Marcos Hirata

Metabolismo

Quantas calorias se gasta num treino de musculação?

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: uma sessão de musculação de 45 a 60 minutos gasta, na maior parte dos adultos, entre 150 e 450 kcal. O que move esse intervalo é o peso corporal, o tempo real sob tensão e o tamanho dos intervalos entre séries. Um homem de 85 kg treinando pesado por uma hora, com descansos curtos, chega perto de 500 kcal; uma mulher de 55 kg num treino tranquilo de 45 minutos fica perto de 150 kcal. O consumo extra de oxigênio depois do treino soma algo entre 5% e 15% desse valor, não o dobro. Musculação vale muito pelo que ela preserva de massa magra, e não pela caloria que queima na hora.

Quantas calorias uma sessão de musculação gasta?

O número que a maioria das pessoas imagina é maior que o real, e a decepção costuma vir junto com a informação. Estudos que medem consumo de oxigênio durante treino resistido encontram gasto entre 4 e 9 kcal por minuto de sessão, contando os intervalos. Numa hora de treino isso fecha entre 240 e 540 kcal em quem tem porte médio ou grande, e bem menos em quem é leve.

A diferença central entre musculação e um exercício contínuo é que a musculação é intermitente. Uma série de agachamento dura 30 a 45 segundos e custa caro por segundo, mas ela é seguida de dois minutos parado. Se você somar apenas o tempo efetivamente trabalhando numa sessão de uma hora, talvez encontre 12 a 18 minutos de esforço real. O resto é reposição.

Scott e colaboradores mediram, com bastante cuidado, o custo energético de uma única série de supino levada até a falha, somando as vias aeróbia e anaeróbia e o consumo extra pós-série, e publicaram no Journal of Strength and Conditioning Research em 2011. O valor por série é de poucas quilocalorias. Multiplicado por 20 ou 25 séries, o total da sessão continua modesto perto do que a expectativa popular sugere.

Quanto isso dá para o meu peso e o meu treino?

A tabela abaixo usa os valores de MET do Compêndio de Atividades Físicas de 2011, na versão de Ainsworth e colaboradores: 3,5 MET para treino resistido de esforço leve a moderado, 5,0 MET para esforço moderado com intervalos médios e 6,0 MET para múltiplos exercícios de 8 a 15 repetições em esforço vigoroso. São estimativas de gasto bruto.

Peso corporal45 min, ritmo tranquilo60 min, ritmo moderado60 min, ritmo vigoroso
55 kg150 kcal290 kcal345 kcal
70 kg195 kcal370 kcal440 kcal
85 kg235 kcal445 kcal535 kcal
100 kg275 kcal525 kcal630 kcal

Repare que o peso corporal é a variável que mais mexe no resultado. Carregar 100 kg pela academia custa mais que carregar 55 kg fazendo exatamente os mesmos exercícios. Isso significa que a mesma rotina passa a gastar menos conforme a pessoa emagrece, o que é um dos motivos pelos quais o déficit calórico precisa ser revisado ao longo do processo.

Esses valores são brutos, ou seja, incluem o que você gastaria de qualquer jeito no mesmo período apenas por estar vivo. Para saber o custo líquido do treino, desconte aproximadamente 1 MET por hora, algo entre 55 e 100 kcal conforme o peso. É esse número líquido que representa o gasto adicional de verdade.

Como fazer a conta com o valor de MET?

A fórmula é direta: quilocalorias por minuto equivalem ao MET multiplicado por 3,5, multiplicado pelo peso em quilos, dividido por 200. Um MET representa o consumo de oxigênio em repouso, convencionado em 3,5 mililitros por quilo por minuto.

Exemplo com números: 5 MET, 80 kg, 50 minutos. A conta fica 5 vezes 3,5 vezes 80 dividido por 200, que dá 7 kcal por minuto. Multiplicando por 50 minutos, chegamos a 350 kcal brutas. Descontando o repouso do mesmo período, algo em torno de 70 kcal, o custo líquido do treino fica perto de 280 kcal.

A limitação dessa conta é que o MET assume um metabolismo de repouso padronizado, e o seu pode estar 10% acima ou abaixo dessa média. Quem quer trabalhar com números próprios em vez de médias populacionais mede o gasto de repouso por calorimetria indireta, e depois aplica os multiplicadores de atividade sobre o valor medido.

Por que o intervalo entre séries muda tanto o número?

Porque o intervalo é a maior fatia de tempo da sessão. Dois treinos com o mesmo volume de séries e a mesma carga podem durar 45 ou 80 minutos dependendo apenas de quanto tempo a pessoa fica parada entre as séries, e o gasto por minuto despenca durante esse tempo parado.

Um treino em circuito, com transições curtas e frequência cardíaca alta o tempo todo, chega perto de 7 a 8 MET e pode gastar quase o dobro de um treino de força tradicional com três minutos de intervalo. Isso não faz do circuito uma opção melhor: intervalo longo existe justamente para permitir carga alta, e carga alta é o que mais estimula força e massa muscular.

