Marcos Hirata

Nutrição Esportiva

Cãibra na corrida: o que fazer e o que a comida resolve

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: na hora, pare, alongue devagar o músculo que travou e mantenha o alongamento até soltar. É o que resolve mais rápido, porque a cãibra do exercício é um problema de controle neuromuscular, não de falta de um nutriente específico. Na prevenção, o que tem melhor sustentação é treinar na intensidade que você vai correr, não largar acima do ritmo treinado e evitar déficit grande de sódio em provas longas e quentes. Banana na largada não previne cãibra, e magnésio para cãibra de exercício não tem evidência que sustente o uso.

O que fazer na hora da cãibra?

Interrompa o movimento e alongue passivamente o músculo afetado. Para a panturrilha, que é o caso mais comum na corrida, apoie a ponta do pé numa guia ou puxe o pé em direção à canela com a perna estendida, e segure. Para o posterior de coxa, estenda o joelho e incline o tronco à frente. Não force com solavanco: o alongamento sustentado é que interrompe o episódio.

Esse é o único tratamento agudo com boa sustentação, e ele funciona porque atua exatamente onde o problema está. O alongamento aumenta a tensão no órgão tendinoso de Golgi, o que inibe por via reflexa a atividade excessiva do motoneurônio alfa que está mantendo o músculo contraído.

Depois que soltar, volte a correr num ritmo mais leve por alguns minutos antes de retomar o pace. A musculatura que teve cãibra fica com o limiar mais baixo por um tempo, e retomar direto no ritmo anterior costuma trazer o episódio de volta em poucos minutos.

O que causa a cãibra na corrida?

Durante décadas a explicação padrão foi desidratação e perda de eletrólitos. A pesquisa dos últimos vinte anos mudou bastante esse quadro. Schwellnus propôs no British Journal of Sports Medicine a hipótese do controle neuromuscular alterado: com a fadiga, aumenta a atividade dos fusos musculares e diminui a inibição vinda do órgão tendinoso de Golgi, e o músculo entra em contração sustentada involuntária.

O dado de campo que mais pesa vem do próprio Schwellnus com Drew e Collins, também no British Journal of Sports Medicine. Eles acompanharam corredores em prova e encontraram que velocidade de corrida mais alta que a habitual e histórico prévio de cãibra previam os episódios, enquanto marcadores de hidratação e sódio sérico não diferiram entre quem teve e quem não teve cãibra.

A revisão baseada em evidências de Miller e colaboradores no Journal of Athletic Training reúne as duas linhas e chega a um lugar equilibrado: a causa provavelmente não é única. Existe um subgrupo em que a perda grande de sódio parece contribuir, e existe um grupo maior em que o gatilho é fadiga neuromuscular por esforço acima do treinado.

HipóteseO que propõeForça da evidênciaO que fazer com isso
Fadiga neuromuscularDesequilíbrio entre excitação e inibição do motoneurônioBoa, com dados de campo e laboratórioTreinar o ritmo de prova, respeitar o pace
Depleção de sódioPerda alta de sódio no suor reduz o limiar de contraçãoParcial, provável em subgrupo de suadores salgadosRepor sódio em prova longa e quente
Desidratação isoladaPerda de água como causa diretaFraca, não confirmada em campoHidratar por sede, sem exagero
Falta de potássioBaixo potássio dietético causaria cãibraMuito fraca em pessoas saudáveisAlimentação variada resolve
Falta de magnésioDeficiência de magnésio como causaSem sustentação para cãibra de exercícioNão usar suplemento com essa finalidade

Falta de sal causa cãibra?

Pode contribuir em quem perde muito sódio no suor e corre por muito tempo no calor sem repor nada. Baker revisou em Sports Medicine a variabilidade da taxa de sudorese e da concentração de sódio no suor, e as faixas entre pessoas são enormes. Duas pessoas correndo lado a lado podem ter perdas de sódio muito diferentes na mesma hora de prova.

Os sinais práticos que apontam para esse subgrupo são conhecidos: marca esbranquiçada de sal na viseira, no boné e na camiseta seca; ardência quando o suor entra no olho; histórico de cãibra sempre em provas longas e quentes, quase nunca em treino curto. Se esse é o seu perfil, a reposição de sódio em prova longa merece atenção, tema que eu detalho em como repor sódio na corrida.

