
Nutrição Esportiva
Palatinose: para que serve e se ela engorda
Resposta rápida: palatinose é o nome comercial da isomaltulose, um carboidrato feito a partir da sacarose que tem as mesmas 4 calorias por grama e a mesma glicose e frutose no final, só que liberadas devagar. Ela serve para quem quer energia sustentada em treino longo, ou para quem passa mal com pico e queda de açúcar antes de treinar. Não emagrece nem queima gordura por conta própria: o que ela faz é deslocar um pouco o uso de substrato durante o esforço. E sim, ela entra na conta de calorias como qualquer outro carboidrato.
Neste artigo
O que é palatinose e de onde ela vem?
Isomaltulose é um dissacarídeo formado por glicose e frutose, exatamente como a sacarose, mas com uma ligação diferente entre as duas moléculas. Na sacarose a ligação é alfa-1,2; na isomaltulose é alfa-1,6. Essa mudança pequena tem consequência grande: a enzima que quebra a ligação alfa-1,6 no intestino trabalha bem mais devagar.
Ela é produzida industrialmente a partir do açúcar de beterraba ou de cana, por rearranjo enzimático. Também aparece naturalmente em quantidades pequenas no mel e no caldo de cana. Palatinose é a marca registrada mais conhecida, e por isso virou sinônimo do ingrediente no mercado de suplementos.
O ponto que costuma surpreender quem chega ao consultório é que o produto final absorvido é o mesmo: glicose e frutose. Nada é desviado, nada deixa de ser aproveitado. Lina, Jonker e Kozianowski revisaram os estudos biológicos e toxicológicos da isomaltulose e descreveram absorção completa no intestino delgado, sem fração relevante chegando ao cólon em doses habituais.
Por que a curva de glicemia dela é mais baixa?
Porque a quebra é o passo lento. A sacarose se desfaz em segundos e despeja glicose na circulação; a isomaltulose leva várias vezes mais tempo para ser hidrolisada, e a glicose entra aos poucos. O resultado é um pico glicêmico menor e mais espalhado, com menos insulina para a mesma quantidade de carboidrato.
Van Can e colaboradores mediram isso de forma direta no British Journal of Nutrition: com a mesma carga de carboidrato, a isomaltulose gerou respostas de glicose e de insulina menores que a sacarose, e a oxidação de gordura ao longo do período pós-refeição ficou mais alta. Holub e colaboradores, no mesmo periódico, encontraram padrão semelhante em estudo com voluntários adultos.
Menos insulina não é sinônimo de melhor para todo mundo. Depois de um treino pesado, insulina é justamente o que você quer para repor glicogênio rápido, e nesse cenário a palatinose é a escolha errada. O contexto define se a curva lenta é vantagem ou desvantagem.
Palatinose melhora o desempenho no treino?
Os dados são modestos e específicos. König e colaboradores publicaram em Nutrients um ensaio duplo-cego com ciclistas treinados que ingeriram isomaltulose ou maltodextrina antes de uma sessão longa. O grupo com isomaltulose manteve glicemia mais estável, oxidou mais gordura e teve desempenho melhor no bloco final de esforço.
Achten e colaboradores, por outro lado, mostraram no Journal of Nutrition que a oxidação do carboidrato vindo da isomaltulose durante o exercício é menor que a da sacarose. Ou seja: ela entra devagar, e parte do que você ingere não fica disponível como combustível no tempo do esforço. Para prova longa em que você precisa de 60 a 90 gramas de carboidrato por hora chegando ao músculo, isso é limitação, não vantagem.
A leitura que faço é de nicho: palatinose se encaixa antes do treino, para quem sente hipoglicemia de rebote com carboidrato rápido, e em esforços de intensidade moderada e longa duração em que estabilidade importa mais que velocidade de entrega. Durante prova intensa, as recomendações de carboidrato por hora organizadas por Jeukendrup em Sports Medicine continuam pedindo fontes de absorção rápida.
Ela faz o corpo usar mais gordura?
Faz, no sentido estrito e limitado da palavra. Com menos insulina circulando, a lipólise fica menos suprimida e a proporção de gordura oxidada durante aquele período sobe. Isso aparece de forma consistente nos estudos de König e de van Can.
