Marcos Hirata

Resultados e Depoimentos

Dayane Camillo: ginástica rítmica, hipotireoidismo e o fim do pavor de dieta

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: Dayane Camillo passou a adolescência e a vida adulta inteira dentro de um esporte que cobra peso todos os dias. Foi duas vezes finalista olímpica na ginástica rítmica, em Sidney 2000 e Atenas 2004, e campeã panamericana. Quando parou de competir, não queria mais ouvir a palavra dieta. Anos depois voltou a treinar, procurou acompanhamento e trouxe junto um hipotireoidismo que a deixava inchada. O relato dela está na íntegra abaixo, e ao redor dele eu explico o que costuma acontecer com ex-atleta de alto rendimento e por que inchaço e tireoide andam juntos com mais frequência do que se imagina.

Quem é Dayane Camillo

Dayane Camillo da Silva começou na ginástica rítmica aos seis anos e entrou para a Seleção Brasileira aos treze. Na conta dela estão o bronze no Pan de Mar del Plata em 1995, o ouro em Winnipeg em 1999, que foi a primeira medalha de ouro do Brasil na modalidade em Jogos Panamericanos, e o ouro no Pan de Santo Domingo em 2003, onde ainda somou dois ouros nas finais por aparelho.

Nos Jogos Olímpicos, chegou à final em Sidney 2000 e em Atenas 2004, terminando em oitavo lugar nas duas. Poucas atletas brasileiras da modalidade chegaram a duas finais olímpicas.

Ela é de Londrina e o acompanhamento aconteceu aqui, anos depois da aposentadoria das quadras, quando voltou a treinar por conta própria.

O depoimento dela, na íntegra

Como fui da Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica, fiquei por muito tempo fazendo dieta. Assim que parei de treinar, não queria mais ver dieta na minha frente.

Depois de alguns anos, mais propriamente no ano passado, comecei a treinar com o objetivo de perder gordura localizada e, como queria buscar um resultado melhor, procurei o Marcos H. Hirata. Sempre digo que o Hirata me fez gostar de fazer dieta, pois com o acompanhamento dele o empenho deixou de ser algo forçado.

Antes eu tinha pavor de dieta, hoje sigo o plano alimentar todos os dias. Os resultados da dieta, aliada ao treinamento, são perceptíveis no ganho de massa muscular e perda de gordura.

Acho importante dizer que não resolvi entrar na linha apenas pela aparência, mas também pela saúde. Tenho hipotiroidismo e isso me deixa muito inchada. Com a dieta, meus exames de sangue estão em dia com as taxas dentro do esperado.

Não adianta apenas estarmos bonitas por fora, o importante mesmo é ter uma vida saudável e isso refletirá naturalmente no nosso exterior.

Dayane Camillo, 38 anos na época do depoimento

Por que ex-atleta de alto rendimento adoece de dieta

A frase mais importante do depoimento é a primeira: fiquei muito tempo fazendo dieta, e quando parei não queria mais ver dieta na minha frente. Isso não é frescura, é consequência previsível.

Modalidades estéticas e de categoria de peso cobram controle alimentar diário durante a fase de formação, muitas vezes começando na infância. O comitê olímpico internacional publicou consenso sobre a síndrome de deficiência energética relativa no esporte, que descreve o que acontece quando a energia disponível fica cronicamente abaixo do necessário: efeitos sobre metabolismo, densidade óssea, imunidade, ciclo menstrual, humor e desempenho.

Quando a carreira termina, o corpo muda, o gasto despenca e o repertório alimentar que sobrou é o da restrição. A pessoa sabe contar caloria, mas não sabe comer sem contar. É por isso que a virada que ela descreve, o empenho deixar de ser algo forçado, importa mais que qualquer número: sem isso, nada se sustenta.

O sinal que eu procuro nesse perfil

Quando alguém diz que tem pavor de dieta, o primeiro trabalho não é montar cardápio, é desmontar a associação entre comer bem e sofrer. Plano que reativa a memória de restrição é abandonado, por melhor que seja no papel.

Hipotireoidismo e inchaço: o que a alimentação muda

O hipotireoidismo reduz a produção de hormônios tireoidianos e desacelera processos que dependem deles. Entre as manifestações descritas na literatura estão cansaço, intolerância ao frio, constipação, ganho de peso, pele seca e retenção de líquido, que é o inchaço que ela cita.

Aqui é preciso separar o que a comida faz e o que ela não faz. Alimentação não substitui reposição hormonal, e ninguém deve mexer em medicação por causa de dieta. O que a alimentação faz, e faz bem, é atuar sobre três frentes que somam ao tratamento: garantir os nutrientes que a tireoide usa, reduzir o que agrava a retenção, e sustentar massa magra, que é o tecido que segura o gasto energético quando o metabolismo já está mais lento.

Sobre a retenção, dois ajustes costumam render mais que qualquer suplemento: sódio e regularidade de horários. Consumo alto de ultraprocessado carrega sódio suficiente para manter a pessoa inchada mesmo com a tireoide compensada. E o próprio acompanhamento dos exames, como ela menciona, é o que mostra se o conjunto está funcionando.