O que não sustenta é o oposto: encher de cápsula de sal quem tem cãibra em prova de 10 km com clima ameno. Nesse cenário a perda de sódio é pequena, o sódio não é o fator, e o excesso só produz desconforto gástrico e sede. O posicionamento do American College of Sports Medicine sobre reposição hídrica trata o sódio como parte da bebida em situação de sudorese alta e prolongada, não como profilaxia universal de cãibra.

Banana e potássio resolvem?

Não da forma como se imagina. Uma banana média tem cerca de 400 miligramas de potássio, e o potássio ingerido leva de 30 a 60 minutos para ser absorvido e distribuído. Comer banana no quilômetro 30 não muda o potássio muscular a tempo de nada.

Além disso, o potássio plasmático em corredores de prova raramente está baixo. Ele até tende a subir durante o esforço, pela saída de potássio da célula muscular em contração. A cãibra do exercício não acontece num cenário de hipocalemia.

Isso não torna a banana inútil. Ela é uma boa fonte de carboidrato durante o esforço, e o carboidrato adequado ajuda a adiar a fadiga, que é o fator que realmente se associa à cãibra. A banana funciona pelo carboidrato, não pelo potássio, e essa distinção muda o que você espera dela.

Cãibra quase sempre tem endereço de ritmo

Quando alguém me procura com cãibra recorrente em prova, a primeira coisa que eu peço é a comparação entre o pace treinado e o pace do dia da prova. Na maioria absoluta dos casos a pessoa largou 20 a 30 segundos por quilômetro acima do que treinou, empolgada com a largada. Nenhum ajuste alimentar corrige isso. O que corrige é largar no ritmo que a perna conhece.

Magnésio funciona para cãibra?

Para cãibra associada ao exercício, não há evidência que sustente o uso. A revisão Cochrane conduzida por Garrison e colaboradores avaliou magnésio para cãibra muscular esquelética e concluiu que é improvável que a suplementação forneça benefício clinicamente relevante para cãibra em adultos, sendo os dados em atletas escassos demais para qualquer conclusão.

Isso não significa que magnésio seja irrelevante em nutrição. Ele participa de centenas de reações e a ingestão adequada importa. O que não se sustenta é a ideia de tomar magnésio como tratamento ou prevenção de cãibra de corrida, que é a promessa mais vendida em suplemento no Brasil.

Maughan e Shirreffs revisaram o tema em Sports Medicine e resumem bem a situação: as causas continuam parcialmente indefinidas, as soluções populares em geral não resistem ao teste, e o que sobra de mais confiável é o alongamento agudo e a preparação de treino adequada. Quem tem deficiência documentada de algum mineral em exame é caso individual, avaliado com o médico.

Por que suco de picles e mostarda aliviam?

Porque o alívio não vem do que está dentro do frasco, e sim do reflexo que o sabor provoca. Miller e colaboradores publicaram na Medicine and Science in Sports and Exercise um experimento com cãibras induzidas eletricamente em voluntários desidratados: o suco de picles encurtou a duração da cãibra em comparação com água, e o efeito apareceu rápido demais para ser explicado por absorção de eletrólitos.

A explicação mais aceita é a inibição reflexa a partir de receptores da orofaringe, que reduz a atividade do motoneurônio alfa. Ou seja, funciona como um interruptor neural disparado pelo estímulo forte na boca. Mostarda amarela e outras soluções muito ácidas ou picantes têm sido usadas com a mesma lógica.

Na prática, é um recurso de emergência, não uma estratégia. Um sachê de mostarda no bolso da meia maratona é aceitável e barato. Mas se você depende disso todo mês, o problema está no ritmo, no volume de treino ou no plano de prova, e é ali que se resolve.

Como reduzir a chance de cãibra na prova?

A prevenção com melhor sustentação é de treino, não de nutrição. Correr regularmente no ritmo pretendido para a prova, incluir treinos longos com a intensidade que se pretende sustentar e não largar acima do pace treinado cobrem a maior parte dos casos.

Do lado alimentar, três coisas ajudam de forma indireta. Chegar à prova com o glicogênio bem reposto, o que se resolve nos dias anteriores e não na manhã do dia, assunto que eu trato em o que comer na véspera da prova. Manter carboidrato durante o esforço, na faixa de 30 a 60 gramas por hora acima de uma hora de prova. E repor sódio em provas longas e quentes, especialmente se você tem o perfil de suador salgado.