O que não se conclui daí é emagrecimento. Oxidar mais gordura durante uma hora de exercício não significa perder mais gordura corporal ao fim de semanas, porque o balanço energético das 24 horas manda no resultado. Se o total de calorias é o mesmo, a composição do combustível usado durante o treino tende a se compensar ao longo do dia.
Essa é a confusão mais vendida no rótulo de suplemento, e vale desarmar: substrato usado no momento e gordura corporal perdida no mês são duas contas diferentes.
Palatinose tem as mesmas calorias do açúcar
Isomaltulose fornece 4 quilocalorias por grama, exatamente como a sacarose, a maltodextrina e a dextrose. Ela é absorvida por completo no intestino delgado, sem perda energética. O que muda é a velocidade, não o valor calórico. Qualquer material que sugira que ela “não conta” na dieta está errado.
Palatinose engorda?
Ela engorda tanto quanto qualquer carboidrato: se somar calorias além do que você gasta, contribui para ganho de peso. A pergunta faz sentido porque a palatinose é vendida com apelo de baixo índice glicêmico, e muita gente traduz isso como “não engorda”. Não é assim que funciona.
O cenário em que eu vejo ganho de peso indesejado é quando a pessoa adiciona 50 gramas de palatinose ao pré-treino de uma caminhada de 40 minutos. São 200 calorias somadas para um esforço que não pedia combustível extra. Repetido cinco vezes por semana, isso é 1.000 calorias por semana que ninguém contabilizou.
O uso que faz sentido é o oposto: substituir um carboidrato que já estava no plano, não acrescentar. Quem precisa somar energia para ganhar peso tem outras ferramentas, e eu comparo as opções em hipercalórico vale a pena.
Como ela se compara aos outros carboidratos de suplemento?
A tabela abaixo resume as diferenças que importam na decisão. Os valores de índice glicêmico são de referência e variam conforme o método e a refeição em que o carboidrato é consumido.
| Carboidrato | Velocidade de absorção | Índice glicêmico aproximado | Calorias por grama | Melhor momento |
|---|---|---|---|---|
| Palatinose (isomaltulose) | Lenta | Cerca de 32 | 4 kcal | Antes do treino longo |
| Sacarose | Rápida | Cerca de 65 | 4 kcal | Durante o esforço |
| Dextrose (glicose) | Muito rápida | Cerca de 100 | 4 kcal | Durante e logo após |
| Maltodextrina | Muito rápida | Cerca de 105 | 4 kcal | Durante e logo após |
| Waxy maize | Variável, depende do processo | Alto na maioria | 4 kcal | Durante e logo após |
| Aveia ou fruta | Lenta a moderada | Baixo a médio | Varia com a fibra | Refeição antes do treino |
Quanto usar e em que momento?
As doses usadas nos estudos com exercício costumam ficar entre 0,7 e 1 grama por quilo de peso, ingeridas de 45 a 60 minutos antes do esforço. Para uma pessoa de 70 quilos, isso significa algo entre 50 e 70 gramas diluídos em água ou em uma bebida.
O intervalo mais longo antes do treino é parte do desenho: como a absorção é lenta, tomar 15 minutos antes não entrega a estabilidade prometida. Quem toma em cima da hora acaba com o carboidrato chegando no meio do treino, o que pode gerar desconforto abdominal em parte das pessoas.
Amano e colaboradores examinaram em Experimental Physiology o efeito da ingestão de isomaltulose sobre a reidratação e as respostas de perda de calor depois do exercício, e observaram diferenças em relação à glicose. É mais um sinal de que a escolha do carboidrato tem efeitos além da glicemia, e mais um motivo para testar no treino antes de usar em prova.
Quem não precisa de palatinose?
A maioria das pessoas que treina. Quem faz musculação de 50 a 70 minutos não tem problema de glicemia para resolver e não precisa de carboidrato de liberação lenta comprado em pote. Uma fruta, um pão ou a refeição de duas horas antes cumprem a função com custo muito menor.
Também não precisa quem busca reposição rápida depois do treino, quem faz esforço curto e intenso, e quem está em déficit calórico apertado, porque nesse caso cada caloria adicionada de suplemento tira espaço de comida com mais nutrientes.
