
Suplementação
Beterraba antes do treino ou da prova: quanto tempo antes e quanto
Resposta rápida: o que interessa na beterraba antes do treino é o nitrato, que o corpo converte em óxido nítrico e usa para reduzir o custo de oxigênio do esforço. A dose estudada fica entre 6 e 8 milimoles de nitrato, o equivalente a 400 a 500 miligramas, e o pico de nitrito no sangue acontece de 2 a 3 horas depois da ingestão. Ou seja: tomar 10 minutos antes de entrar na academia não faz nada. O efeito é pequeno, aparece mais em esforços de 5 a 30 minutos e some quase por completo em atletas muito treinados.
Neste artigo
- Como a beterraba age no corpo durante o exercício?
- Quanto tempo antes do treino tomar a beterraba?
- Quanto de beterraba é preciso para ter efeito?
- Suco concentrado, beterraba cozida ou pó: qual funciona?
- Em que tipo de esforço a beterraba realmente ajuda?
- Quem não responde ao nitrato da beterraba?
- Que erros anulam o efeito da beterraba?
- Beterraba pré-treino tem efeito colateral?
Como a beterraba age no corpo durante o exercício?
A beterraba não age por causa do açúcar dela nem por causa do ferro, apesar de ser isso que se repete em academia. O componente ativo é o nitrato inorgânico, uma substância que a planta absorve do solo e acumula na raiz e nas folhas. Depois de engolido, o nitrato é absorvido no intestino, cai na circulação e uma parte volta para a saliva. Ali, bactérias que vivem no dorso da língua reduzem o nitrato a nitrito. O nitrito é engolido de novo e, no ambiente ácido do estômago e nos tecidos com pouco oxigênio, vira óxido nítrico.
O óxido nítrico é um vasodilatador e também interfere na eficiência da mitocôndria. Larsen e colaboradores, em estudo publicado na Acta Physiologica em 2007, mostraram que o nitrato dietético reduz o consumo de oxigênio em cargas submáximas sem que o trabalho realizado caia. Traduzindo: a mesma carga passa a custar menos oxigênio. Bailey e colaboradores confirmaram o achado em 2009 e ainda observaram maior tolerância a esforço de alta intensidade.
Essa é a diferença entre a beterraba e a maioria dos pré-treinos de prateleira. Ela não mexe no sistema nervoso central, não dá arrepio, não acelera o coração. O efeito é silencioso e só aparece em desfecho de desempenho, o que frustra quem espera sentir alguma coisa.
Quanto tempo antes do treino tomar a beterraba?
Entre 2 e 3 horas antes. Esse número não é opinião, é a cinética da substância: o nitrato plasmático sobe rápido, mas o nitrito, que é a forma que interessa, leva de 2 a 3 horas para atingir o pico depois da ingestão. Quem toma o suco no vestiário está no começo da curva, e o treino termina antes de o corpo ter o que usar.
Na prática eu peço que a pessoa fixe o horário do treino e conte para trás. Treino às 19h significa beterraba entre 16h e 17h. Prova às 8h significa tomar entre 5h e 6h, junto do café da manhã. Não precisa ser em jejum nem isolado de outros alimentos.
Existe uma segunda estratégia, que é a carga por vários dias. Tomar a dose diariamente por 3 a 7 dias antes de uma competição eleva o patamar basal de nitrato e nitrito e parece dar um efeito um pouco mais consistente do que a dose única. Nesse esquema, no dia da prova ainda se toma uma dose 2 a 3 horas antes.
Quanto de beterraba é preciso para ter efeito?
A faixa que aparece nos estudos positivos é de 6 a 8 milimoles de nitrato, algo entre 370 e 500 miligramas. Wylie e colaboradores, no Journal of Applied Physiology em 2013, testaram a dose-resposta: 4,2 milimoles produziram pouco, 8,4 milimoles deram o efeito completo, e dobrar para 16,8 não acrescentou nada. Existe um teto, atingido cedo.
