.

O terceiro é o estado de micronutrientes, com destaque para zinco e vitamina D. Corrigir uma deficiência real pode ajudar; suplementar quem já tem status adequado não eleva testosterona acima do normal. Essa distinção entre corrigir falta e tentar turbinar excesso resume, no fundo, toda a discussão sobre boosters hormonais.

Perguntas frequentes

Tribulus aparece no exame antidoping?

O tribulus em si não é substância proibida. O risco está na contaminação do produto com esteroides ou pró-hormônios não declarados no rótulo, que já foi documentada em análises de suplementos de apelo hormonal. Atleta sob controle antidoping deve preferir produtos com certificação de terceira parte, ou simplesmente evitar essa categoria.

Mulher pode tomar tribulus?

Os estudos em mulheres são poucos e de baixa qualidade, e há produtos vendidos com foco em libido feminina. Sem dados de segurança consistentes, especialmente em uso prolongado, eu não indico. Gestantes e lactantes devem evitar. Queda de libido tem causas variadas e merece avaliação médica antes de qualquer cápsula.

Se não funciona, por que tanta gente diz que sentiu diferença?

Porque quem compra um booster hormonal costuma mudar outras coisas ao mesmo tempo: treina mais sério, come melhor, dorme mais, se anima com o projeto novo. Some a isso o efeito placebo, que é real e mensurável em desfechos subjetivos como disposição e libido. O ensaio com placebo existe justamente para separar uma coisa da outra.

Tribulus ajuda quem já tem testosterona baixa diagnosticada?

Não há evidência que sustente esse uso, e o quadro precisa de investigação da causa. Hipogonadismo tem origens distintas, e o tratamento é decisão médica. Trocar o acompanhamento por um suplemento atrasa o cuidado e pode mascarar um problema que precisa ser esclarecido.

Quanto tempo eu precisaria tomar para ver efeito?

Os ensaios negativos usaram de quatro a oito semanas, tempo suficiente para detectar mudança hormonal se ela existisse. Não é questão de tomar por mais tempo. Quando um estudo com dose adequada e duração adequada não encontra efeito, prolongar o uso não muda o desfecho, só o gasto.

Existe algum suplemento que aumente testosterona de verdade?

Corrigir deficiência de vitamina D ou de zinco em quem tem falta documentada pode normalizar valores. Fora disso, nenhum suplemento de venda livre demonstrou elevar testosterona de forma consistente em homens saudáveis. O que move o ponteiro é reduzir excesso de gordura corporal, dormir bem, tratar apneia se houver e não viver em déficit energético.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Neychev VK, Mitev VI. The aphrodisiac herb Tribulus terrestris does not influence the androgen production in young men. Journal of Ethnopharmacology. 2005;101(1-3):319-323. DOI: 10.1016/j.jep.2005.05.017
  2. Neychev V, Mitev V. Pro-sexual and androgen enhancing effects of Tribulus terrestris L.: fact or fiction. Journal of Ethnopharmacology. 2016;179:345-355. DOI: 10.1016/j.jep.2015.12.055
  3. Qureshi A, Naughton DP, Petroczi A. A systematic review on the herbal extract Tribulus terrestris and the roots of its putative aphrodisiac and performance enhancing effect. Journal of Dietary Supplements. 2014;11(1):64-79. DOI: 10.3109/19390211.2014.887602
  4. Antonio J, Uelmen J, Rodriguez R, Earnest C. The effects of Tribulus terrestris on body composition and exercise performance in resistance-trained males. International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism. 2000;10(2):208-215. DOI: 10.1123/ijsnem.10.2.208
  5. Rogerson S, Riches CJ, Jennings C, Weatherby RP, Meir RA, Marshall-Gradisnik SM. The effect of five weeks of Tribulus terrestris supplementation on muscle strength and body composition during preseason training in elite rugby league players. Journal of Strength and Conditioning Research. 2007;21(2):348-353. DOI: 10.1519/R-18395.1
  6. Kamenov Z, Fileva S, Kalinov K, Jannini EA. Evaluation of the efficacy and safety of Tribulus terrestris in male sexual dysfunction: a prospective, randomized, double-blind, placebo-controlled clinical trial. Maturitas. 2017;99:20-26. DOI: 10.1016/j.maturitas.2017.01.011
  7. Santos CA Jr, Reis LO, Destro-Saade R, Luiza-Reis A, Fregonesi A. Tribulus terrestris versus placebo in the treatment of erectile dysfunction: a prospective, randomized, double-blind study. Actas Urológicas Españolas. 2014;38(4):244-248. DOI: 10.1016/j.acuro.2013.09.014
  8. Pokrywka A, Obmiński Z, Malczewska-Lenczowska J, Fijałek Z, Turek-Lepa E, Grucza R. Insights into supplements with Tribulus terrestris used by athletes. Journal of Human Kinetics. 2014;41:99-105. DOI: 10.2478/hukin-2014-0037
  9. Talasaz AH, Abbasi MR, Abkhiz S, Dashti-Khavidaki S. Tribulus terrestris-induced severe nephrotoxicity in a young healthy male. Nephrology Dialysis Transplantation. 2010;25(11):3792-3793. DOI: 10.1093/ndt/gfq457

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