Marcos Hirata

Metabolismo

Quantas calorias você gasta dormindo em 8 horas?

Voltar ao Blog

Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: um adulto gasta, em oito horas de sono, algo entre 350 e 600 kcal, dependendo principalmente do peso e da quantidade de massa magra. O gasto por hora dormindo fica cerca de 5% a 10% abaixo do metabolismo basal, então a conta prática é dividir a sua taxa metabólica basal por 24 e reduzir um pouco esse valor. Para uma mulher de 55 kg dá perto de 380 kcal por noite; para um homem de 90 kg, perto de 580 kcal. Não é pouco: é a maior fatia contínua de gasto do dia inteiro, e ela acontece sem que você faça nada.

Quantas calorias o corpo gasta em 8 horas de sono?

Durante o sono o corpo continua respirando, bombeando sangue, filtrando no rim, reparando tecido e mantendo o cérebro em atividade intensa. Tudo isso custa energia, e o custo é mensurável. Em câmara metabólica, onde a pessoa dorme dentro de um ambiente que analisa os gases respiratórios, o gasto durante o sono de um adulto de porte médio gira em torno de 0,9 a 1,1 kcal por minuto.

Multiplicando por 480 minutos, oito horas de sono ficam entre 430 e 530 kcal para essa faixa. Corpos menores gastam menos e corpos maiores gastam mais, o que abre o intervalo real para algo entre 350 e 600 kcal na maior parte dos adultos. Katayose e colaboradores mediram esse consumo por calorimetria indireta de corpo inteiro e publicaram os resultados na revista Metabolism, em 2009.

A comparação que coloca o número em perspectiva é útil. Oito horas de sono custam mais energia do que uma hora de corrida moderada. A diferença é que o sono acontece todas as noites, sem exceção, e ninguém precisa de disposição para executá-lo.

Quanto isso dá para o meu peso?

A estimativa abaixo parte da equação de Mifflin e St Jeor para taxa metabólica basal, publicada em 1990 no American Journal of Clinical Nutrition, com desconto de aproximadamente 7% para a condição de sono. São valores de referência, não medidas.

PerfilTaxa metabólica basal estimadaPor hora dormindo8 horas de sono
Mulher, 30 anos, 55 kg, 1,60 m1.240 kcal/dia48 kcal380 kcal
Mulher, 30 anos, 70 kg, 1,65 m1.420 kcal/dia55 kcal440 kcal
Mulher, 60 anos, 65 kg, 1,60 m1.190 kcal/dia46 kcal370 kcal
Homem, 30 anos, 70 kg, 1,75 m1.650 kcal/dia64 kcal510 kcal
Homem, 30 anos, 90 kg, 1,80 m1.880 kcal/dia73 kcal580 kcal

O que mais move esses números não é o peso na balança, é a massa livre de gordura. Zhang e colaboradores analisaram a taxa metabólica do sono em relação ao índice de massa corporal e à composição corporal, no International Journal of Obesity, e a massa magra foi de longe o melhor preditor. Duas pessoas de 70 kg com quantidades diferentes de músculo gastam valores diferentes dormindo, e é por isso que eu falo sobre quanto o músculo gasta de caloria num artigo à parte.

Por que dormindo se gasta menos que o metabolismo basal?

Porque são condições diferentes. A taxa metabólica basal é medida acordado, deitado, imóvel, em jejum, num ambiente controlado e depois de repouso completo. Já no sono, a temperatura corporal cai, o tônus muscular diminui, a frequência cardíaca desce e o consumo cerebral de glicose se reduz em parte das fases. O resultado é um gasto por minuto entre 5% e 10% menor que o basal.

Esse desconto não é fixo ao longo da noite. O gasto cai nas primeiras horas, atinge o ponto mais baixo no meio do sono e começa a subir antes mesmo do despertar, num movimento antecipatório ligado ao ritmo circadiano. Kayaba e colaboradores descreveram exatamente esse padrão em 2017, também na Metabolism.

Se você quer saber o seu valor real em vez de uma estimativa por equação, o exame que responde isso é a calorimetria indireta, que mede o oxigênio consumido e o gás carbônico produzido. Ele entrega a sua taxa de repouso medida, e não a média de uma população que talvez não se pareça com você.

O gasto muda entre as fases do sono?

Muda, e menos do que se imagina. O sono não profundo e o sono de ondas lentas apresentam o menor consumo, enquanto o sono REM registra gasto um pouco mais alto, próximo ao da vigília em repouso, porque a atividade cerebral nessa fase é intensa e a frequência cardíaca e a respiração ficam irregulares.

