Marcos Hirata

Calorimetria e Testes Metabólicos

DEXA de composição corporal: como é o exame e o que mede

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: a DEXA de composição corporal é uma densitometria de corpo inteiro que separa o seu peso em três compartimentos: massa gorda, massa magra de tecidos moles e massa óssea. O exame dura de cinco a quinze minutos, é feito deitado e vestido, sem contraste e sem entrar em túnel, com dose de radiação muito baixa. O laudo entrega percentual de gordura total, distribuição por região (braços, pernas, tronco), estimativa de gordura visceral e densidade mineral óssea. É o método mais preciso disponível na rotina clínica, mas depende de preparo padronizado e não deve ser feito em gestantes.

O que é a DEXA de composição corporal?

DEXA, ou DXA, é a sigla de absorciometria de raios X de dupla energia. O mesmo aparelho que faz a densitometria óssea para investigar osteoporose pode rodar um protocolo de corpo inteiro que estima quanto do seu peso é gordura, quanto é tecido magro e quanto é osso, com detalhamento por região do corpo.

Na prática, são dois exames diferentes no mesmo equipamento. A densitometria óssea convencional avalia coluna lombar e fêmur para diagnóstico de osteoporose, que é competência médica. A varredura de corpo inteiro é a que interessa para avaliação nutricional e esportiva, e nem todo serviço que faz densitometria oferece esse protocolo. Vale confirmar antes de agendar.

Shepherd, Ng, Sommer e Heymsfield revisaram o método na revista Bone em 2017 e resumem bem o porquê da popularidade: a DEXA combina precisão alta, tempo curto de exame, dose baixa de radiação e leitura regional, coisa que nenhum método de consultório entrega ao mesmo tempo.

Como o aparelho separa gordura de músculo?

O equipamento emite raios X em duas energias diferentes e mede o quanto de cada uma foi atenuado ao atravessar o corpo. Tecidos com composição química distinta atenuam as duas energias em proporções distintas, e é essa razão de atenuação que permite separar os compartimentos, pixel a pixel.

Onde há osso, o software calcula conteúdo mineral ósseo. Onde há apenas tecido mole, ele divide o que sobrou entre massa gorda e massa magra de tecidos moles, usando a diferença de atenuação entre lipídio e tecido magro hidratado. Bazzocchi e colaboradores detalharam esses aspectos técnicos no European Journal of Radiology em 2016.

Daí vem o nome de modelo de três compartimentos. É um passo adiante em relação à bioimpedância e às dobras cutâneas, que trabalham com dois compartimentos e precisam assumir que gordura e massa magra têm sempre a mesma composição. A DEXA também assume constantes, como a hidratação do tecido magro, mas depende menos delas.

Como é o exame na prática?

Você deita de costas numa mesa acolchoada, com roupa leve e sem nenhum metal: sem sutiã com aro, zíper, fivela, moedas no bolso, brincos, relógio, colar ou piercing. O técnico posiciona braços e pernas dentro da área de varredura, geralmente com apoios ou fitas para manter a posição estável.

Um braço mecânico desliza sobre o corpo de cima para baixo. Não há túnel, não há barulho alto, não há contraste e não há agulha. A varredura dura entre cinco e quinze minutos, conforme o modelo e o modo escolhido. O único requisito real é ficar imóvel, porque movimento gera artefato e obriga a repetir.

Pessoas muito altas ou muito largas podem não caber inteiras na área de varredura. Nesses casos o serviço usa protocolos de meio corpo com espelhamento, ou posicionamento adaptado, o que acrescenta uma fonte de erro que deve constar no laudo.

Que preparo muda o resultado?

Mais do que parece. Nana, Slater, Hopkins e Burke publicaram no Medicine and Science in Sports and Exercise em 2012 um estudo mostrando que atividades comuns do dia a dia, como comer, beber e treinar antes do exame, alteram de forma mensurável os valores de composição corporal obtidos por DEXA. Em 2015, no International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism, o mesmo grupo publicou a revisão metodológica que virou referência de boas práticas.

O protocolo padronizado é simples: fazer o exame pela manhã, em jejum noturno, sem ter treinado nas horas anteriores, com estado de hidratação habitual e depois de esvaziar a bexiga. Repetições devem ser feitas nas mesmas condições, no mesmo aparelho e, de preferência, no mesmo horário do dia.

O motivo é que a água conta como massa magra para o aparelho. Uma refeição grande, um treino intenso na véspera com reposição de glicogênio, uma fase do ciclo menstrual com mais retenção: tudo isso desloca a massa magra medida sem que um grama de músculo tenha sido ganho ou perdido. O mesmo raciocínio vale para a bioimpedância, como explico no texto sobre água corporal na bioimpedância.

