Marcos Hirata

Suplementação

Creatina faz mal para o rim? O que o exame mostra

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: nos estudos disponíveis com pessoas saudáveis, a creatina monoidratada nas doses usuais não prejudica a função renal, inclusive em uso por meses e anos. O que confunde é o exame: a creatinina do sangue sobe porque a creatina se converte em creatinina, e não porque o rim piorou. Isso pode fazer a taxa de filtração estimada parecer reduzida sem que exista doença. Quem tem doença renal conhecida ou fator de risco deve conversar com o médico antes de suplementar, e é o médico quem interpreta exame e fecha diagnóstico.

Afinal, a creatina faz mal para o rim?

Nos ensaios com pessoas saudáveis, não. A creatina monoidratada é um dos suplementos mais estudados que existem, e o posicionamento da International Society of Sports Nutrition, assinado por Kreider e colaboradores, resume o conjunto da evidência: nas doses habituais, não há sinal consistente de dano renal em indivíduos sem doença prévia.

A fama de vilã vem de uma dedução que parece lógica e não se sustenta. Como a creatina vira creatinina, e como a creatinina alta é um marcador clássico de problema renal, muita gente concluiu que a creatina sobrecarrega o rim. O que existe é uma mudança de marcador, não uma lesão de órgão.

Isso não transforma a creatina em algo indiferente. Ela tem indicações, faixa de dose estudada e situações em que a avaliação médica precede a suplementação. O que não existe é a base para a afirmação genérica de que ela estraga o rim de quem é saudável.

Por que a creatinina do exame sobe com creatina?

Porque a creatinina é o produto final da degradação da creatina muscular. Todo dia, cerca de 1 a 2 por cento da creatina do corpo se converte espontaneamente em creatinina, que cai no sangue e é filtrada pelo rim. Se você aumenta o estoque muscular de creatina com suplementação, aumenta também a quantidade convertida por dia.

O mesmo acontece por outros motivos que nada têm a ver com rim doente: massa muscular alta, consumo grande de carne, exercício intenso nos dias anteriores à coleta. Uma pessoa musculosa costuma ter creatinina mais alta que uma pessoa sedentária de mesma idade e altura, sem que isso indique problema.

Na prática do consultório, o padrão é sempre parecido: o paciente treina, toma creatina, faz exame de rotina, vê creatinina em 1,3 e chega assustado. Na maioria absoluta das vezes, o restante da avaliação está limpo, e a explicação é justamente essa. Mas quem confirma isso, com o quadro clínico completo na mão, é o médico.

Isso significa que minha filtração caiu?

Não necessariamente, e aqui está o ponto que gera mais confusão. A taxa de filtração glomerular que aparece no laudo não é medida diretamente: ela é estimada por fórmulas que usam a creatinina do sangue, a idade e o sexo. Se a creatinina sobe por aumento de produção, a fórmula devolve um valor estimado mais baixo, mesmo com o rim filtrando igual.

Existe evidência direta sobre isso. Gualano e colaboradores publicaram o caso de um homem jovem com um único rim que usou creatina em dose alta por curto período com a filtração glomerular medida por método de referência, e não houve queda da filtração real. É um relato de caso, com todas as limitações desse desenho, mas ilustra bem a diferença entre estimativa e medida.

Quando a dúvida persiste, existem alternativas laboratoriais que não dependem da creatinina, como a dosagem de cistatina C, além da avaliação de albuminúria e do acompanhamento ao longo do tempo. A escolha do exame e a leitura do resultado são decisão médica, não do nutricionista nem do balconista da loja de suplemento.

SituaçãoCreatinina do sangueFiltração realInterpretação
Uso de creatina em pessoa saudávelPode subir um poucoPreservada nos estudosAumento de produção, não de retenção
Massa muscular altaTende a ser mais altaPreservadaFórmula superestima o problema
Treino intenso nas 48 horas anterioresPode subir de forma transitóriaPreservadaRepetir o exame em repouso relativo
Doença renalAlta e persistenteReduzidaAvaliação médica, com outros marcadores

O que os estudos de longo prazo mostram?

