
Suplementação
Pré treino faz mal? O que tem dentro do pote
Resposta rápida: pré-treino não faz mal por definição, mas a fórmula fechada de muitos produtos torna difícil saber o que você está tomando e em que quantidade. O ingrediente que sustenta quase todo o efeito é a cafeína, e o problema aparece quando ela se soma ao café do dia e passa da faixa considerada segura para adultos saudáveis. Formigamento vem da beta-alanina e é inofensivo. O que exige atenção é blend proprietário sem dose declarada, estimulante exótico não autorizado, e uso por quem tem pressão alta, arritmia ou ansiedade, situações em que quem decide é o médico.
Neste artigo
- O que tem dentro do pote de pré-treino?
- Quanta cafeína é demais?
- Pré-treino faz mal ao coração e à pressão?
- Por que ele piora ansiedade e atrapalha o sono?
- De onde vêm o formigamento, o enjoo e a dor de barriga?
- O que é blend proprietário e por que desconfiar?
- Quais ingredientes têm evidência e quais têm só marketing?
- Quando ele faz sentido, e o que usar no lugar?
O que tem dentro do pote de pré-treino?
Jagim, Harty e Camic analisaram em Nutrients os perfis de ingredientes de dezenas de pré-treinos comerciais e encontraram um padrão previsível. Cafeína aparece na quase totalidade dos produtos, seguida de beta-alanina, citrulina, tirosina, taurina, creatina e um punhado de vitaminas do complexo B em doses altas.
O achado mais relevante daquele levantamento não foi a lista, e sim a dose: uma parcela grande dos produtos declarava quantidades abaixo das usadas nos estudos que sustentam cada ingrediente. Ou seja, o rótulo cita a substância certa em quantidade que não produz o efeito descrito na literatura.
Isso muda a resposta à pergunta do título. O risco maior de um pré-treino comum não é toxicidade: é pagar caro por cafeína com corante e aroma. O risco real aparece em produtos com estimulantes múltiplos somados e em fórmulas que escondem as doses.
Quanta cafeína é demais?
A EFSA, agência europeia de segurança dos alimentos, revisou a segurança da cafeína e concluiu que doses únicas de até 200 miligramas e ingestões habituais de até 400 miligramas por dia não levantam preocupação de segurança para adultos saudáveis da população geral. Para gestantes, o limite indicado é menor, 200 miligramas por dia.
Um pré-treino costuma trazer entre 150 e 400 miligramas por porção. Some ao café da manhã, ao cafezinho da tarde e ao refrigerante do almoço e é fácil ultrapassar os 400 miligramas sem perceber. Foi por isso que passei a pedir, na anamnese, o levantamento de todas as fontes de cafeína do dia, não só do suplemento.
Do lado do desempenho, a faixa estudada com efeito consistente fica entre 3 e 6 miligramas por quilo de peso, tomada de 30 a 60 minutos antes do esforço, conforme o posicionamento da International Society of Sports Nutrition assinado por Guest e colaboradores. Grgic e colaboradores, numa revisão guarda-chuva de 21 meta-análises publicada no British Journal of Sports Medicine, confirmaram efeito pequeno a moderado sobre desempenho aeróbio, força e potência. Doses acima dessa faixa não aumentam o efeito e aumentam os sintomas.
Pré-treino faz mal ao coração e à pressão?
Cafeína eleva pressão arterial de forma aguda e transitória, e o efeito é maior em quem consome pouco habitualmente. Em adultos saudáveis, essa elevação é bem tolerada. O quadro é diferente em quem tem hipertensão não controlada, arritmia, cardiopatia ou histórico de palpitação, e nesses casos a decisão de usar ou não estimulante é médica, não minha.
Harty e colaboradores revisaram em periódico da International Society of Sports Nutrition as implicações de segurança dos suplementos multi-ingredientes de pré-treino. A conclusão foi que os produtos avaliados em estudos controlados, em adultos saudáveis e por períodos de até algumas semanas, não produziram eventos adversos relevantes, mas os autores ressaltam a escassez de dados de uso prolongado e a variabilidade entre fórmulas.
O ponto que merece cuidado real são os estimulantes que aparecem fora da lista autorizada. Cohen e colaboradores identificaram e quantificaram, em Clinical Toxicology, a presença de higenamina em suplementos de emagrecimento e esportivos, com doses que variaram enormemente entre produtos e que em vários casos não correspondiam ao rótulo. Produto importado por conta própria, sem registro nacional, é onde esse tipo de problema se concentra.
Por que ele piora ansiedade e atrapalha o sono?
A cafeína bloqueia receptores de adenosina, a molécula que sinaliza cansaço ao longo do dia. O efeito é de alerta, e em quem já é sensível ele se manifesta como taquicardia, inquietação, tremor e sensação de aperto no peito. Temple e colaboradores revisaram em Frontiers in Psychiatry a segurança da cafeína ingerida e descrevem essa variação individual como uma das mais amplas entre substâncias de uso comum.