Some a isso o trabalho de força regular. Musculatura mais forte e mais resistente à fadiga chega ao fim da prova com margem maior, e é justamente a fadiga que aproxima o músculo do limiar de cãibra. A combinação de corrida com trabalho de força tem sua própria lógica de alimentação, que eu explico em alimentação para corrida e musculação.

Quando a cãibra deixa de ser assunto de treino

Cãibra que aparece em repouso, à noite, sem relação com esforço, é outra história. O mesmo vale para cãibra acompanhada de fraqueza persistente, formigamento, alteração de sensibilidade, urina muito escura depois do exercício, ou cãibra que se torna frequente logo depois do início de uma medicação nova.

Nessas situações a investigação é médica. Existem causas metabólicas, endócrinas, neurológicas e medicamentosas para cãibra, e nenhuma delas se resolve com ajuste de bebida esportiva. Nutricionista não fecha diagnóstico, e insistir em suplemento enquanto o quadro não foi investigado só adia a solução.

Para o corredor comum, com cãibra ocasional em prova, o caminho é bem mais simples do que a internet sugere: ritmo compatível com o treino, carboidrato durante o esforço, sódio quando o contexto pede e alongamento imediato quando acontecer. Se quiser montar esse plano de forma individual, é o tipo de trabalho que eu faço no acompanhamento de nutrição esportiva.

Perguntas frequentes

Cãibra na panturrilha durante a corrida é sempre falta de sal?

Não. A panturrilha é o local mais comum porque é a musculatura mais exigida na corrida e a que fadiga primeiro. Os dados de campo mostram associação mais forte com ritmo acima do treinado e com histórico prévio de cãibra do que com sódio sérico ou hidratação.

Cápsula de sal previne cãibra?

Pode ajudar no subgrupo que perde muito sódio em provas longas e quentes. Não há sustentação para uso rotineiro em provas curtas ou em clima ameno, e o excesso costuma causar desconforto gástrico e sede. A decisão depende da duração da prova, do calor e do seu perfil de suor.

Alongar antes de correr previne cãibra?

O alongamento estático antes do treino não tem boa evidência de prevenção de cãibra e pode reduzir levemente a produção de força imediata. O alongamento é eficaz como tratamento agudo, durante o episódio, e não como profilaxia feita na largada.

Tomar isotônico o tempo todo evita cãibra?

Bebida esportiva ajuda a manter hidratação, carboidrato e sódio em provas longas, o que reduz a fadiga e indiretamente a chance de cãibra. Mas ela não é um escudo: quem larga muito acima do ritmo treinado continua tendo cãibra mesmo bem hidratado.

Depois da cãibra, dá para terminar a prova?

Em geral sim, alongando até soltar e retomando num ritmo mais conservador. O que não vale é ignorar e forçar no mesmo pace, porque a recorrência é quase certa e o risco de lesão muscular aumenta. Dor aguda diferente da cãibra, com incapacidade de apoiar o pé, pede avaliação médica.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Schwellnus MP. Cause of exercise associated muscle cramps (EAMC): altered neuromuscular control, dehydration or electrolyte depletion? British Journal of Sports Medicine. 2009;43(6):401-408. DOI: 10.1136/bjsm.2008.050401
  2. Schwellnus MP, Drew N, Collins M. Increased running speed and previous cramps rather than dehydration or serum sodium changes predict exercise-associated muscle cramping: a prospective cohort study in 210 Ironman triathletes. British Journal of Sports Medicine. 2011;45(8):650-656. DOI: 10.1136/bjsm.2010.078535
  3. Miller KC, McDermott BP, Yeargin SW, Fiol A, Schwellnus MP. An Evidence-Based Review of the Pathophysiology, Treatment, and Prevention of Exercise-Associated Muscle Cramps. Journal of Athletic Training. 2022;57(1):5-15. DOI: 10.4085/1062-6050-0696.20
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  6. Garrison SR, Korownyk CS, Kolber MR, et al. Magnesium for skeletal muscle cramps. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2020;9:CD009402. DOI: 10.1002/14651858.CD009402.pub3
  7. Baker LB. Sweating Rate and Sweat Sodium Concentration in Athletes: A Review of Methodology and Intra/Interindividual Variability. Sports Medicine. 2017;47(S1):111-128. DOI: 10.1007/s40279-017-0691-5
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  9. Thomas DT, Erdman KA, Burke LM. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics, Dietitians of Canada, and the American College of Sports Medicine: Nutrition and Athletic Performance. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics. 2016;116(3):501-528. DOI: 10.1016/j.jand.2015.12.006

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