Marcos Hirata

Suplementação

Dextrose, maltodextrina ou waxy maize: qual usar no treino e na prova

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: para a maioria das pessoas os três funcionam e a diferença prática é pequena. Dextrose é glicose pura, entra rápido e puxa água para o intestino, o que limita a concentração da bebida. Maltodextrina entrega a mesma glicose com menos carga osmótica, e por isso é a base da maior parte dos géis e bebidas esportivas. Waxy maize de alto peso molecular esvazia o estômago mais rápido em algumas condições, mas o produto vendido no Brasil com esse nome nem sempre é o amido modificado dos estudos. Escolha maltodextrina como padrão, misture com frutose quando passar de 60 gramas por hora e guarde a dextrose para o pós-treino imediato.

O que é cada um desses três carboidratos?

Dextrose é o nome comercial da glicose isolada, uma molécula única. Ela não precisa ser quebrada por nenhuma enzima: chega ao intestino delgado e é transportada direto para a circulação. É o carboidrato de referência do índice glicêmico justamente por isso.

Maltodextrina é uma cadeia curta de moléculas de glicose, obtida da quebra parcial do amido de milho ou mandioca. Como é uma cadeia, ela contribui menos para a osmolalidade da bebida do que a mesma massa de glicose solta, e ainda assim se quebra em segundos no intestino. O resultado é glicose entrando quase tão rápido, com menos incômodo gástrico.

Waxy maize é amido de milho ceroso, quase todo amilopectina. Aqui mora a confusão: o produto que a literatura estuda é um amido de alto peso molecular modificado por processo hidrotérmico, com propriedades específicas de esvaziamento gástrico. Boa parte do que se vende como waxy maize em loja de suplemento é amido ceroso comum, sem esse processamento, e se comporta como um amido qualquer.

Qual absorve mais rápido de verdade?

A absorção intestinal de glicose tem um gargalo fixo: o transportador SGLT1. Ele satura perto de 60 gramas de glicose por hora, e nenhuma forma de embalar a glicose contorna esse limite. Dextrose, maltodextrina e amido, uma vez quebrados, competem pelo mesmo transportador e chegam ao mesmo teto.

O que muda entre eles é o passo anterior: quanto tempo a bebida leva para sair do estômago. Aí a osmolalidade importa. Uma solução de dextrose a 8 por cento é bem mais concentrada em partículas do que uma solução de maltodextrina a 8 por cento, e concentração alta atrasa o esvaziamento gástrico e puxa água para o lúmen intestinal, o que gera aquela sensação de peso e, em alguns casos, diarreia no meio da corrida.

Piehl Aulin, Söderlund e Hultman compararam no European Journal of Applied Physiology bebidas com carboidratos de massa molecular baixa e alta na recuperação, e observaram vantagem para a solução de alta massa molecular na taxa de ressíntese de glicogênio nas primeiras horas. É esse mecanismo, e não uma diferença de “qualidade” do açúcar, que sustenta o argumento a favor dos polímeros.

Qual usar durante o treino e a prova?

Maltodextrina é a escolha padrão, e não por acaso: quase todo gel e toda bebida esportiva do mercado usa maltodextrina, sozinha ou combinada com frutose. Burke, Hawley, Wong e Jeukendrup organizaram no Journal of Sports Sciences as diretrizes de carboidrato para treino e competição, e a recomendação prática se apoia em fontes que combinam alta taxa de oxidação com boa tolerância.

Se você precisa passar de 60 gramas por hora, o caminho não é trocar maltodextrina por waxy maize: é somar frutose. A frutose usa um transportador diferente, o GLUT5, e a combinação de glicose com frutose numa proporção próxima de 2 para 1 permite chegar a 90 gramas por hora de carboidrato oxidado, faixa que Jeukendrup descreve em Sports Medicine para esforços acima de duas horas e meia.

Abaixo de 60 minutos de treino, nenhum dos três muda o rendimento de forma perceptível, e o carboidrato vira apenas caloria extra. Se você treina duas vezes no mesmo dia, o cálculo é outro, e eu detalho essa logística em alimentação para quem treina duas vezes ao dia.

Qual usar depois, para repor glicogênio?

Depende do prazo. Se o próximo treino é em mais de 12 horas, a fonte não importa: a revisão de Burke, van Loon e Hawley mostra que, com tempo suficiente, o total de carboidrato do dia é o que determina a reposição, e comida comum resolve.