Já vejo utilidade real em três situações: pessoas com hipoglicemia reativa documentada que passam mal com carboidrato rápido antes de treinar, atletas de ultrarresistência que precisam de um aporte de base longo, e quem tem diabetes e treina, sempre com o ajuste feito junto ao médico que acompanha o caso, porque quem prescreve e ajusta medicação é ele. Suplementos com apelo de rendimento em geral seguem essa mesma lógica de nicho, como discuto em arginina para que serve e em nutrição esportiva.
Perguntas frequentes
Palatinose é indicada para quem tem diabetes?
Ela produz resposta glicêmica menor que a sacarose com a mesma carga de carboidrato, e por isso aparece em produtos voltados a esse público. Ainda assim é carboidrato, precisa entrar na contagem e não substitui tratamento. Quem tem diabetes deve ajustar o uso com o médico e o nutricionista que acompanham o caso, porque o efeito depende da medicação e do controle glicêmico atual.
Palatinose causa gases ou desconforto intestinal?
Em doses habituais, pouco, porque a absorção acontece no intestino delgado. Em doses grandes de uma vez, sobretudo acima de 75 gramas, parte pode escapar à digestão completa e gerar estufamento e flatulência. Começar com metade da dose e testar em treino, nunca em prova, é o caminho sensato.
Posso misturar palatinose com maltodextrina?
Pode, e é uma combinação usada por quem quer entrega imediata somada a um aporte mais longo. Faz sentido em esforços acima de duas horas. Para treino comum de academia, a mistura é complexidade sem retorno prático.
Palatinose serve para o pós-treino?
É a pior aplicação dela. Depois do treino, o objetivo é repor glicogênio, e velocidade de entrega ajuda, sobretudo quando há outro treino em poucas horas. Nesse momento, dextrose, maltodextrina ou simplesmente uma refeição com arroz e fruta cumprem melhor o papel.
Ela estraga os dentes como o açúcar comum?
A isomaltulose é considerada não cariogênica, porque as bactérias da placa dental a fermentam muito pouco. Esse é um dos motivos do uso dela em produtos infantis e em bebidas. Isso não muda nada sobre a conta de calorias.
Existe alimento que faça o mesmo papel?
Existe, e costuma custar menos. Aveia, batata-doce, pão integral e frutas com fibra entregam carboidrato de forma gradual e ainda trazem fibra, vitaminas e minerais. A palatinose ganha em praticidade quando você precisa de líquido, não tolera volume de comida antes do treino ou precisa de dose exata.
Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026
Referências
- Lina BAR, Jonker D, Kozianowski G. Isomaltulose (Palatinose): a review of biological and toxicological studies. Food and Chemical Toxicology. 2002;40(10):1375-1381. DOI: 10.1016/S0278-6915(02)00105-9
- van Can JGP, IJzerman TH, van Loon LJC, Brouns F, Blaak EE. Reduced glycaemic and insulinaemic responses following isomaltulose ingestion: implications for postprandial substrate use. British Journal of Nutrition. 2009;102(10):1408-1413. DOI: 10.1017/S0007114509990687
- Holub I, Gostner A, Theis S, et al. Novel findings on the metabolic effects of the low glycaemic carbohydrate isomaltulose (Palatinose). British Journal of Nutrition. 2010;103(12):1730-1737. DOI: 10.1017/S0007114509993874
- König D, Zdzieblik D, Holz A, Theis S, Gollhofer A. Substrate Utilization and Cycling Performance Following Palatinose Ingestion: A Randomized, Double-Blind, Controlled Trial. Nutrients. 2016;8(7):390. DOI: 10.3390/nu8070390
- Achten J, Jentjens RL, Brouns F, Jeukendrup AE. Exogenous Oxidation of Isomaltulose Is Lower than That of Sucrose during Exercise in Men. The Journal of Nutrition. 2007;137(5):1143-1148. DOI: 10.1093/jn/137.5.1143
- Amano T, Sugiyama Y, Okumura J, et al. Effects of isomaltulose ingestion on postexercise hydration state and heat loss responses in young men. Experimental Physiology. 2019;104(10):1494-1504. DOI: 10.1113/EP087843
- Jeukendrup AE. A Step Towards Personalized Sports Nutrition: Carbohydrate Intake During Exercise. Sports Medicine. 2014;44(Suppl 1):25-33. DOI: 10.1007/s40279-014-0148-z