
Saúde Cardiometabólica
Ácido úrico alto: quais alimentos realmente aumentam
Resposta rápida: os alimentos que mais elevam o ácido úrico são carnes vermelhas, vísceras, frutos do mar, cerveja e destilados, e tudo que carrega frutose em excesso (refrigerante, suco adoçado, xarope de milho). Vegetais ricos em purina, como espinafre, ervilha e cogumelo, não se comportam do mesmo jeito nos estudos e não precisam ser cortados. Leite, iogurte, café e água jogam a favor. E há um limite honesto: a dieta explica uma fatia pequena do valor do exame, porque genética e função renal pesam mais. Quem investiga a causa e decide sobre medicação é o médico.
Neste artigo
- O que é ácido úrico alto e quando isso vira problema?
- Quais alimentos realmente aumentam o ácido úrico?
- Por que refrigerante e frutose pesam tanto?
- Cerveja, vinho e destilado: qual é o problema?
- Preciso cortar espinafre, feijão e cogumelo?
- Quanto a dieta baixa o exame de verdade?
- O que ajuda a reduzir: leite, cereja, café e água
- Como fica o prato na prática?
O que é ácido úrico alto e quando isso vira problema?
O ácido úrico é o produto final da quebra das purinas, moléculas que vêm tanto da comida quanto da renovação natural das nossas próprias células. O corpo elimina a maior parte pelos rins. Quando a produção sobe, a eliminação cai, ou os dois acontecem juntos, o valor no sangue aumenta.
Ter o exame alterado não é o mesmo que ter gota. Muita gente convive com hiperuricemia sem nunca ter uma crise. A gota aparece quando cristais de urato se depositam na articulação e disparam uma inflamação aguda, clássica no dedão do pé, com dor intensa, vermelhidão e calor. Cálculo renal de ácido úrico é outro desfecho possível.
Quem fecha o diagnóstico, investiga causas (função renal, medicamentos em uso, doenças associadas) e decide sobre medicação é o médico. O meu papel aqui é outro: mostrar o que na alimentação realmente muda esse número e o que é lenda repetida há décadas.
Quais alimentos realmente aumentam o ácido úrico?
O estudo mais citado sobre isso acompanhou mais de 47 mil homens por 12 anos e foi publicado no New England Journal of Medicine em 2004. Quem estava no quinto mais alto de consumo de carne teve risco de gota cerca de 40% maior, e no quinto mais alto de frutos do mar, cerca de 50% maior, comparado ao quinto mais baixo. Laticínios apareceram no sentido oposto, com risco menor.
Dentro das carnes, as vísceras são a categoria mais concentrada: fígado, rim, coração, moela e miúdos em geral. Depois vêm carne vermelha e embutidos. Entre os frutos do mar, sardinha, anchova, mexilhão, vieira, camarão e ovas concentram mais purinas. Caldo de carne, extrato de carne e molhos feitos com fundo de carne também entram na lista, porque a purina é solúvel e migra para o líquido do cozimento.
Frango, peixe branco e ovo ocupam posição intermediária ou baixa. Na maioria dos casos eu não retiro proteína animal do plano, eu redistribuo: menos vísceras e frutos do mar concentrados, frequência controlada de carne vermelha, e mais ovo, laticínio e leguminosa no lugar.
| Grupo | Impacto esperado no ácido úrico | Conduta prática |
|---|---|---|
| Vísceras (fígado, rim, moela, coração) | Alto | Evitar na rotina |
| Frutos do mar concentrados (sardinha, anchova, mexilhão, camarão, ovas) | Alto | Reduzir frequência e porção |
| Cerveja (inclusive sem álcool) | Alto | Reduzir de forma consistente |
| Refrigerante e sucos adoçados com frutose | Alto | Tirar da rotina |
| Carne vermelha e embutidos | Moderado | Frequência controlada, porção definida |
| Frango, peixe branco, ovo | Baixo a moderado | Manter |
| Feijão, lentilha, ervilha, espinafre, cogumelo | Baixo na prática clínica | Manter |
| Leite, iogurte, queijo magro | Favorável | Incluir com regularidade |
Por que refrigerante e frutose pesam tanto?
A frutose é o único açúcar que aumenta o ácido úrico por uma via direta: ao ser metabolizada no fígado, ela consome ATP rapidamente e gera mais urato como subproduto. Não é uma questão de purina, é de metabolismo energético.
