Marcos Hirata

Suplementação

Isotônico caseiro: receita simples e quando ele serve

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Nutrição clínica · Metabolismo · Performance

Resposta rápida: a receita que funciona é 700 ml de água, 300 ml de suco de laranja natural, 2 colheres de sopa rasas de açúcar e 1 colher de café rasa de sal (cerca de 1 grama). Isso dá 1 litro com aproximadamente 6 por cento de carboidrato e 400 a 500 miligramas de sódio, faixa parecida com a das bebidas esportivas industrializadas. Serve para treinos acima de uma hora, para calor forte e para quem sua muito. Em treino curto, em clima ameno, água pura resolve e o isotônico caseiro só acrescenta açúcar sem necessidade.

Qual a receita de isotônico caseiro?

A base é sempre a mesma: água, uma fonte de carboidrato, sódio e, se possível, potássio. A versão que eu passo no consultório rende 1 litro e usa ingredientes que qualquer pessoa tem em casa.

Misture 700 ml de água gelada, 300 ml de suco de laranja natural coado, 2 colheres de sopa rasas de açúcar (cerca de 25 gramas) e 1 colher de café rasa de sal refinado (cerca de 1 grama). Mexa até o açúcar dissolver completamente e leve à geladeira. O suco de laranja entra por dois motivos: ele fornece potássio e torna o sal muito menos perceptível no sabor.

Se você não tem suco de laranja, troque por 300 ml de água com o suco de meio limão e aumente o açúcar para 3 colheres de sopa rasas. O resultado fica com menos potássio, mas a parte que mais importa em treino, que é água com carboidrato e sódio, continua correta. A bebida dura 24 horas na geladeira; depois disso, faça outra.

Por que essas quantidades e não outras?

Porque as duas variáveis que decidem se uma bebida hidrata bem são a concentração de carboidrato e a quantidade de sódio, e as duas têm faixas conhecidas.

Sobre o carboidrato: Vist e Maughan mostraram no Journal of Physiology que soluções mais concentradas esvaziam o estômago mais devagar. Bebidas esportivas ficam entre 4 e 8 por cento justamente porque essa faixa entrega energia sem travar o esvaziamento gástrico. Nossa receita tem cerca de 60 gramas de carboidrato por litro, contando o açúcar da laranja, o que dá 6 por cento.

Sobre o sódio: o posicionamento do American College of Sports Medicine sobre exercício e reposição hídrica, assinado por Sawka e colaboradores, trabalha com bebidas contendo sódio na faixa de 20 a 30 mmol por litro em situações de sudorese alta. Um grama de sal de cozinha fornece cerca de 400 miligramas de sódio, o que fica dentro dessa faixa. Shirreffs e colaboradores já haviam demonstrado que a reidratação depois do exercício é bem melhor com bebida contendo sódio do que com água pura.

Quando o isotônico serve e quando a água basta?

A bebida esportiva resolve três problemas ao mesmo tempo: repõe água, repõe sódio e fornece carboidrato. Se o seu treino não gera nenhum desses três problemas, ela não tem função.

SituaçãoMelhor escolhaPor quê
Treino de até 60 min, clima amenoÁguaPerda de sódio pequena, glicogênio suficiente
Treino de 60 a 90 minÁgua, ou isotônico se houver calorCarboidrato começa a ajudar
Treino acima de 90 minIsotônico caseiro ou industrializadoRepõe sódio e sustenta o ritmo
Calor forte, roupa encharcada, marca branca de sal na peleIsotônico com sódio na faixa altaPerda de sódio elevada
Depois do treino, com desidratação evidenteBebida com sódio, ou água com refeição salgadaSódio retém o líquido ingerido
Diarreia ou vômitoSoro de reidratação oral, com orientação médicaComposição diferente, objetivo clínico

Repare na última linha. Soro caseiro para diarreia e isotônico para treino não são a mesma bebida. O soro de reidratação oral segue a fórmula da Organização Mundial da Saúde, com menos carboidrato e mais sódio, e existe para tratar perda intestinal. Usar um no lugar do outro é erro comum e pode piorar o quadro. A comparação entre água e bebida esportiva no dia a dia eu detalho em água ou isotônico no treino.

O caseiro é igual ao comprado pronto?

Nutricionalmente, muito parecido. As bebidas esportivas de prateleira ficam entre 5 e 8 por cento de carboidrato e entre 40 e 120 miligramas de sódio por 100 ml, com potássio em quantidade pequena. A receita caseira cai dentro dessas faixas e custa uma fração do preço.