Aqui mora um erro de planejamento comum. Encurtar o intervalo para gastar mais calorias troca o principal benefício da musculação, que é o estímulo de força, por um ganho calórico pequeno que se resolve com uma caminhada de 20 minutos. Quando o objetivo é composição corporal, prefiro manter o intervalo adequado e resolver o gasto em outro lugar do dia.

A conta que muda mais o dia que o treino

Uma sessão de musculação de uma hora ocupa 4% do seu dia. Os outros 96% respondem pela maior parte do gasto, entre metabolismo de repouso e movimento não estruturado. Quem treina forte e passa o resto do dia sentado costuma gastar menos, no total, que alguém que treina moderado e se movimenta bastante fora da academia, assunto que abro em quanto se gasta sem fazer nada.

O corpo continua queimando depois do treino?

Continua, e menos do que a internet promete. O fenômeno se chama consumo excessivo de oxigênio pós-exercício, e representa a energia gasta para restaurar tudo que foi desarranjado durante a sessão: ressíntese de fosfatos, remoção de lactato, temperatura corporal elevada, ventilação aumentada e reparo tecidual.

Børsheim e Bahr revisaram esse efeito em 2003 na Sports Medicine, cruzando intensidade, duração e modalidade. A conclusão é consistente com o que se mediu depois: em sessões de intensidade e volume realistas, o consumo extra representa algo entre 5% e 15% do gasto da sessão, e a maior parte se dissipa nas primeiras horas. Para um treino de 400 kcal, isso significa 20 a 60 kcal adicionais.

Greer e colaboradores compararam esse efeito entre sessões isocalóricas de aeróbico contínuo, aeróbico intervalado e treino resistido, publicando em 2015 na Research Quarterly for Exercise and Sport, e a diferença absoluta entre as modalidades foi pequena. Nenhuma delas ativa um “modo turbo” de 48 horas. Quem promete isso está vendendo alguma coisa.

Musculação gasta menos que aeróbico?

Por sessão e por minuto, quase sempre gasta menos. Uma hora de corrida em ritmo moderado custa bem mais que uma hora de musculação, porque não tem intervalo. Willis e colaboradores compararam treino aeróbio, resistido e a combinação dos dois em adultos com sobrepeso, no Journal of Applied Physiology em 2012, e o grupo aeróbio perdeu mais massa de gordura no período estudado.

O que a musculação faz melhor é outra coisa: preservar e aumentar massa magra. Em déficit calórico, isso muda a composição do peso perdido. Duas pessoas que perdem 8 kg podem terminar com corpos bastante diferentes conforme tenham treinado força ou não, mesmo que a balança marque o mesmo.

Existe ainda o efeito de longo prazo, que a conta de uma sessão não captura. Mais massa muscular significa mais tecido metabolicamente ativo e mais capacidade de trabalho, e isso se acumula em anos. Para comparação direta com uma modalidade contínua, olhe também quantas calorias 1 hora de caminhada gasta, que surpreende na direção contrária.

Por que o aparelho e o relógio mostram números tão diferentes?

Porque nenhum dos dois mede calorias. Ambos estimam, a partir de sinais indiretos. O relógio de pulso combina acelerômetro e frequência cardíaca, e a musculação é o pior cenário possível para esse par: o braço fica praticamente parado durante boa parte das séries, e a frequência cardíaca sobe por esforço isométrico e manobra respiratória, não por consumo proporcional de oxigênio.

Shcherbina e colaboradores testaram sete dispositivos de pulso em uma coorte diversa, publicando em 2017 no Journal of Personalized Medicine, e encontraram erro mediano acima de 27% na estimativa de gasto energético em todos eles, enquanto a frequência cardíaca era medida com boa precisão. Medir bem o coração não significa acertar a caloria.

Isso não torna o aparelho inútil. Ele serve para acompanhar tendência, constância e volume de sessões ao longo das semanas. O que não serve é usar o número exibido como crédito calórico para comer depois, porque o erro costuma ser para cima justamente nas atividades que a pessoa mais faz.

O que fazer com esse número no plano alimentar?

A regra que uso é simples: não somo o gasto do treino ao total do dia depois que a conta já foi feita. O gasto energético total já inclui um fator de atividade que contempla o treino. Somar de novo, e ainda por cima usando o número inflado do relógio, é o caminho mais comum para transformar um déficit planejado em manutenção.

Também não uso a caloria do treino como argumento para comer diferente. O que muda a alimentação em torno do treino é a necessidade de repor glicogênio e ofertar proteína para o reparo, não a caloria queimada. Quem treina uma vez por dia resolve isso com a distribuição normal das refeições, sem ritual pós-treino.