Poortmans e Francaux acompanharam atletas em uso oral prolongado de creatina e não encontraram prejuízo de função renal em comparação com controles. Os mesmos autores publicaram uma revisão discutindo os efeitos adversos atribuídos ao suplemento e concluíram que boa parte é anedótica, sem sustentação nos dados disponíveis.

Gualano e colaboradores conduziram um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo avaliando função renal com suplementação de creatina em homens saudáveis submetidos a treinamento, sem alteração dos marcadores. Kim e colaboradores revisaram especificamente a segurança da suplementação, com a mesma direção de conclusão.

Mais recentemente, Antonio e colaboradores organizaram um artigo dedicado às perguntas e aos equívocos mais comuns sobre creatina, incluindo o tema renal, a suposta relação com queda de cabelo, com retenção de líquido e com cãibras. É uma boa fotografia do estado atual da discussão, e o resumo é que a maior parte dos medos populares não encontra respaldo nos ensaios.

O que eu peço antes de qualquer conversa sobre creatina

Exames de rotina recentes, histórico de doença renal na família, uso de medicamentos e uma noção da ingestão de proteína atual. Se houver qualquer alteração relevante ou diagnóstico prévio, a conversa vai para o médico antes de qualquer suplementação. Se estiver tudo dentro da normalidade, o assunto passa a ser objetivo de treino e faixa de dose, e não medo de rim.

E quem já tem doença renal ou fator de risco?

Aí a resposta muda de tom. A literatura de segurança que eu citei foi construída majoritariamente com pessoas saudáveis, e não se pode transferir automaticamente essa conclusão para quem tem doença renal crônica, rim único, glomerulopatia, transplante ou uso de medicamentos que afetam a função renal.

Nessas situações, quem avalia risco e benefício, decide sobre suplementação e monitora exames é o médico responsável, frequentemente o nefrologista. O papel do nutricionista é ajustar proteína, sódio, potássio, fósforo e energia dentro do que a conduta médica define, e não liberar ou proibir suplemento por conta própria.

Diabetes de longa data, hipertensão mal controlada e histórico familiar forte também merecem essa conversa antes, não depois. Não porque exista prova de que a creatina agrave esses quadros, mas porque nesses cenários qualquer interpretação de creatinina fica mais delicada e exige acompanhamento estruturado.

Creatina junto com dieta rica em proteína piora a conta?

Essa pergunta aparece muito, porque a maioria de quem usa creatina também come bastante proteína. Lugaresi e colaboradores investigaram exatamente essa combinação, em pessoas treinadas em força com dieta hiperproteica usando creatina por tempo prolongado, e não encontraram prejuízo da função renal nos marcadores avaliados.

A ideia de que proteína alta danifica rim saudável também não se sustenta nos ensaios disponíveis. O que muda com proteína alta é a carga de solutos que o rim processa, algo que um rim funcionante administra sem dificuldade. Em rim já doente, a história é outra, e a restrição proteica passa a ser conduta clínica.

O que eu observo com mais frequência não é excesso de proteína, é hidratação irregular. Quem treina forte, sua muito e bebe pouco costuma concentrar a urina, e isso mexe em vários marcadores. Ajustar líquido ao longo do dia resolve mais dúvidas de exame do que retirar suplemento.

Como conduzir os exames sem susto?

Primeiro, avisar. Diga ao médico que você usa creatina e há quanto tempo, e registre isso na requisição do exame quando possível. Uma creatinina de 1,25 tem leitura completamente diferente quando se sabe que o paciente treina força e suplementa.

Segundo, padronizar a coleta. Evitar treino intenso nas 24 a 48 horas anteriores, chegar hidratado e manter a alimentação habitual dá um resultado mais comparável ao anterior. Fazer exame no dia seguinte a um treino de pernas pesado é uma receita para resultado confuso.

Terceiro, olhar a série histórica, e não um ponto isolado. Uma creatinina estável ao longo de anos, com urina normal e sem albuminúria, conta uma história diferente de uma creatinina que sobe progressivamente. Essa leitura é do médico, e o meu papel é organizar a alimentação e o suplemento dentro do que ele definir. A mesma lógica de checar evidência antes de aceitar boato eu aplico a outros produtos comuns na academia, como em maltodextrina faz mal.