A diferença real está em três pontos práticos. O industrializado tem sabor mais estável, dispensa preparo e vem em embalagem que não estraga. O caseiro permite ajustar sódio e açúcar para a sua taxa de suor, algo que nenhuma marca faz. E o caseiro não tem corante nem os aromatizantes que algumas pessoas não toleram bem em esforço.

Maughan e colaboradores, no American Journal of Clinical Nutrition, criaram um índice de hidratação de bebidas comparando o quanto cada uma retém líquido no corpo em relação à água. As bebidas que se saíram melhor foram as que continham sódio, açúcar ou proteína, o que reforça o raciocínio: não é a marca que hidrata, é a composição.

Sal a gosto não existe aqui

Esse é o ponto em que a receita caseira mais erra. Uma pitada de sal para uns é 0,3 grama e para outros é 2 gramas, e a diferença muda completamente a bebida. Use colher medidora ou balança na primeira vez, prove, e depois marque a quantidade num papel colado no armário. Depois de calibrar uma vez, você faz no automático pelo resto do ano.

Dá para fazer sem açúcar ou com bicarbonato?

Sem açúcar, dá, mas você deixa de ter uma bebida esportiva e passa a ter água com sódio. Isso faz sentido em treino longo em que o carboidrato já vem de gel ou de comida, e faz sentido em quem quer só repor eletrólito sem somar calorias. Basta 1 grama de sal por litro de água, com suco de limão para o sabor. Adoçante pode entrar se ajudar a beber mais.

Com bicarbonato de sódio a conversa é diferente. Bicarbonato tem sódio, mas o uso dele no esporte não é hidratação: é tamponamento para esforços curtos e intensos, com protocolo próprio de dose e horário, e com efeitos gastrointestinais frequentes. Colocar bicarbonato no isotônico do treino longo mistura duas coisas que não se misturam. Eu trato desse uso específico em bicarbonato de sódio na corrida.

Outra variação que aparece muito é a com água de coco. Ela tem bastante potássio e pouco sódio, o que a torna uma bebida agradável, mas incompleta para reposição em treino longo com muito suor. Se quiser usar, misture metade água de coco e metade água com 1 grama de sal por litro do total.

Como saber quanto você perde de suor e de sódio?

A taxa de suor se mede em casa, sem equipamento. Pese-se sem roupa antes do treino, treine por uma hora anotando quanto líquido bebeu, e pese-se de novo sem roupa e seco. A diferença de peso em gramas, somada ao que você bebeu em mililitros, é a sua perda aproximada por hora.

Alguém que perde 1,2 kg em uma hora e bebeu 500 ml suou cerca de 1,7 litro naquela hora. Esse número muda com temperatura, umidade e intensidade, então vale medir em dias diferentes. Em Londrina, no verão, é comum a mesma pessoa suar o dobro do que sua em junho.

Já a concentração de sódio no suor varia muito entre pessoas. Baker revisou o tema em Sports Medicine e mostrou faixas amplas, de valores baixos a bastante altos, com variação também dentro do mesmo indivíduo conforme o método de coleta. Na prática de consultório, os sinais que eu uso são indiretos: marca esbranquiçada na viseira e na roupa, ardência no olho ao suar e histórico de cãibra apontam para perda maior e justificam a versão com mais sal.

Os erros mais comuns na receita caseira

O primeiro é a bebida doce demais. Muita gente usa suco puro achando que melhora, e chega a 11 ou 12 por cento de carboidrato. Isso atrasa o esvaziamento gástrico e produz enjoo e sensação de barriga cheia justamente quando você precisa correr.

O segundo é esquecer o sal. Sem sódio a bebida vira suco diluído: ela hidrata menos que deveria e não corrige a perda de eletrólito. Foi exatamente isso que Shirreffs e colaboradores mediram, e depois Evans e colaboradores revisaram no Journal of Applied Physiology ao tratar da restauração do balanço hídrico depois do exercício.

O terceiro é usar a bebida gelada demais ou quente demais. Líquido em temperatura entre 10 e 15 graus costuma ser o mais bem aceito e o mais consumido. E o quarto é estrear a receita no dia da prova. Como qualquer coisa que entra durante o esforço, o isotônico caseiro precisa de teste em treino longo antes, princípio que vale igualmente para o que se come antes de uma prova de 10 km.

Existe risco em exagerar no sódio?

Para uma pessoa saudável em treino, o risco maior não é o excesso de sódio na bebida, é o excesso de água sem sódio nenhum. Beber volumes muito grandes de água pura em provas longas pode diluir o sódio do sangue e levar a hiponatremia associada ao exercício, quadro descrito no consenso internacional coordenado por Hew-Butler e colaboradores e publicado no Clinical Journal of Sport Medicine. É uma situação incomum, mas séria.