Quando o prazo é curto, entre 2 e 8 horas, aí velocidade conta. Jentjens e Jeukendrup revisaram em Sports Medicine os determinantes da síntese de glicogênio na recuperação curta e o quadro é conhecido: carboidrato de alto índice glicêmico, dose de 1 a 1,2 grama por quilo por hora, começando logo. Dextrose e maltodextrina servem bem, e a dextrose tem a vantagem de custo.

Stephens e colaboradores testaram no Journal of Sports Sciences uma solução de polímero de glicose de alto peso molecular ingerida após o exercício e observaram desempenho melhor numa segunda sessão de ciclismo, comparada a uma solução de baixo peso molecular. É um dos poucos achados que favorecem o polímero grande num desfecho de desempenho, e vale registrar que se trata de cenário de recuperação apertada, não da rotina de quem treina uma vez ao dia.

O ponto é a osmolalidade, não a “qualidade” do carboidrato

Tudo o que diferencia esses três produtos na prática acontece antes da absorção. Quanto mais moléculas soltas por volume, maior a osmolalidade da bebida, mais devagar ela sai do estômago e mais água ela puxa para o intestino. Por isso a mesma quantidade de carboidrato desce melhor como maltodextrina do que como dextrose pura, e por isso diluir bem qualquer um deles resolve boa parte dos desconfortos.

Waxy maize vale o preço?

Na maioria das vezes, não. Roberts e colaboradores testaram em Nutrition o amido de milho ceroso modificado por processo hidrotérmico e de alto peso molecular em ciclistas treinados, e encontraram alterações nas respostas metabólicas durante exercício prolongado, sem que isso se traduzisse em ganho consistente de desempenho.

Goodpaster e colaboradores já haviam testado, no International Journal of Sports Medicine, a ingestão de amido antes do exercício de resistência, e o resultado também não sustentou vantagem clara sobre outras fontes. O corpo de evidência para waxy maize é pequeno, heterogêneo e frequentemente feito com produtos patenteados específicos.

Some a isso o problema de rotulagem. Sem saber se o pó que você comprou é amido ceroso comum ou o polímero modificado dos estudos, você paga preço de tecnologia por um amido de milho. Para quem quer economizar sem perder função, maltodextrina entrega o essencial por uma fração do custo.

Como os três se comparam lado a lado?

A tabela abaixo resume os pontos que decidem a escolha. Os valores são de referência e variam com o produto, a diluição e a tolerância individual.

CritérioDextroseMaltodextrinaWaxy maize
EstruturaGlicose isoladaCadeia curta de glicoseAmido de amilopectina
Osmolalidade da bebidaAltaMédiaBaixa
Esvaziamento gástricoMais lento em concentração altaBomRápido na versão de alto peso molecular
Tolerância digestivaPior em dose grandeBoaBoa, mas varia com o produto
Durante esforço longoAceitável diluídaEscolha padrãoSem vantagem demonstrada
Recuperação em menos de 8 horasBoaBoaPossível vantagem, evidência limitada
SaborDoceQuase neutroNeutro
Custo por gramaBaixoBaixoAlto

Quanto usar por hora de esforço?

As faixas que uso são as mesmas que orientam a prática esportiva há anos. Até uma hora de esforço, nada ou apenas enxágue bucal com bebida com carboidrato. De uma a duas horas, perto de 30 gramas por hora. De duas a três horas, até 60 gramas por hora de glicose ou maltodextrina. Acima de duas horas e meia, até 90 gramas por hora, obrigatoriamente com mistura de glicose e frutose.

A concentração da bebida também tem faixa útil: entre 6 e 8 gramas de carboidrato por 100 mililitros. Abaixo disso você carrega água à toa; acima, o estômago começa a reclamar. Trinta gramas de maltodextrina em 400 mililitros de água ficam nesse intervalo.

Nada disso funciona sem treinar o intestino. A tolerância a carboidrato durante o esforço melhora com exposição repetida, e testar 90 gramas por hora pela primeira vez no dia da prova é receita de problema. Quem está em fase de ganho de peso também precisa somar essas calorias ao total, ponto que discuto em bulking e cutting.

Dá para trocar tudo por comida de verdade?

Dá, e em treino é o que eu mais oriento. Banana, tâmara, pão com geleia, batata cozida com sal e suco de fruta diluído entregam carboidrato de absorção rápida com custo menor e com potássio, sódio e água junto. Para esforços de até duas horas, comida resolve com folga.

O suplemento ganha em três situações: precisão de dose, praticidade no bolso durante a prova e tolerância quando o estômago está sob estresse de intensidade alta. Correr a 4 minutos por quilômetro mastigando pão não é para todo mundo.