A meia-vida da cafeína em adultos saudáveis gira em torno de 4 a 6 horas, com variação genética grande. Isso significa que metade dos 300 miligramas do seu pré-treino das 19 horas ainda está circulando à meia-noite. Quem treina à noite e reclama de insônia raramente conecta as duas coisas.
No consultório, quando alguém chega com sono ruim, irritabilidade e treino de fim de tarde, o pré-treino é a primeira coisa que eu peço para testar sem. Duas semanas costumam bastar para a pessoa perceber a diferença. Quem quer treinar sem estimulante e sem comida antes tem outras questões a resolver, e eu trato delas em treinar em jejum na musculação.
De onde vêm o formigamento, o enjoo e a dor de barriga?
O formigamento no rosto, nas mãos e no couro cabeludo é parestesia causada pela beta-alanina. É um efeito conhecido, descrito no posicionamento da International Society of Sports Nutrition sobre beta-alanina assinado por Trexler e colaboradores, e não indica dano. Ele aparece com doses acima de 800 miligramas de uma vez e passa em 20 a 60 minutos.
Curiosamente, esse sintoma virou argumento de venda: muita gente acha que o pré-treino “está funcionando” porque formiga. A parestesia não tem relação nenhuma com o efeito ergogênico da beta-alanina, que depende de uso diário por semanas para elevar a carnosina muscular, e não de uma dose antes do treino.
O enjoo e a dor de barriga costumam vir de três fontes: cafeína em dose alta com estômago vazio, concentração excessiva da bebida quando se usa pouca água, e adoçantes de açúcar como sorbitol e maltitol em algumas fórmulas. Diluir mais, tomar com um alimento leve e reduzir a porção pela metade resolve a maioria dos casos.
Formigar não é sinal de que está funcionando
A parestesia da beta-alanina é uma resposta nervosa periférica e desaparece em menos de uma hora. O benefício documentado da beta-alanina vem do acúmulo de carnosina no músculo após semanas de uso, em faixas de 4 a 6 gramas por dia, e se aplica sobretudo a esforços de 1 a 4 minutos de duração alta. Escolher pré-treino pela intensidade do formigamento é escolher pelo sintoma menos informativo do pote.
O que é blend proprietário e por que desconfiar?
Blend proprietário é aquela linha do rótulo que declara “matriz energética 6.500 mg” e depois lista oito ingredientes sem dizer quanto tem de cada um. A lei permite, sob argumento de segredo industrial, e o consumidor fica sem a informação que mais importa.
O problema prático é duplo. Primeiro, você não sabe se a citrulina está nos 6 a 8 gramas dos estudos ou em 500 miligramas simbólicos. Segundo, você não sabe quanta cafeína está tomando, o que impede qualquer controle de dose diária. Como a cafeína costuma ser barata e efetiva, ela tende a ocupar a maior parte da mistura.
A recomendação que dou é simples: se o rótulo não declara a quantidade de cada ingrediente, não compre. Existe produto suficiente no mercado com rotulagem transparente e registro nacional para não ser preciso apostar.
Quais ingredientes têm evidência e quais têm só marketing?
A tabela abaixo separa o que aparece nos rótulos por nível de sustentação científica e pela dose que a literatura usa. Faixa de dose estudada não é recomendação individual: quem ajusta isso ao seu caso é o profissional que acompanha você.
| Ingrediente | Evidência para desempenho | Faixa estudada | Efeito indesejado mais comum |
|---|---|---|---|
| Cafeína | Boa e consistente | 3 a 6 mg/kg antes do esforço | Insônia, ansiedade, taquicardia |
| Creatina | Boa, mas por uso diário | 3 a 5 g por dia | Retenção de água discreta |
| Beta-alanina | Moderada, esforços de 1 a 4 min | 4 a 6 g por dia por semanas | Formigamento transitório |
| Citrulina malato | Modesta e inconsistente | 6 a 8 g antes do treino | Desconforto gástrico |
| Nitrato de beterraba | Moderada em resistência | 6 a 8 mmol de nitrato | Urina avermelhada |
| Tirosina, taurina, complexo B | Fraca no contexto de treino | Muito variável | Urina amarelo intenso |
| Estimulantes exóticos | Ausente e com risco | Sem faixa segura definida | Efeitos cardiovasculares |
Quando ele faz sentido, e o que usar no lugar?
Faz sentido para quem treina cedo demais ou tarde demais para contar com disposição natural, para quem tem sessão longa e pesada pela frente e para quem responde bem à cafeína sem sintomas. Nesses casos, o pré-treino é uma forma prática de tomar cafeína, e nada mais que isso.
Para todo o resto, café resolve. Uma xícara de café coado de 150 mililitros entrega perto de 80 a 100 miligramas de cafeína, custa centavos e permite controle exato da dose. Somar creatina em pó separadamente, em 3 a 5 gramas diários, cobre o outro ingrediente com sustentação real. Sobre a segurança dela, que gera dúvida frequente, escrevi em creatina faz mal para o rim.