Uma coorte publicada no BMJ em 2008 mostrou que homens que consumiam duas ou mais porções de refrigerante açucarado por dia tinham risco de gota bem mais alto do que quem quase não consumia. Refrigerante diet, sem frutose, não apresentou essa associação. Uma revisão sistemática de 2016 no BMJ Open apontou na mesma direção para frutose e hiperuricemia.
Isso não transforma fruta em vilã. A frutose da fruta vem com fibra, água e volume, e o padrão de consumo é completamente diferente do de uma garrafa de refrigerante. O alvo real é a frutose líquida e adicionada: refrigerante, néctar, suco de caixinha, energético, xarope de milho em produtos industrializados.
Cerveja, vinho e destilado: qual é o problema?
O álcool atrapalha por dois caminhos. Ele reduz a excreção renal de urato e, no caso da cerveja, ainda entrega uma carga extra de purinas vindas do fermento e do malte. Por isso a cerveja é a bebida mais associada à gota.
No estudo publicado na Lancet em 2004, cerveja mostrou a associação mais forte com gota incidente, destilados uma associação intermediária, e vinho, naquelas quantidades habituais, não apresentou associação significativa. Isso não é um aval para o vinho, é uma diferença de magnitude entre bebidas.
Um ponto que costuma surpreender: cerveja sem álcool também tem purinas do malte e do fermento, então não é uma troca neutra para quem tem gota.
Preciso cortar espinafre, feijão e cogumelo?
Essa é a orientação mais desatualizada que ainda circula. Nos estudos de coorte, vegetais ricos em purina não se associaram a aumento do risco de gota, ao contrário do que a tabela de purinas sugeriria. A biodisponibilidade das purinas vegetais e o contexto da matriz alimentar parecem explicar a diferença.
Cortar feijão, lentilha, grão de bico, ervilha, espinafre, aspargo, couve-flor e cogumelo tem um custo alto: você perde fibra, potássio e proteína vegetal, e ganha muito pouco no exame. É uma troca ruim, especialmente em quem também precisa cuidar da pressão. Se esse é o seu caso, vale ler o que escrevi sobre alimentação para pressão alta, porque as duas condições costumam andar juntas.
Na prática, eu mantenho as leguminosas e ajusto o que tem evidência de peso: vísceras, frutos do mar concentrados, álcool e frutose líquida.
Dieta não substitui tratamento em quem tem gota
A diretriz de gota do American College of Rheumatology, de 2020, é explícita: as recomendações alimentares (limitar álcool, purinas e xarope de milho, além de perder peso quando há excesso) são condicionais e de efeito modesto. Quando existe indicação de terapia redutora de urato, quem prescreve, define alvo e monitora é o médico. Trocar medicação por dieta em quem tem crises repetidas ou tofos é assumir risco de dano articular.
Quanto a dieta baixa o exame de verdade?
Aqui é onde eu prefiro ser honesto. Uma análise publicada no BMJ em 2018 avaliou a contribuição de dezenas de itens alimentares no urato sérico de populações e concluiu que, somados, eles explicam uma fração muito pequena da variação individual, bem menor do que a explicada por fatores genéticos. Ou seja: dois adultos com a mesma alimentação podem ter valores bem diferentes.
Isso não anula o efeito da comida. Um ensaio clínico publicado em 2016 mostrou que o padrão DASH reduziu o ácido úrico sérico, e a redução foi maior justamente em quem começou com os valores mais altos, passando de 1 mg/dL nesse subgrupo. Padrão alimentar completo funciona melhor do que caçar alimentos isolados.
Perda de peso, quando há excesso, é uma das alavancas mais consistentes. Prefiro fazer isso com déficit calórico moderado e gasto energético medido, e não com jejum prolongado ou dieta muito restritiva, porque a perda rápida de peso e a cetose acentuada podem aumentar o urato temporariamente e até precipitar uma crise. Quando o plano envolve emagrecer, medir o gasto em repouso com calorimetria indireta ajuda a calibrar o corte sem exagero.
O que ajuda a reduzir: leite, cereja, café e água
Laticínios com baixo teor de gordura aparecem de forma consistente associados a menor risco de gota nas coortes, provavelmente por efeito uricosúrico de proteínas do leite. Iogurte natural e leite entram fácil na rotina.
Cereja tem um estudo de 2012 em que o consumo em dois dias se associou a menor risco de crise recorrente. É um desenho observacional, com limitações, e eu trato como um extra plausível, não como tratamento.