A diferença entre a fase mais econômica e a mais custosa raramente ultrapassa 10% do gasto por minuto. Traduzindo para a noite inteira, estamos falando de algumas dezenas de calorias. Não é uma variável que mude o planejamento alimentar de ninguém.

Isso derruba uma ideia que circula bastante, a de que sonhar muito ou ter sono agitado faria a pessoa “queimar” bem mais. A qualidade do sono importa muito para saúde, apetite e desempenho, mas não porque muda o total de calorias gastas na noite.

Uma conta que quase ninguém faz

Se você dorme sete horas por noite, passa aproximadamente 29% da vida dormindo, e nesse período gasta em torno de 2.700 a 3.500 kcal por semana. É mais do que a maioria das pessoas acumula em treino na semana inteira. Isso não é argumento para dormir mais e comer mais, é argumento para parar de tratar o metabolismo de repouso como detalhe.

Dormir emagrece?

Dormir não emagrece por gastar calorias, porque esse gasto acontece de qualquer jeito. Dormir bem influencia o peso por outro caminho: o do apetite, das escolhas alimentares e da disposição para se mover no dia seguinte.

A restrição de sono se associa a aumento de fome, preferência por alimentos mais calóricos e mais palatáveis, e maior ingestão à noite. Spaeth, Dinges e Goel acompanharam adultos em protocolo experimental de restrição de sono, publicado na revista Sleep em 2013, e observaram ganho de peso acompanhado de aumento de ingestão calórica, com concentração de calorias no período noturno.

Existe ainda o efeito sobre o movimento espontâneo. Quem dorme mal se mexe menos no dia seguinte, senta mais, cochila mais e treina pior. Essa perda costuma superar qualquer ganho teórico de gasto por ficar acordado mais tempo. Para comparar ordens de grandeza, uma hora de caminhada custa bem menos do que a maioria imagina, e eu abro essa conta em quantas calorias tem uma hora de caminhada.

Quem dorme pouco gasta mais calorias?

Gasta, e esse é um dos dados mais mal interpretados da área. Ficar acordado custa mais que dormir, então noites curtas aumentam o gasto total do dia. Jung e colaboradores mediram isso em câmara metabólica, no Journal of Physiology, e encontraram gasto de 24 horas cerca de 7% maior na privação total de sono em comparação com a noite de sono normal.

Markwald e colaboradores, no PNAS, foram além e mediram as duas pontas: com sono insuficiente, o gasto total subiu aproximadamente 5%, algo em torno de 100 kcal por dia, e a ingestão alimentar subiu mais que isso. O saldo foi ganho de peso, não perda.

A conclusão prática é direta: trocar sono por vigília aumenta o gasto e aumenta ainda mais a fome. É um péssimo negócio energético, e um negócio pior ainda para regulação hormonal, humor e desempenho no treino.

Por que o relógio marca um número diferente?

Porque ele não mede calorias, ele estima. Relógios e pulseiras trabalham com acelerômetro e frequência cardíaca, e durante o sono a informação de movimento é quase nula, o que deixa a estimativa dependente do algoritmo do fabricante e dos seus dados de cadastro.

Aparelhos diferentes na mesma noite podem devolver valores separados por mais de 100 kcal. Alguns nem exibem o gasto do sono, somando tudo na conta do dia. Nada disso é defeito: é o limite de estimar consumo energético sem analisar gases respiratórios, que é o único método capaz de medir de fato.

Se o objetivo é acompanhar tendência, o relógio serve. Se o objetivo é montar um plano alimentar com precisão, ele não é o instrumento certo. É a mesma lógica que se aplica ao gasto calórico do treino de musculação, onde o número exibido também costuma se distanciar bastante do gasto real.

Dá para aumentar o gasto durante o sono?

De forma relevante e sustentável, existe um caminho só: aumentar a massa magra. Mais músculo significa mais tecido metabolicamente ativo, e isso eleva o gasto de repouso durante as vinte e quatro horas, inclusive dormindo. É um efeito modesto por quilo de músculo, e é o único que se acumula ao longo dos anos.

Há fatores que elevam o gasto noturno de forma passageira, sem valor prático: dormir em ambiente frio, digerir uma refeição volumosa perto de deitar, febre, ansiedade e álcool, que fragmenta o sono e altera o padrão metabólico da noite. Nenhum deles é estratégia, e vários deles pioram a qualidade do sono, o que sai caro no dia seguinte.