O problema é converter isso em comida. O teor de nitrato de um vegetal varia muito com o solo, a adubação e a época do ano, então qualquer tabela é uma estimativa. Ainda assim, a ordem de grandeza ajuda a decidir.
| Fonte | Nitrato aproximado | Quanto seria preciso para 400 a 500 mg |
|---|---|---|
| Shot de suco concentrado de beterraba | 380 a 400 mg por 70 ml | 1 unidade |
| Suco de beterraba comum, não concentrado | 150 a 300 mg por 250 ml | 400 a 700 ml |
| Beterraba crua ralada | 100 a 250 mg por 100 g | 250 a 450 g |
| Beterraba cozida em água | 50 a 150 mg por 100 g | 350 a 900 g |
| Rúcula | 250 a 450 mg por 100 g | 100 a 180 g |
| Espinafre cru | 150 a 350 mg por 100 g | 150 a 300 g |
| Pó de beterraba comum de suplemento | muito variável, às vezes perto de zero | impossível estimar sem rótulo |
Repare no tamanho da porção da raiz. Comer 400 gramas de beterraba cozida duas horas antes de treinar é desconfortável, e é por isso que os estudos usam suco concentrado. Já a rúcula resolve com uma salada grande, o que quase ninguém considera.
Suco concentrado, beterraba cozida ou pó: qual funciona?
O suco concentrado é a forma testada e a única em que você sabe o que está tomando, porque o teor de nitrato costuma vir declarado no rótulo. Foi com ele que praticamente toda a literatura de desempenho foi construída, incluindo as revisões de Domínguez e de Senefeld.
A beterraba cozida perde nitrato para a água do cozimento, já que a substância é solúvel. Se você quiser usar a raiz, prefira crua ralada, assada com pouca água ou cozida no vapor, e aproveite o caldo quando houver. Beterraba crua batida com laranja é uma forma prática de chegar perto da dose sem enjoar.
O pó vendido como suplemento é a aposta mais incerta. Muitos produtos são apenas beterraba desidratada, com teor de nitrato baixo e não declarado, e alguns processos de secagem destroem boa parte do que interessa. Só vale a pena se o rótulo informar miligramas de nitrato por dose e o produto tiver alguma verificação de terceira parte. Esse critério de olhar o rótulo antes de acreditar na promessa é o mesmo que eu aplico a fórmulas comerciais, como discuto em pré-treino faz mal.
Em que tipo de esforço a beterraba realmente ajuda?
O ganho médio é pequeno e vale dizer isso com todas as letras. As metanálises apontam melhora modesta em tempo até a exaustão e em desempenho de contrarrelógio, com efeito mais claro em esforços de intensidade alta que duram de cerca de 5 a 30 minutos. Senefeld e colaboradores, em revisão publicada na Medicine and Science in Sports and Exercise em 2020, encontraram efeito ergogênico pequeno e dependente do tipo de teste.
Em musculação clássica, com séries de 8 a 12 repetições e pausas longas, os dados são escassos e inconsistentes. Existe alguma sinalização de benefício em esforços intermitentes e em trabalho de alto volume com pausa curta, onde a demanda de oxigênio entre séries é grande, mas isso está longe de ser um efeito estabelecido. Em esforços máximos de poucos segundos, não há razão fisiológica para esperar ganho.
Se o seu objetivo é hipertrofia, beterraba não é prioridade nenhuma. Proteína suficiente, carboidrato para sustentar o volume de treino e sono vêm muito antes. A escolha do carboidrato em torno do treino, por exemplo, muda mais o resultado prático do que o nitrato, e eu comparo as opções em dextrose, maltodextrina ou waxy maize.
Protocolo prático para testar em você
Escolha um teste que você consiga repetir: 5 km em ritmo forte, 20 minutos de bicicleta com distância medida, um circuito fixo com tempo total. Faça o teste sem beterraba e anote. Depois use um shot de suco concentrado com 400 mg de nitrato, tomado 2 horas e meia antes, por 4 dias seguidos, e repita o teste no quinto dia com o mesmo horário, a mesma refeição prévia e a mesma temperatura, se possível. Diferenças menores que 1 por cento são ruído. Se não houver mudança em duas tentativas, o produto não é para você e o dinheiro rende mais em comida.
Quem não responde ao nitrato da beterraba?
Atletas muito bem treinados respondem pouco ou nada. A explicação provável é que o organismo deles já produz óxido nítrico com eficiência e a capilarização e a função mitocondrial já estão perto do teto, então não sobra margem. Em pessoas destreinadas e moderadamente treinadas, o espaço de resposta é maior. É um dos poucos suplementos em que ser menos treinado ajuda.
Também há variabilidade individual grande ligada à microbiota da boca. Quem tem poucas bactérias redutoras de nitrato na língua converte menos, e isso não se percebe por sintoma nenhum. Por isso o teste individual vale mais do que a média dos estudos.