Quais nutrientes importam para a tireoide

NutrientePapelOnde está
IodoMatéria-prima do hormônio tireoidiano. Falta e excesso causam problemaSal iodado, peixe, frutos do mar, laticínios
SelênioParticipa da conversão de T4 em T3 e da proteção antioxidante da glândulaCastanha do Pará, peixe, ovo, carne
FerroDeficiência prejudica a síntese hormonal e cursa com cansaço parecidoCarnes, vísceras, leguminosas com vitamina C
ZincoEnvolvido na sinalização e na conversão hormonalCarne, frutos do mar, sementes
ProteínaSustenta massa magra, que segura o gasto energéticoDistribuída ao longo do dia, não concentrada numa refeição

Duas advertências que valem mais que a tabela. Suplemento de biotina, comum em fórmula para cabelo e unha, interfere na dosagem de TSH e T4 livre em vários métodos de laboratório e pode gerar resultado falso. E castanha do Pará em excesso passa do ponto: selênio tem margem estreita entre o suficiente e o demais.

Como a conduta muda nesse cenário

Com histórico de restrição longa, a conduta começa pelo oposto do que a pessoa espera. Não se corta mais, se organiza. Proteína suficiente em todas as refeições, energia adequada para sustentar o treino, e nenhum alimento na lista de proibidos logo de saída.

Treino de força entra como parte do plano, não como acessório. Ganho de massa muscular e perda de gordura ao mesmo tempo, que é o que ela descreve, acontece com mais facilidade em quem está retornando ao treino depois de um período parado, e depende de proteína e de estímulo, não de déficit agressivo.

E o acompanhamento é por exame, não por balança. Em quem tem tireoide alterada, o peso oscila por retenção e engana. Se você quer entender como esse acompanhamento é conduzido, veja como funciona a primeira consulta, e se o seu caso envolve tireoide, o ponto de partida está em saúde hormonal.

Perguntas frequentes

Dieta trata hipotireoidismo?

Não. O tratamento é medicamentoso e conduzido pelo médico. A alimentação atua sobre os nutrientes envolvidos, sobre a retenção de líquido e sobre a manutenção de massa magra, somando ao tratamento sem substituí-lo.

Preciso cortar glúten se tenho tireoide alterada?

Só se houver doença celíaca diagnosticada, que tem associação conhecida com tireoidite autoimune. Fora disso, não há indicação de corte automático, e restringir sem motivo empobrece a dieta.

Castanha do Pará resolve o selênio?

Uma a duas unidades por dia costumam cobrir a necessidade, mas o teor varia muito conforme o solo onde a castanha cresceu. Comer um punhado por dia é excesso, não zelo.

O inchaço é sempre da tireoide?

Não. Sódio alto, ciclo menstrual, sono ruim, medicação e problemas intestinais também causam retenção. Por isso a leitura precisa juntar exame e rotina, e não atribuir tudo à glândula.

Quem foi atleta precisa de conduta diferente?

Costuma precisar. O histórico de restrição, a relação carregada com comida e a mudança brusca de gasto ao parar de competir criam um cenário que não responde bem a plano restritivo genérico.

Dá para ganhar músculo e perder gordura ao mesmo tempo?

Acontece com mais facilidade em quem está retornando ao treino depois de um período parado, e depende de proteína adequada e treino de força. Em quem já treina há anos, o processo é mais lento e costuma pedir fases.

Este é um de cinco casos reunidos em resultados e depoimentos, com atletas de seleção brasileira, paratleta, ultramaratonista e corredor master.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Chaker L, Bianco AC, Jonklaas J, Peeters RP. Hypothyroidism. The Lancet. 2017;390(10101):1550-1562. DOI: 10.1016/S0140-6736(17)30703-1
  2. Zimmermann MB, Boelaert K. Iodine deficiency and thyroid disorders. The Lancet Diabetes and Endocrinology. 2015;3(4):286-295. DOI: 10.1016/S2213-8587(14)70225-6
  3. Ventura M, Melo M, Carrilho F. Selenium and Thyroid Disease: From Pathophysiology to Treatment. International Journal of Endocrinology. 2017;2017:1297658. DOI: 10.1155/2017/1297658
  4. Mountjoy M, Sundgot-Borgen J, Burke L, et al. IOC consensus statement on relative energy deficiency in sport (RED-S): 2018 update. British Journal of Sports Medicine. 2018;52(11):687-697. DOI: 10.1136/bjsports-2018-099193
  5. Melin AK, Heikura IA, Tenforde A, Mountjoy M. Energy Availability in Athletics: Health, Performance, and Physique. International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism. 2019;29(2):152-164. DOI: 10.1123/ijsnem.2018-0201
  6. Thomas DT, Erdman KA, Burke LM. Nutrition and Athletic Performance. Medicine and Science in Sports and Exercise. 2016;48(3):543-568. DOI: 10.1249/MSS.0000000000000852

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