Repetir no mesmo aparelho não é preciosismo

Marcas e modelos diferentes usam calibrações e algoritmos diferentes, e o mesmo corpo pode receber percentuais de gordura distintos em dois equipamentos. Para acompanhar evolução, o que vale é a diferença entre duas medidas feitas no mesmo aparelho, com o mesmo preparo. Comparar uma DEXA de uma clínica com outra de outra clínica gera conclusões que não se sustentam.

O que aparece no laudo e como ler?

O laudo traz o peso total dividido em massa gorda, massa magra de tecidos moles e conteúdo mineral ósseo, em gramas, mais o percentual de gordura corporal. Depois repete essa divisão por região: braço direito, braço esquerdo, perna direita, perna esquerda, tronco, e às vezes cabeça separada.

A leitura regional é a parte mais útil e a menos aproveitada. A soma da massa magra de braços e pernas é a massa magra apendicular, que é a base das estimativas de massa muscular esquelética. Kim e colaboradores propuseram no American Journal of Clinical Nutrition em 2002 o método que converte essa medida em massa muscular total, e o consenso europeu de sarcopenia revisado por Cruz-Jentoft e colaboradores, publicado no Age and Ageing em 2019, usa exatamente esse índice como critério de baixa massa muscular.

Muitos laudos também trazem estimativa de gordura visceral na região abdominal. É um valor calculado por algoritmo, não uma medida direta como a de uma tomografia, e serve melhor para acompanhar tendência ao longo do tempo do que para cravar um número absoluto. Por fim vem a densidade mineral óssea, cuja interpretação diagnóstica é do médico.

Item do laudoO que significaPara que serve na prática
Massa gorda total e percentualquantidade de tecido adiposo no corpo inteiroacompanhar quanto da variação de peso foi gordura
Massa magra de tecidos molesmúsculo, órgãos e água, sem o ossoverificar se o déficit está preservando tecido ativo
Conteúdo mineral ósseomassa de mineral do esqueletocompõe o peso total e alimenta a leitura de densidade
Distribuição por regiãobraços, pernas e tronco separadosidentificar assimetria e concentração central de gordura
Massa magra apendicularsoma da massa magra de braços e pernasbase dos critérios de baixa massa muscular
Gordura visceral estimadavalor calculado por algoritmo na região abdominalacompanhar tendência no mesmo aparelho ao longo do tempo

Quão precisa é a DEXA, de verdade?

Precisa o suficiente para detectar mudanças que outros métodos não detectam, e não perfeita. Toombs, Ducher, Shepherd e De Souza revisaram na revista Obesity em 2012 o impacto dos avanços tecnológicos sobre a exatidão e a precisão do método, e a mensagem é dupla: a reprodutibilidade de medidas repetidas é alta, e ao mesmo tempo existem diferenças sistemáticas entre fabricantes e entre versões de software.

Traduzindo para a prática: se você repetir a DEXA duas vezes no mesmo dia, no mesmo aparelho, os valores serão muito próximos. Se comparar aparelhos diferentes, pode encontrar diferenças de vários pontos percentuais de gordura no mesmo corpo. Precisão e exatidão não são a mesma coisa, e a DEXA é melhor na primeira do que na segunda.

Isso importa porque o uso mais valioso do exame não é descobrir um número absoluto, e sim medir a direção e o tamanho da mudança. Perdi dois quilos, quanto disso era gordura e quanto era massa magra? Essa pergunta a DEXA responde bem, e é ela que muda conduta.

Quais são os limites e as contraindicações?

A contraindicação clara é gestação. Embora a dose de radiação de uma varredura de corpo inteiro seja baixa, da ordem de poucos microsieverts em equipamentos modernos, o princípio é não expor sem necessidade. Damilakis e colaboradores compilaram no European Radiology em 2010 as doses das técnicas de imagem usadas em osteoporose, e a DEXA está entre as mais baixas. Ainda assim, gestantes não fazem.

Prótese metálica, material de osteossíntese, marca-passo e contraste residual de exames recentes geram artefato e distorcem a leitura da região afetada. Isso não impede o exame, mas precisa ser informado e considerado na interpretação. Obesidade grave pode esbarrar no limite de peso e de largura da mesa.

Há também um limite conceitual. A DEXA assume que o tecido magro tem hidratação constante, o que não é verdade em quem tem edema, ascite, insuficiência renal ou desidratação importante. Nesses casos o valor de massa magra é inflado ou reduzido por água, e não por músculo. Quem tem alteração clínica desse tipo precisa de avaliação médica antes de interpretar qualquer laudo de composição corporal.

Quando vale fazer e de quanto em quanto tempo?

Faz sentido em três situações. A primeira é quando a decisão depende de saber a composição, e não o peso: alguém que quer perder gordura mantendo massa magra, ou que treina há meses sem mudança na balança. A segunda é quando o peso engana, como em quem tem peso normal e massa muscular baixa. A terceira é para acompanhar risco de sarcopenia com o avanço da idade.

