Marcos Hirata

Nutrição Esportiva

Como repor sódio na corrida: cápsula de sal, comida e bebida

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: sódio só vira assunto quando o esforço passa de mais ou menos uma hora, o calor aperta e você sua muito. Nesse cenário, a faixa mais usada na prática é de 300 a 600 miligramas de sódio por hora de corrida, vindos de bebida esportiva, cápsula de sal ou comida salgada, sempre com líquido junto. Quem sua pouco, corre no fresco ou faz 10 km não precisa de nada disso. E cápsula de sal não é seguro contra cãibra nem substituto de água: ela só faz sentido dentro de um plano de líquido que você já testou no treino.

Quanto sódio se perde suando?

Muito menos do que a indústria de suplemento sugere, e com uma variação entre pessoas que é o dado mais importante desta conversa. Baker revisou o assunto em Sports Medicine e a concentração de sódio no suor de atletas se espalha por uma faixa larga, de cerca de 10 a 90 milimóis por litro. Convertendo para a unidade do rótulo, isso vai de mais ou menos 230 a mais de 2.000 miligramas de sódio por litro de suor.

A taxa de sudorese tem dispersão parecida. Numa corrida de rua brasileira, com calor e umidade, é comum encontrar gente suando 0,6 litro por hora e gente suando 1,8 litro por hora no mesmo pelotão. Multiplique as duas faixas e você entende por que não existe protocolo único: a perda real de sódio pode variar de menos de 200 miligramas por hora a mais de 2.000 miligramas por hora entre dois corredores lado a lado.

Vale saber também que a glândula sudorípara reabsorve sódio à medida que o suor sobe pelo ducto, e essa reabsorção é mais eficiente quando a taxa de suor é baixa. Baker descreveu esse mecanismo em detalhe na revista Temperature. Na prática, quanto mais rápido você sua, mais salgado tende a ser o suor, o que empilha as duas variáveis na mesma direção em dia quente.

Quando repor sódio muda alguma coisa?

Três condições precisam se somar: duração acima de uma hora a uma hora e meia, calor ou umidade que elevem a sudorese, e ingestão de líquido em volume relevante durante o esforço. Se uma dessas pernas falta, a reposição de sódio deixa de ter função clara.

O ponto mais mal compreendido é o terceiro. O sódio ingerido durante a corrida serve menos para repor a perda absoluta e mais para segurar o sódio do sangue enquanto você bebe. Quem bebe pouco quase não tem risco de diluição; quem bebe muito líquido sem sódio nenhum ao longo de quatro, cinco horas cria o cenário oposto, que eu detalho no texto sobre hiponatremia na corrida.

Também é honesto dizer o que a reposição de sódio não faz. Hoffman e Stuempfle testaram suplementação de sódio contra placebo em corredores de uma ultramaratona de 161 quilômetros e publicaram na Medicine and Science in Sports and Exercise: não houve diferença relevante em desempenho nem proteção clara contra alteração do sódio sanguíneo. Cosgrove e Black chegaram a conclusão semelhante em clima fresco, num contrarrelógio de ciclismo. Sódio extra não é ergogênico; é logística de hidratação em contexto específico.

Quanto sódio repor por hora de corrida?

O posicionamento do American College of Sports Medicine sobre exercício e reposição hídrica trabalha com bebidas que forneçam por volta de 0,5 a 0,7 grama de sódio por litro em esforços que passam de uma hora com sudorese alta. Se você bebe entre 0,5 e 1 litro por hora, isso equivale a algo entre 250 e 700 miligramas de sódio por hora.

Na prática de consultório eu costumo trabalhar dentro de uma faixa de 300 a 600 miligramas de sódio por hora para provas longas em calor, e subir dessa faixa apenas para quem tem sinais claros de perda alta e prova acima de quatro horas. O posicionamento da Sports Dietitians Australia para exercício em ambiente quente, assinado por McCubbin e colaboradores, segue a mesma lógica: individualizar a partir da taxa de suor e da duração, não aplicar um número fixo a todo mundo.

Um ponto de calibração que ajuda: 1 grama de sal de cozinha tem cerca de 400 miligramas de sódio, e meia colher de chá rasa já passa de 1,2 grama de sódio, muito acima do que a maioria precisa numa hora de corrida.

Cápsula, bebida ou comida: qual fonte usar?

Não existe fonte superior do ponto de vista fisiológico. O sódio é o mesmo em todas. O que muda é a praticidade, o que vem junto e o quanto cada uma pesa no estômago. A escolha certa é a que você consegue repetir sem enjoo no quilômetro 32.