Qual é a faixa de dose estudada?

Os protocolos mais usados na literatura seguem dois formatos. Um deles usa uma fase inicial de saturação, em torno de 20 gramas por dia divididas em quatro tomadas por 5 a 7 dias, seguida de manutenção com 3 a 5 gramas por dia. O outro dispensa a saturação e usa 3 a 5 gramas por dia desde o início, atingindo estoques semelhantes em algumas semanas.

A forma mais estudada é a creatina monoidratada, e as versões alternativas vendidas como superiores não mostraram vantagem consistente sobre ela. Isso é faixa estudada, e não recomendação individual: quem define o que faz sentido para você é a avaliação do seu caso, com objetivo de treino, alimentação e exames na mesa.

Suplemento é a última peça da conversa, nunca a primeira. Antes dele vêm treino consistente, proteína adequada, energia suficiente e sono. Outros produtos populares seguem a mesma ordem de prioridade, como eu explico em para que serve o HMB. Montar esse conjunto com números do seu caso é o trabalho que eu faço no acompanhamento de nutrição esportiva.

Perguntas frequentes

Preciso fazer pausa periódica no uso de creatina?

Os estudos de uso contínuo por meses e anos em pessoas saudáveis não indicam necessidade de pausas programadas por questão de segurança renal. Interromper por um tempo apenas faz os estoques musculares voltarem gradualmente ao nível basal. Se existir alguma condição clínica, a decisão passa pelo médico.

Minha creatinina veio um pouco acima do valor de referência. É grave?

Um resultado isolado não define nada, e eu não faço diagnóstico. Vários fatores mudam esse número, incluindo massa muscular, treino recente, hidratação e uso de creatina. Leve o exame ao médico, informe o uso do suplemento e siga a investigação que ele indicar.

Creatina causa retenção de líquido e inchaço?

Ela aumenta o conteúdo de água dentro da célula muscular, o que costuma aparecer como um pequeno aumento de peso nas primeiras semanas. Isso é diferente de retenção subcutânea de líquido. A revisão de Antonio e colaboradores discute esse ponto entre os equívocos mais repetidos sobre o suplemento.

Preciso beber mais água por usar creatina?

A recomendação de manter boa hidratação vale para quem treina, com ou sem creatina. Não existe uma exigência específica de litros extras atribuída ao suplemento, mas treinar forte, suar bastante e beber pouco é um problema por si só, e atrapalha inclusive a leitura de exames.

Creatina em pó, cápsula ou gomas: muda a segurança?

A substância é a mesma; o que muda é a apresentação, o preço e a dose por porção. O ponto relevante é conferir a quantidade real de creatina monoidratada por porção e a procedência do produto, com registro regular, em vez de escolher pela forma.

Quem toma creatina pode doar sangue ou fazer exames de rotina normalmente?

Sim, a rotina segue igual. O único cuidado prático é informar o uso quando for interpretar exames de função renal, para que a creatinina seja lida no contexto certo. Quem conduz essa interpretação e qualquer investigação adicional é o médico.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Kreider RB, Kalman DS, Antonio J, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport, and medicine. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2017;14(1):18. DOI: 10.1186/s12970-017-0173-z
  2. Poortmans JR, Francaux M. Long-term oral creatine supplementation does not impair renal function in healthy athletes. Medicine and Science in Sports and Exercise. 1999;31(8):1108-1110. DOI: 10.1097/00005768-199908000-00005
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  6. Lugaresi R, Leme M, de Salles Painelli V, et al. Does long-term creatine supplementation impair kidney function in resistance-trained individuals consuming a high-protein diet? Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2013;10(1):26. DOI: 10.1186/1550-2783-10-26
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  8. Kim HJ, Kim CK, Carpentier A, Poortmans JR. Studies on the safety of creatine supplementation. Amino Acids. 2011;40(5):1409-1418. DOI: 10.1007/s00726-011-0878-2
  9. Gualano B, Roschel H, Lancha AH, Brightbill CE, Rawson ES. In sickness and in health: the widespread application of creatine supplementation. Amino Acids. 2012;43(2):519-529. DOI: 10.1007/s00726-011-1132-7

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