Carboidrato também não é o único componente da estratégia. Sódio, líquido e, em alguns esportes, nitrato têm papel próprio, tema que trato em beterraba no pré-treino. Montar o plano com os seus números, seu esporte e sua tolerância é o trabalho que faço no acompanhamento de nutrição esportiva.

Perguntas frequentes

Maltodextrina é pior que açúcar por ter índice glicêmico alto?

Índice glicêmico alto é problema fora do contexto de esforço e vantagem dentro dele. Durante e logo após o treino, entrada rápida de glicose é exatamente o que se quer. Fora do treino, maltodextrina em bebida adoçada não tem nenhuma vantagem sobre a comida, e some calorias sem saciedade.

Posso misturar dextrose com maltodextrina?

Pode, e a mistura costuma ser mais palatável que maltodextrina pura, que é quase sem sabor. Como as duas chegam ao mesmo transportador, a mistura não aumenta a taxa máxima de absorção. Quem quer passar de 60 gramas por hora precisa somar frutose, não dextrose.

Waxy maize serve para ganhar peso?

Serve como qualquer carboidrato em pó: adiciona calorias de forma fácil e sem volume. Não há vantagem específica dele para ganho de massa. Maltodextrina faz o mesmo trabalho mais barato, e aveia, arroz e frutas fazem com mais nutrientes.

Qual deles causa menos desconforto no estômago?

Em geral maltodextrina, e o waxy maize de alto peso molecular quando é o produto correto. Dextrose pura em concentração alta é a que mais causa problema. Diluir mais a bebida costuma resolver a maior parte dos casos, independentemente da fonte escolhida.

Preciso de carboidrato em pó na musculação?

Em sessão de 50 a 80 minutos, não. O glicogênio muscular dá conta, e a refeição anterior sustenta o treino. O pó passa a fazer sentido em treinos muito longos, em quem treina duas vezes no mesmo dia com pouco intervalo, ou em quem tem dificuldade de atingir o total calórico com comida.

Carboidrato em pó atrapalha quem quer emagrecer?

Atrapalha se for somado sem necessidade, porque adiciona calorias com pouca saciedade. Em déficit calórico, o espaço energético é escasso e faz mais sentido gastá-lo com comida. Em treino longo, uma dose modesta durante o esforço pode ser útil e cabe no plano, desde que entre na conta do dia.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Jeukendrup AE. A Step Towards Personalized Sports Nutrition: Carbohydrate Intake During Exercise. Sports Medicine. 2014;44(Suppl 1):25-33. DOI: 10.1007/s40279-014-0148-z
  2. Burke LM, Hawley JA, Wong SHS, Jeukendrup AE. Carbohydrates for training and competition. Journal of Sports Sciences. 2011;29(sup1):S17-S27. DOI: 10.1080/02640414.2011.585473
  3. Burke LM, van Loon LJC, Hawley JA. Postexercise muscle glycogen resynthesis in humans. Journal of Applied Physiology. 2017;122(5):1055-1067. DOI: 10.1152/japplphysiol.00860.2016
  4. Jentjens R, Jeukendrup AE. Determinants of Post-Exercise Glycogen Synthesis During Short-Term Recovery. Sports Medicine. 2003;33(2):117-144. DOI: 10.2165/00007256-200333020-00004
  5. Piehl Aulin K, Söderlund K, Hultman E. Muscle glycogen resynthesis rate in humans after supplementation of drinks containing carbohydrates with low and high molecular masses. European Journal of Applied Physiology. 2000;81(4):346-351. DOI: 10.1007/s004210050053
  6. Stephens FB, Roig M, Armstrong G, Greenhaff PL. Post-exercise ingestion of a unique, high molecular weight glucose polymer solution improves performance during a subsequent bout of cycling exercise. Journal of Sports Sciences. 2008;26(2):149-154. DOI: 10.1080/02640410701361548
  7. Roberts MD, Lockwood C, Dalbo VJ, Volek J, Kerksick CM. Ingestion of a high-molecular-weight hydrothermally modified waxy maize starch alters metabolic responses to prolonged exercise in trained cyclists. Nutrition. 2011;27(6):659-665. DOI: 10.1016/j.nut.2010.07.008
  8. Goodpaster BH, Costill DL, Fink WJ, et al. The Effects of Pre-Exercise Starch Ingestion on Endurance Performance. International Journal of Sports Medicine. 1996;17(5):366-372. DOI: 10.1055/s-2007-972862

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