Quem busca o efeito de vasodilatação prometido nos rótulos costuma ter mais retorno com nitrato alimentar do que com citrulina em dose baixa, assunto que detalho em beterraba no pré-treino. E antes de qualquer pote, a pergunta que eu faço na primeira consulta é se a pessoa dormiu e comeu o suficiente, porque estimulante mascara déficit, não corrige. Esse é o tipo de ajuste que construo no acompanhamento de nutrição esportiva.
Perguntas frequentes
Pré-treino pode causar dependência?
Cafeína gera tolerância e sintomas de abstinência, como dor de cabeça, sonolência e irritabilidade, que aparecem 12 a 24 horas depois da última dose e duram alguns dias. Não é dependência no sentido clínico das substâncias de abuso, mas é o suficiente para você sentir que “não treina sem”. Reduzir aos poucos, ao longo de uma a duas semanas, costuma evitar o desconforto.
Quem tem pressão alta pode tomar pré-treino?
Essa decisão é do médico que acompanha o caso, porque envolve o controle da pressão, a medicação em uso e a resposta individual à cafeína. O que posso dizer é que estimulantes elevam a pressão de forma aguda e que produtos com blend proprietário impedem saber a dose ingerida, o que torna a avaliação mais difícil. Leve o rótulo na consulta.
Pré-treino sem cafeína funciona?
Ele deixa de ter o ingrediente com maior efeito documentado. O que sobra depende da fórmula: citrulina, beta-alanina e nitrato têm efeitos menores e mais específicos, e beta-alanina só funciona por uso diário prolongado. Faz sentido para quem não tolera estimulante, com expectativa ajustada.
Posso tomar pré-treino em jejum?
Pode, mas é onde o enjoo e o tremor mais aparecem, porque a absorção é mais rápida e não há alimento amortecendo. Se você treina cedo e não come antes, use metade da dose diluída em mais água e avalie a tolerância. Sensação ruim recorrente é sinal para reduzir ou parar.
Adolescente pode usar pré-treino?
Não é o caminho. As recomendações de cafeína para menores de 18 anos são mais restritivas, e não há dados de segurança de fórmulas multi-ingredientes nessa faixa etária. O que sustenta treino em adolescente é comida suficiente, sono e progressão bem orientada, e qualquer suplemento nessa idade merece avaliação individual.
Vale a pena fazer ciclos de pausa do pré-treino?
Faz sentido do ponto de vista da tolerância à cafeína, que se instala em poucos dias de uso contínuo. Períodos de uma a duas semanas sem estimulante, algumas vezes por ano, costumam devolver a sensibilidade. Outra estratégia é reservar o pré-treino para as sessões mais exigentes da semana, em vez de usar todo dia.
Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026
Referências
- Guest NS, VanDusseldorp TA, Nelson MT, et al. International society of sports nutrition position stand: caffeine and exercise performance. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2021;18(1):1. DOI: 10.1186/s12970-020-00383-4
- Grgic J, Grgic I, Pickering C, Schoenfeld BJ, Bishop DJ, Pedisic Z. Wake up and smell the coffee: caffeine supplementation and exercise performance, an umbrella review of 21 published meta-analyses. British Journal of Sports Medicine. 2020;54(11):681-688. DOI: 10.1136/bjsports-2018-100278
- EFSA Panel on Dietetic Products, Nutrition and Allergies. Scientific Opinion on the safety of caffeine. EFSA Journal. 2015;13(5):4102. DOI: 10.2903/j.efsa.2015.4102
- Temple JL, Bernard C, Lipshultz SE, Czachor JD, Westphal JA, Mestre MA. The Safety of Ingested Caffeine: A Comprehensive Review. Frontiers in Psychiatry. 2017;8:80. DOI: 10.3389/fpsyt.2017.00080
- Harty PS, Zabriskie HA, Erickson JL, Molling PE, Kerksick CM, Jagim AR. Multi-ingredient pre-workout supplements, safety implications, and performance outcomes: a brief review. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2018;15(1):41. DOI: 10.1186/s12970-018-0247-6
- Jagim AR, Harty PS, Camic CL. Common Ingredient Profiles of Multi-Ingredient Pre-Workout Supplements. Nutrients. 2019;11(2):254. DOI: 10.3390/nu11020254
- Trexler ET, Smith-Ryan AE, Stout JR, et al. International society of sports nutrition position stand: Beta-Alanine. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2015;12(1):30. DOI: 10.1186/s12970-015-0090-y
- Cohen PA, Travis JC, Keizers PHJ, Boyer FE, Venhuis BJ. The stimulant higenamine in weight loss and sports supplements. Clinical Toxicology. 2019;57(2):125-130. DOI: 10.1080/15563650.2018.1497171