No outro extremo, encher a garrafa de sal não melhora nada e piora o sabor, o que reduz o quanto você bebe. A faixa útil é a que está na receita. Quem tem hipertensão, doença renal, insuficiência cardíaca ou usa medicação que interfere no sódio e no potássio precisa conversar com o médico antes de adotar bebida com sal em rotina, porque a conta ali não é a mesma.

Fora dessas situações, o isotônico caseiro é uma ferramenta simples e barata. Ele não melhora desempenho por si só e não substitui a alimentação dos dias que antecedem a prova, mas resolve bem a parte da hidratação em treino longo e no calor. Se você quer estruturar isso junto com o resto do plano, é o tipo de ajuste que eu faço no acompanhamento de nutrição esportiva.

Perguntas frequentes

Isotônico caseiro engorda?

Um litro da receita tem cerca de 60 gramas de carboidrato, algo em torno de 240 kcal. Durante treino longo isso é combustível. Tomado como bebida do dia a dia, fora do exercício, vira açúcar líquido sem função. O erro não é a bebida, é o contexto de uso.

Posso usar maltodextrina no lugar do açúcar?

Pode, e a bebida fica menos doce e um pouco menos concentrada em osmolalidade para a mesma quantidade de carboidrato. Use 50 a 60 gramas por litro. O sabor fica mais neutro, o que ajuda em treino longo, quando o doce começa a enjoar.

Quanto devo beber por hora de treino?

Não existe número único. O ponto de partida razoável é de 400 a 800 ml por hora, ajustado pela sua taxa de suor medida na balança. Beber por sede funciona bem na maioria das situações e reduz o risco tanto de desidratação quanto de excesso de líquido.

Água de coco substitui o isotônico?

Só em parte. Ela tem potássio em boa quantidade, mas pouco sódio, que é o eletrólito perdido em maior volume no suor. Em treino curto serve como bebida agradável; em treino longo com muito suor, precisa de sal acrescentado para cumprir o mesmo papel.

Criança pode tomar isotônico caseiro?

Para atividade recreativa e curta, criança precisa de água, não de bebida esportiva. Em treino longo no calor, dentro de um esporte estruturado, a bebida pode entrar, com quantidade proporcional ao tamanho da criança e orientação individual. Isotônico como bebida de rotina infantil não tem justificativa.

Marcos Hirata
Nutricionista, CRN 8201
Revisado em agosto de 2026

Referências

  1. Sawka MN, Burke LM, Eichner ER, Maughan RJ, Montain SJ, Stachenfeld NS. Exercise and Fluid Replacement. Medicine and Science in Sports and Exercise. 2007;39(2):377-390. DOI: 10.1249/mss.0b013e31802ca597
  2. Shirreffs SM, Taylor AJ, Leiper JB, Maughan RJ. Post-exercise rehydration in man: effects of volume consumed and drink sodium content. Medicine and Science in Sports and Exercise. 1996;28(10):1260-1271. DOI: 10.1097/00005768-199610000-00009
  3. Maughan RJ, Watson P, Cordery PA, et al. A randomized trial to assess the potential of different beverages to affect hydration status: development of a beverage hydration index. The American Journal of Clinical Nutrition. 2016;103(3):717-723. DOI: 10.3945/ajcn.115.114769
  4. Evans GH, James LJ, Shirreffs SM, Maughan RJ. Optimizing the restoration and maintenance of fluid balance after exercise-induced dehydration. Journal of Applied Physiology. 2017;122(4):945-951. DOI: 10.1152/japplphysiol.00745.2016
  5. Baker LB. Sweating Rate and Sweat Sodium Concentration in Athletes: A Review of Methodology and Intra/Interindividual Variability. Sports Medicine. 2017;47(S1):111-128. DOI: 10.1007/s40279-017-0691-5
  6. Vist GE, Maughan RJ. The effect of osmolality and carbohydrate content on the rate of gastric emptying of liquids in man. The Journal of Physiology. 1995;486(2):523-531. DOI: 10.1113/jphysiol.1995.sp020831
  7. Hew-Butler T, Rosner MH, Fowkes-Godek S, et al. Statement of the Third International Exercise-Associated Hyponatremia Consensus Development Conference, Carlsbad, California, 2015. Clinical Journal of Sport Medicine. 2015;25(4):303-320. DOI: 10.1097/JSM.0000000000000221
  8. Thomas DT, Erdman KA, Burke LM. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics, Dietitians of Canada, and the American College of Sports Medicine: Nutrition and Athletic Performance. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics. 2016;116(3):501-528. DOI: 10.1016/j.jand.2015.12.006
  9. World Health Organization, UNICEF. Oral rehydration salts: production of the new ORS. Geneva: World Health Organization; 2006.

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