Quem tem doença renal, pressão muito baixa ou usa medicação vasodilatadora precisa conversar com o médico antes, porque o nitrato dietético reduz a pressão arterial de forma mensurável em algumas pessoas. Quem avalia interação medicamentosa e ajusta prescrição é o médico, não o nutricionista.
Que erros anulam o efeito da beterraba?
O primeiro é o enxaguante bucal antisséptico. Ele mata justamente as bactérias da língua que fazem a primeira etapa da conversão, e estudos mostram que o uso de antisséptico bucal reduz ou elimina a elevação de nitrito no plasma. Se você vai usar beterraba antes de uma prova, tire o enxaguante da rotina naquele dia.
O segundo é cuspir. O ciclo depende de a saliva ser engolida, então cuspir com frequência durante o aquecimento derruba parte do processo. O terceiro é o horário errado, já tratado acima. O quarto é a dose baixa, típica de produtos que trazem 100 miligramas de extrato e prometem o efeito completo.
Há ainda o erro de tomar beterraba em dose alta pela primeira vez no dia da prova. Volume grande de suco pode dar desconforto abdominal em quem não está acostumado, e prova não é lugar de novidade. Teste tudo em treino, principalmente quando existem duas sessões no mesmo dia, cenário que exige planejamento próprio e que eu detalho em como organizar a alimentação em treino duas vezes ao dia.
Beterraba pré-treino tem efeito colateral?
O mais comum é cosmético e assusta quem não sabe: urina e fezes ficam avermelhadas. Chama-se beturia, vem dos pigmentos betalaínas e não tem significado clínico. Passa em um ou dois dias.
Desconforto gastrointestinal aparece em parte das pessoas quando o volume de suco é grande, principalmente perto do esforço. Dividir a dose ou trocar por concentrado resolve na maioria dos casos. Nas doses e nos períodos estudados, o nitrato de origem vegetal não mostrou eventos adversos relevantes em adultos saudáveis, e o consumo alto de vegetais ricos em nitrato tem associação favorável com pressão arterial.
Nitrato de vegetal e nitrito adicionado a embutidos não são a mesma coisa: a matriz alimentar é outra e vem acompanhada de antioxidantes. Se o interesse for desempenho de forma mais ampla, a lógica de prioridades está no meu conteúdo de nutrição esportiva.
Perguntas frequentes
Posso tomar suco de beterraba todo dia?
Não há problema conhecido em consumir beterraba e outros vegetais ricos em nitrato diariamente em quantidades alimentares. A dúvida costuma ser de custo, não de segurança. Se o objetivo é desempenho em uma prova específica, faz mais sentido concentrar o uso nos dias que antecedem a competição do que gastar o ano inteiro com suco concentrado.
Beterraba substitui a cafeína no pré-treino?
Não, porque os alvos são diferentes. A cafeína age no sistema nervoso central, reduz a percepção de esforço e tem efeito agudo na mesma sessão. A beterraba age na economia de oxigênio e precisa de horas para chegar ao pico. Uma coisa não substitui a outra, e nada impede que sejam usadas juntas.
A beterraba serve para hipertrofia?
Não existe base para dizer que sim. O nitrato não estimula síntese proteica e os estudos com musculação são poucos e discordantes. O que constrói músculo é a somatória de treino de força progressivo, proteína suficiente ao longo do dia e energia adequada. A beterraba é um item de desempenho aeróbio e intermitente, não de hipertrofia.
Preciso tomar em jejum para absorver melhor?
Não. A absorção do nitrato é alta e não depende de estômago vazio. Tomar junto de uma refeição é inclusive melhor para quem sente desconforto com o suco puro. O que importa é respeitar a janela de 2 a 3 horas antes do esforço.
Beterraba com limão ou com laranja funciona melhor?
Não existe evidência de que a vitamina C do cítrico aumente o efeito ergogênico. A combinação faz sentido por sabor e por deixar o suco mais palatável, o que ajuda na adesão. O que faz diferença real é a quantidade de nitrato e o horário.
Quem tem cálculo renal pode usar beterraba pré-treino?
A beterraba tem teor considerável de oxalato, e quem já teve cálculo de oxalato de cálcio costuma receber orientação de moderar alimentos ricos nesse composto. Nesse caso, o consumo em dose alta e diária merece conversa com o médico que acompanha o quadro e ajuste individual do plano alimentar, em vez de decisão por conta própria.
Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026
Referências
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