Café aparece em coortes associado a menor risco de gota em consumidores regulares. E água é o básico que ninguém faz: manter boa ingestão hídrica facilita a excreção renal e reduz risco de cálculo de ácido úrico. Vitamina C em suplemento tem efeito pequeno e inconsistente sobre o urato, então não indico com esse objetivo isolado.
Como fica o prato na prática?
Café da manhã: iogurte natural ou leite, fruta, pão com ovo. Sem embutido.
Almoço e jantar: arroz e feijão mantidos, uma proteína de impacto baixo ou moderado (frango, peixe branco, ovo, carne vermelha em frequência controlada), legumes e salada à vontade, azeite como gordura principal. Molhos prontos e caldos de carne saem, e temperos frescos entram no lugar. Reduzir sódio também importa aqui, porque hipertensão e hiperuricemia caminham juntas, e vale conferir quanto de sal por dia faz sentido.
Bebidas: água como padrão, café à vontade dentro do seu limite de cafeína, refrigerante e suco adoçado fora, álcool reduzido de forma consistente. Se você já teve crise, o cuidado com álcool e frutose líquida é o item de maior retorno da lista.
Perguntas frequentes
Ácido úrico alto no exame significa que eu tenho gota?
Não. Hiperuricemia é um achado laboratorial e boa parte das pessoas com o valor alto nunca terá crise. Gota é um diagnóstico clínico, feito pelo médico a partir do quadro articular, do exame físico e, em alguns casos, da análise do líquido sinovial.
Preciso parar de comer feijão e tomate?
Feijão não precisa sair: as coortes não mostram aumento de risco com leguminosas e vegetais ricos em purina. Tomate é uma queixa relatada por alguns pacientes, sem evidência robusta de efeito. Se você identifica um gatilho pessoal claro, anote e discuta, mas não corte grupos alimentares inteiros por precaução.
Cerveja sem álcool pode?
Ela resolve a parte do álcool, mas continua trazendo purinas do malte e do fermento. Para quem tem gota, não é uma substituição neutra. Água com gás, chá gelado sem açúcar e café gelado costumam ser trocas melhores.
Em quanto tempo o exame muda com a alimentação?
Mudanças de padrão alimentar costumam aparecer em algumas semanas nos ensaios clínicos, com magnitude modesta na maioria das pessoas e maior em quem partiu de valores mais altos. Repetir o exame antes de quatro a seis semanas em geral não acrescenta informação.
Jejum e dieta muito restritiva ajudam a baixar?
Costumam fazer o contrário no curto prazo. Jejum prolongado e cetose acentuada competem com o urato na excreção renal e podem elevar o valor, além de poderem precipitar crise em quem tem gota. Prefiro déficit calórico moderado e constante.
Posso tomar suco de limão ou bicarbonato para alcalinizar?
A alcalinização da urina é uma estratégia usada em contexto específico de cálculo renal de ácido úrico, sob orientação médica e com controle do pH urinário. Fazer isso por conta própria, principalmente com bicarbonato, não é recomendável, inclusive pela carga de sódio envolvida.
Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026
Referências
- Choi HK, Atkinson K, Karlson EW, Willett W, Curhan G. Purine-Rich Foods, Dairy and Protein Intake, and the Risk of Gout in Men. New England Journal of Medicine, 2004. DOI: 10.1056/NEJMoa035700
- Choi HK, Atkinson K, Karlson EW, Willett W, Curhan G. Alcohol intake and risk of incident gout in men: a prospective study. The Lancet, 2004. DOI: 10.1016/S0140-6736(04)16000-5
- Choi HK, Curhan G. Soft drinks, fructose consumption, and the risk of gout in men: prospective cohort study. BMJ, 2008. DOI: 10.1136/bmj.39449.819271.BE
- Jamnik J, Rehman S, Blanco Mejia S, et al. Fructose intake and risk of gout and hyperuricemia: a systematic review and meta-analysis of prospective cohort studies. BMJ Open, 2016. DOI: 10.1136/bmjopen-2016-013191
- Juraschek SP, Gelber AC, Choi HK, Appel LJ, Miller ER. Effects of the Dietary Approaches to Stop Hypertension (DASH) Diet and Sodium Intake on Serum Uric Acid. Arthritis and Rheumatology, 2016. DOI: 10.1002/art.39813
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- FitzGerald JD, Dalbeth N, Mikuls T, et al. 2020 American College of Rheumatology Guideline for the Management of Gout. Arthritis Care and Research, 2020. DOI: 10.1002/acr.24180