Um ponto que costuma reposicionar a expectativa das pessoas: o gasto de uma sessão inteira de musculação é comparável ao que o corpo consome em algumas horas de sono, e eu faço essa conta em quantas calorias se gasta dormindo. O treino continua sendo a melhor coisa que você faz pelo seu corpo. Só não é pela via da fatura calórica da sessão.

Perguntas frequentes

Treino de pernas gasta mais que treino de braço?

Gasta, e a diferença é relevante. Membros inferiores concentram muito mais massa muscular, então agachamento, leg press e levantamento terra recrutam bem mais tecido por série que rosca direta ou tríceps na polia. Numa mesma duração, um treino de pernas pode custar 30% a 50% mais que um treino de membros superiores.

Treinar em jejum queima mais gordura?

Durante a sessão o corpo usa proporcionalmente mais gordura como substrato, sim. No balanço de 24 horas, porém, essa diferença tende a se anular, e o que decide a perda de gordura continua sendo o déficit calórico do dia. Em musculação pesada, treinar em jejum costuma reduzir o desempenho, o que trabalha contra o objetivo.

Séries até a falha gastam mais calorias?

Aumentam o custo por série e o consumo extra de oxigênio depois dela, mas em magnitude pequena e ao preço de mais fadiga, o que reduz o volume total que você consegue executar na sessão. Na soma final, treinar tudo até a falha raramente aumenta o gasto do treino inteiro.

Preciso comer as calorias que gastei no treino?

Se o plano foi montado a partir do gasto energético total, o treino já está contabilizado dentro dele, e comer por cima desfaz o déficit. Em quem treina volume muito alto ou tem histórico de baixa disponibilidade energética, a conversa é outra e precisa de avaliação individual.

A esteira da academia acerta o número?

Ela chuta melhor que o relógio na corrida, porque conhece velocidade e inclinação, que são as duas variáveis que mais pesam. Mesmo assim, superestima com frequência quando a pessoa se apoia no corrimão ou quando o peso cadastrado está desatualizado. Nos aparelhos de musculação, o número exibido é praticamente ficcional.

Musculação acelera o metabolismo em quanto?

Cada quilo de músculo ganho adiciona algo em torno de 13 kcal por dia ao gasto de repouso, bem longe das 50 kcal que circulam por aí. Ganhar 4 kg de músculo, o que já é bastante para um adulto natural, adiciona perto de 50 kcal diárias. O benefício da musculação é real e vem por outros caminhos, não por esse.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Ainsworth BE, Haskell WL, Herrmann SD, et al. 2011 Compendium of Physical Activities: A Second Update of Codes and MET Values. Medicine & Science in Sports & Exercise. 2011;43(8):1575-1581. DOI: 10.1249/MSS.0b013e31821ece12
  2. Scott CB, Leighton BH, Ahearn KJ, McManus JJ. Aerobic, Anaerobic, and Excess Postexercise Oxygen Consumption Energy Expenditure of Muscular Endurance and Strength. Journal of Strength and Conditioning Research. 2011;25(4):903-908. DOI: 10.1519/JSC.0b013e3181c6a128
  3. Børsheim E, Bahr R. Effect of Exercise Intensity, Duration and Mode on Post-Exercise Oxygen Consumption. Sports Medicine. 2003;33(14):1037-1060. DOI: 10.2165/00007256-200333140-00002
  4. Greer BK, Sirithienthad P, Moffatt RJ, Marcello RT, Panton LB. EPOC Comparison Between Isocaloric Bouts of Steady-State Aerobic, Intermittent Aerobic, and Resistance Training. Research Quarterly for Exercise and Sport. 2015;86(2):190-195. DOI: 10.1080/02701367.2014.999190
  5. Willis LH, Slentz CA, Bateman LA, et al. Effects of aerobic and/or resistance training on body mass and fat mass in overweight or obese adults. Journal of Applied Physiology. 2012;113(12):1831-1837. DOI: 10.1152/japplphysiol.01370.2011
  6. Shcherbina A, Mattsson CM, Waggott D, et al. Accuracy in Wrist-Worn, Sensor-Based Measurements of Heart Rate and Energy Expenditure in a Diverse Cohort. Journal of Personalized Medicine. 2017;7(2):3. DOI: 10.3390/jpm7020003
  7. Lam YY, Ravussin E. Analysis of energy metabolism in humans: A review of methodologies. Molecular Metabolism. 2016;5(11):1057-1071. DOI: 10.1016/j.molmet.2016.09.005
  8. Pontzer H, Durazo-Arvizu R, Dugas LR, et al. Constrained Total Energy Expenditure and Metabolic Adaptation to Physical Activity in Adult Humans. Current Biology. 2016;26(3):410-417. DOI: 10.1016/j.cub.2015.12.046
  9. Levine JA. Non-exercise activity thermogenesis (NEAT). Best Practice & Research Clinical Endocrinology & Metabolism. 2002;16(4):679-702. DOI: 10.1053/beem.2002.0227

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