O intervalo razoável entre exames é de três a seis meses em processo ativo de mudança, e de doze meses em manutenção. Repetir a cada quatro semanas expõe a pessoa a radiação sem necessidade e captura mais ruído do que sinal, porque a mudança real de composição em um mês é pequena diante da variação do método.

Um ponto que sempre reforço: composição corporal e gasto energético são coisas diferentes. A DEXA diz do que você é feito; ela não mede quanto você gasta. Para isso existe outro exame, que explico na página sobre calorimetria indireta. E se a sua dúvida é entre fazer DEXA ou usar o aparelho de bioimpedância, escrevi a comparação completa em bioimpedância ou DEXA.

Perguntas frequentes

DEXA de composição corporal é a mesma coisa que densitometria óssea?

É o mesmo aparelho rodando protocolos diferentes. A densitometria óssea avalia coluna e fêmur para investigar osteoporose. A composição corporal é uma varredura de corpo inteiro que separa gordura, massa magra e osso. Muitos serviços fazem só o protocolo ósseo, então confirme antes de agendar.

Preciso ficar em jejum para a DEXA?

Não é obrigatório do ponto de vista de segurança, mas o jejum noturno é o padrão recomendado para a medida ficar comparável. Comida e líquido no trato digestivo entram na conta de tecido mole. Se você fez sem jejum, o resultado ainda serve, desde que as próximas medidas sigam a mesma condição.

A radiação da DEXA é perigosa?

A dose de uma varredura de corpo inteiro é muito baixa, entre as menores das técnicas que usam raios X. Ainda assim, exposição sem indicação não se justifica, e por isso o exame não é feito em gestantes e não deve ser repetido de mês em mês. Dúvidas sobre exposição em situações específicas são para o médico responder.

Por que meu percentual de gordura na DEXA deu maior que na bioimpedância?

É o achado mais comum. A bioimpedância estima a água corporal e deriva o resto por equações, e tende a superestimar massa magra em várias situações, o que reduz o percentual de gordura calculado. Os dois números não são intercambiáveis: escolha um método e acompanhe por ele.

A DEXA mede gordura visceral com precisão?

Ela estima a gordura visceral por um algoritmo aplicado à região abdominal, o que é diferente de medir diretamente, como faz uma tomografia. O valor tem utilidade para acompanhar tendência no mesmo aparelho ao longo do tempo, e não convém tratá-lo como número absoluto ou compará-lo entre equipamentos diferentes.

Quanto custa e onde se faz esse exame?

O preço varia bastante conforme cidade e serviço, e costuma ficar acima do de uma bioimpedância de consultório. O exame é feito em clínicas de imagem e serviços de densitometria, com pedido profissional. Como nem todo serviço oferece o protocolo de corpo inteiro, vale perguntar especificamente por composição corporal ao agendar.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Shepherd JA, Ng BK, Sommer MJ, Heymsfield SB. Body composition by DXA. Bone. 2017;104:101-105. DOI: 10.1016/j.bone.2017.06.010
  2. Bazzocchi A, Ponti F, Albisinni U, Battista G, Guglielmi G. DXA: technical aspects and application. European Journal of Radiology. 2016;85(8):1481-1492. DOI: 10.1016/j.ejrad.2016.04.004
  3. Toombs RJ, Ducher G, Shepherd JA, De Souza MJ. The impact of recent technological advances on the trueness and precision of DXA to assess body composition. Obesity. 2012;20(1):30-39. DOI: 10.1038/oby.2011.211
  4. Nana A, Slater GJ, Hopkins WG, Burke LM. Effects of daily activities on dual-energy X-ray absorptiometry measurements of body composition in active people. Medicine and Science in Sports and Exercise. 2012;44(1):180-189. DOI: 10.1249/MSS.0b013e318228b60e
  5. Nana A, Slater GJ, Stewart AD, Burke LM. Methodology review: using dual-energy X-ray absorptiometry (DXA) for the assessment of body composition in athletes and active people. International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism. 2015;25(2):198-215. DOI: 10.1123/ijsnem.2013-0228
  6. Kim J, Wang Z, Heymsfield SB, Baumgartner RN, Gallagher D. Total-body skeletal muscle mass: estimation by a new dual-energy X-ray absorptiometry method. The American Journal of Clinical Nutrition. 2002;76(2):378-383. DOI: 10.1093/ajcn/76.2.378
  7. Cruz-Jentoft AJ, Bahat G, Bauer J, et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age and Ageing. 2019;48(1):16-31. DOI: 10.1093/ageing/afy169
  8. Damilakis J, Adams JE, Guglielmi G, Link TM. Radiation exposure in X-ray-based imaging techniques used in osteoporosis. European Radiology. 2010;20(11):2707-2714. DOI: 10.1007/s00330-010-1845-0
  9. Buckinx F, Landi F, Cesari M, et al. Pitfalls in the measurement of muscle mass: a need for a reference standard. Journal of Cachexia, Sarcopenia and Muscle. 2018;9(2):269-278. DOI: 10.1002/jcsm.12268

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