Chás, suplementos e produtos anunciados como termogênicos noturnos não têm evidência que sustente ganho relevante de gasto durante o sono, e alguns contêm estimulantes que atrapalham o adormecer. O que funciona é o básico: treino de força consistente, proteína distribuída ao longo do dia e regularidade de horário para dormir e acordar.

Perguntas frequentes

Dormir 10 horas gasta mais que dormir 8?

Gasta mais que oito horas de sono, sim, porque são duas horas a mais de metabolismo em curso. Mas gasta menos do que essas mesmas duas horas passadas acordado e em movimento. Para efeito de balanço energético do dia, dormir mais não aumenta o gasto total, reduz um pouco.

Comer antes de dormir engorda mais?

O horário isolado importa menos que o total do dia. O que costuma acontecer é que a refeição noturna se soma ao que já foi comido, em vez de substituir, e o contexto da noite favorece escolhas mais calóricas. Em quem tem refluxo ou dorme mal com o estômago cheio, comer volumoso perto de deitar atrapalha por outro motivo.

Posso descontar as calorias do sono do meu plano alimentar?

Não faz sentido descontar, porque o gasto do sono já está incluído na taxa metabólica basal, que por sua vez já está dentro do gasto energético total do dia. Somar de novo é contar a mesma energia duas vezes, e é um erro comum de quem monta a própria dieta a partir de números soltos.

Quem tem apneia do sono gasta diferente?

O esforço respiratório aumentado e os despertares repetidos alteram o padrão metabólico da noite, e a literatura descreve gasto de repouso mais alto em parte dessas pessoas. Isso não ajuda no peso, porque a apneia também piora apetite, sono e disposição. Diagnóstico e tratamento são de competência médica.

Sono ruim atrapalha ganho de massa muscular?

Atrapalha por vários caminhos: pior recuperação entre sessões, menor qualidade do treino, mais percepção de esforço e alterações hormonais associadas à privação. Na prática, ajustar o sono costuma render mais que trocar de programa de treino ou adicionar suplemento.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Katayose Y, Tasaki M, Ogata H, Nakata Y, Tokuyama K, Satoh M. Metabolic rate and fuel utilization during sleep assessed by whole-body indirect calorimetry. Metabolism. 2009;58(7):920-926. DOI: 10.1016/j.metabol.2009.02.025
  2. Kayaba M, Park I, Iwayama K, et al. Energy metabolism differs between sleep stages and begins to increase prior to awakening. Metabolism. 2017;69:14-23. DOI: 10.1016/j.metabol.2016.12.016
  3. Jung CM, Melanson EL, Frydendall EJ, Perreault L, Eckel RH, Wright KP. Energy expenditure during sleep, sleep deprivation and sleep following sleep deprivation in adult humans. The Journal of Physiology. 2011;589(1):235-244. DOI: 10.1113/jphysiol.2010.197517
  4. Markwald RR, Melanson EL, Smith MR, et al. Impact of insufficient sleep on total daily energy expenditure, food intake, and weight gain. Proceedings of the National Academy of Sciences. 2013;110(14):5695-5700. DOI: 10.1073/pnas.1216951110
  5. Spaeth AM, Dinges DF, Goel N. Effects of experimental sleep restriction on weight gain, caloric intake, and meal timing in healthy adults. Sleep. 2013;36(7):981-990. DOI: 10.5665/sleep.2792
  6. Zhang K, Sun M, Werner P, et al. Sleeping metabolic rate in relation to body mass index and body composition. International Journal of Obesity. 2002;26(3):376-383. DOI: 10.1038/sj.ijo.0801922
  7. Mifflin MD, St Jeor ST, Hill LA, Scott BJ, Daugherty SA, Koh YO. A new predictive equation for resting energy expenditure in healthy individuals. The American Journal of Clinical Nutrition. 1990;51(2):241-247. DOI: 10.1093/ajcn/51.2.241
  8. Westerterp KR. Doubly labelled water assessment of energy expenditure: principle, practice, and promise. European Journal of Applied Physiology. 2017;117(7):1277-1285. DOI: 10.1007/s00421-017-3641-x
  9. Pontzer H, Yamada Y, Sagayama H, et al. Daily energy expenditure through the human life course. Science. 2021;373(6556):808-812. DOI: 10.1126/science.abe5017

ATENDIMENTOS EM LONDRINA E ONLINE

Quer transformar informação em uma estratégia individual?

Agendar sua avaliação
Agende sua consulta