A vantagem da bebida esportiva é entregar sódio, água e carboidrato no mesmo gole, o que resolve três problemas com uma decisão. A vantagem da cápsula é desacoplar o sódio do líquido, útil em prova com posto de água a cada dois quilômetros. A vantagem da comida salgada é o prazer e a variação de textura, que conta muito depois de três horas de gel doce.

FonteSódio aproximadoVantagemLimitação
Isotônico comercial400 a 500 mg por litroÁgua, sódio e carboidrato juntosPrecisa de volume grande para somar sódio
Cápsula de sal200 a 400 mg por cápsulaDose controlada, sem volumeExige água junto, senão dá enjoo
Sachê de eletrólito em pó300 a 1.000 mg por sachêAjusta concentração na garrafaSabor salgado incomoda algumas pessoas
Batata cozida com sal150 a 300 mg por porção pequenaCarboidrato e sal, textura salgadaMastigação difícil em ritmo alto
Caldo salgado em ponto de apoio400 a 800 mg por xícaraReidrata e aquece em prova friaSó existe se a prova oferecer
Água puraPraticamente zeroSempre disponívelNão repõe sódio em esforço longo

Sódio não é o remédio da cãibra

A pergunta que mais chega aqui é se cápsula de sal previne cãibra. Os dados de campo apontam para ritmo acima do treinado e histórico prévio como preditores muito mais fortes do que sódio sanguíneo. Existe um subgrupo de perdedores altos de sal em que o sódio parece contribuir, mas ele é minoria. Antes de comprar cápsula, compare o pace do treino longo com o pace da prova. Eu abro esse raciocínio em cãibra na corrida.

Como tomar cápsula de sal sem passar mal?

A regra prática é simples: cápsula sempre com líquido, nunca seca, e nunca em jejum de líquido. Sódio concentrado no estômago sem água puxa líquido para a luz intestinal, o que produz sensação de peso, enjoo e às vezes diarreia. É o mesmo mecanismo que faz gel puro sem água cair mal.

Distribua ao longo do tempo em vez de concentrar. Uma cápsula por hora, tomada com 200 a 300 mililitros de água, funciona melhor do que três cápsulas de uma vez no quilômetro 25 porque alguém sentiu a perna estranha. Reposição é estratégia planejada, não reação a sintoma.

Leia o rótulo, porque muita cápsula vendida como “sal” é uma mistura de sódio, potássio, magnésio e cálcio em quantidades pequenas. O número que interessa é o de sódio por cápsula. Se o rótulo declara cloreto de sódio, divida por 2,5: 1.000 miligramas de cloreto de sódio equivalem a cerca de 400 miligramas de sódio.

Como saber se eu sou um suador salgado?

Sem laboratório, você trabalha com sinais indiretos, e eles são razoavelmente confiáveis quando aparecem juntos. Crosta esbranquiçada na viseira, no boné e na camiseta depois que seca. Ardência forte quando o suor entra no olho. Gosto salgado nítido ao passar a língua no lábio. Roupa escura que fica manchada de branco na região das alças.

Some a isso o histórico de contexto: se os episódios de mal-estar, cãibra e queda de rendimento aparecem sempre em prova longa e quente, e nunca em treino de 8 quilômetros no fim da tarde, o padrão é compatível com perda alta em volume grande. Se aparecem em qualquer distância, inclusive em dia fresco, o problema quase certamente não é sódio.

Dá para estimar a taxa de sudorese sozinho, sem equipamento. Pese-se sem roupa antes de um treino longo, anote quanto bebeu durante e pese-se de novo logo depois, também sem roupa. A diferença de peso, em quilos, somada ao líquido ingerido, em litros, dá aproximadamente o suor daquela hora. Um quilo perdido equivale a mais ou menos um litro de suor. Repita em dias de temperatura diferente e você terá a sua faixa real, que vale muito mais que qualquer tabela genérica.

Como testar a estratégia antes da prova?

Toda escolha de sódio precisa passar pelo treino longo, no mesmo horário e no mesmo clima previstos para a prova. Estômago se educa com repetição, e a tolerância ao volume de líquido e à concentração de sal melhora com exposição, como Jeukendrup discute ao tratar do treinamento do trato gastrointestinal em atletas.

Monte o teste com uma variável por vez. No primeiro treino longo, defina o volume de líquido por hora e mantenha o sódio no que a bebida já oferece. No segundo, acrescente a cápsula ou o sachê e observe. Se mudar tudo de uma vez e passar mal, você não saberá o que causou o problema.

Anote três coisas em cada treino longo: quanto bebeu por hora, quanto sódio somou e como o estômago respondeu na segunda metade. Três ou quatro repetições já dão um plano estável. Esse é o tipo de ajuste que eu construo junto com o corredor no acompanhamento de nutrição esportiva, porque depende de números que só o próprio atleta consegue coletar.

Que erros eu mais vejo no consultório?

O primeiro é o excesso preventivo. Corredor de 10 km e de meia maratona em clima ameno chegando com quatro marcas de cápsula na bolsa, tomando sal para uma perda que não acontece. Em prova de uma hora, a perda de sódio é pequena o suficiente para ser reposta na refeição seguinte, sem nenhuma intervenção durante o percurso.

O segundo é confundir sódio com hidratação. Tomar cápsula e beber pouco não resolve nada e ainda aumenta a sensação de sede e boca seca. Sódio funciona dentro de um plano de líquido, nunca no lugar dele.

O terceiro é ignorar o carboidrato. Em prova longa, a queda de rendimento raramente vem do sódio e quase sempre vem do combustível. Se você acertou o sal e continua quebrando no quilômetro 30, a conta a revisar é a de carboidrato por hora, não a de eletrólito.

Por fim, uma fronteira que precisa ficar clara. Quem tem hipertensão, doença renal, insuficiência cardíaca ou usa medicação que interfere no equilíbrio de sódio e água não deve ajustar sal por conta própria com base em texto de internet. Nesses casos a conduta é individual e passa pelo médico que acompanha o quadro, com o plano alimentar montado em cima dessa orientação.

Perguntas frequentes

Preciso de sódio numa corrida de 10 km?

Em geral não. Uma prova de 10 km dura menos de uma hora para a maioria e a perda de sódio nesse tempo é reposta sem esforço na refeição seguinte. A exceção é quem corre em calor extremo, sua muito e vai encadear outro esforço no mesmo dia.

Água com sal caseira serve como isotônico?

Serve para repor sódio, mas não entrega carboidrato, e sal puro na água costuma ficar intragável. A versão que as pessoas toleram melhor mistura água, uma fonte de carboidrato e uma pitada pequena de sal. Concentração alta de sal atrasa o esvaziamento gástrico e piora o enjoo.

Posso tomar cápsula de sal antes da largada?

Não há vantagem demonstrada em “carregar” sódio antes da prova, e o efeito prático mais comum é sede e desconforto gástrico logo nos primeiros quilômetros. Faz mais sentido começar a reposição depois da primeira hora, junto com líquido.

Água de coco substitui a cápsula de sal?

Não com essa finalidade. A água de coco tem bastante potássio e pouco sódio, o que a torna uma bebida agradável de recuperação, mas fraca como fonte de sódio durante esforço longo em calor. Para reposição de sódio, bebida esportiva, sachê ou cápsula entregam a quantidade que ela não entrega.

Sódio demais na prova faz mal?

Exagero costuma cobrar em desconforto: náusea, peso no estômago, sede intensa e inchaço nas mãos. Em pessoa saudável, o rim dá conta do excesso pontual, mas o mal-estar já basta para atrapalhar a prova. Quem tem pressão alta, doença renal ou cardíaca precisa tratar isso com o médico antes de aumentar sal por conta própria.

Existe exame que mede meu sódio no suor?

Existem testes de coleta de suor usados em laboratórios de fisiologia e por algumas equipes, com adesivos ou coletores regionais. São úteis para atletas de longa distância que já otimizaram treino e carboidrato. Para o corredor recreativo, os sinais práticos e a pesagem antes e depois do treino longo resolvem a maior parte das decisões.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Baker LB. Sweating Rate and Sweat Sodium Concentration in Athletes: A Review of Methodology and Intra/Interindividual Variability. Sports Medicine. 2017;47(S1):111-128. DOI: 10.1007/s40279-017-0691-5
  2. Baker LB. Physiology of sweat gland function: The roles of sweating and sweat composition in human health. Temperature. 2019;6(3):211-259. DOI: 10.1080/23328940.2019.1632145
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  9. Thomas DT, Erdman KA, Burke LM. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics, Dietitians of Canada, and the American College of Sports Medicine: Nutrition and Athletic Performance. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics. 2016;116(3):501-528. DOI: 10.1016/j.jand.2015.12.006

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